O governo dos Estados Unidos apresentou ao Brasil uma lista de 21 exigências como parte das negociações para reduzir o tarifaço de 50% imposto sobre produtos brasileiros. O documento, entregue aos negociadores brasileiros em outubro de 2025, reunia medidas comerciais, regulatórias e políticas, incluindo condições relacionadas às eleições presidenciais de 2026 e à participação de chamados “dissidentes políticos” no processo eleitoral. Mais informações em TVT News.
A proposta dos norte-americanos previa que o Brasil garantisse eleições consideradas “livres e justas” e não prendesse ou restringisse a participação de pessoas classificadas pelos Estados Unidos como dissidentes políticos. O governo brasileiro interpretou a formulação como uma referência à situação de Jair Bolsonaro, que já estava condenado pelo Supremo Tribunal Federal e inelegível quando a proposta foi apresentada.

O tema, no entanto, não avançou nas negociações. O Ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira recebeu o documento durante uma missão brasileira a Washington e determinou que os Estados Unidos fossem informados de que aquelas condições não serviriam de base para a negociação. Posteriormente, o assunto foi levado ao presidente Lula.
O Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Márcio Elias Rosa declarou, no mês passado, que essas demandas não chegaram a ser discutidas na mesa de negociação e foram imediatamente rejeitadas pelo governo brasileiro.
Pressão sobre setores estratégicos
A maior parte das exigências tratava de comércio e economia. Os Estados Unidos pediram redução ou eliminação de tarifas brasileiras sobre produtos como etanol, químicos, máquinas, veículos e bens de alta tecnologia. Também foram incluídas exigências relacionadas a produtos remanufaturados e serviços digitais.
As negociações também envolveram sistemas de pagamento. Uma das exigências previa que o Banco Central adotasse o princípio de “neutralidade competitiva” na regulação dos arranjos de pagamento, mirando diretament o Pix, como uma ameaça aos sistema de pagamento hegemônicos promovidos por instituições norte-americanas, como as bandeiras Visa e Mastercard.

Outro grupo de medidas tratava de minerais críticos e terras raras. A proposta previa que o Brasil comunicasse previamente aos Estados Unidos possíveis transferências de ativos nesse setor e estabelecesse mecanismos relacionados a investimentos estrangeiros considerados estratégicos. O documento ainda mencionava aviação, trabalho forçado, desmatamento, pesca ilegal, soja e aço como motivações para aplicação das sanções comerciais.
Os Estados Unidos também condicionaram uma eventual redução das tarifas a concessões para empresas americanas nos setores industrial, químico, aeroespacial e automotivo. Entre outros pontos apresentados anteriormente estavam a redução da tarifa sobre o etanol e demandas envolvendo plataformas digitais.
Nova proposta retirou questões políticas
Em janeiro, os Estados Unidos apresentaram uma segunda versão da proposta, mais curta, com sete setores e 14 tópicos. Os pontos relacionados à política interna brasileira foram retirados, mas permaneceram exigências sobre tarifas, comércio digital, indústria, minerais críticos e trabalho forçado.
As negociações continuaram ao longo de 2025 e 2026, com reuniões e contatos entre autoridades dos dois países. Apesar de exceções para alguns produtos brasileiros, como itens agrícolas, a guerra comercial continuou marcada por novas tarifas e investigações movidas pelos norte-americanos.
Uma nova oportunidade de diálogo entre Brasil e Estados Unidos pode surgir na próxima terça-feira (22), durante a abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. O presidente Lula fará o primeiro discurso, seguindo a tradição da ONU, e será sucedido pelo presidente norte-americano, Donald Trump.

A proximidade entre os discursos abre a possibilidade de um encontro informal entre os dois presidentes nos bastidores. Até o momento, porém, não há uma reunião bilateral confirmada. Um eventual contato poderia abrir espaço para novas conversas em meio às divergências entre os dois países.