O escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador e pré-candidato à Presidência da República, emitiu notas fiscais que somam ao menos R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que ele exerceu o mandato parlamentar. Leia em TVT News.
A maior parte dos documentos descreve os serviços prestados apenas como “assessoria jurídica”, sem detalhar os trabalhos realizados.
O levantamento foi publicado pelos jornalistas Artur Rodrigues e Fabio Serapião do UOL, que analisaram 62 comprovantes fiscais da empresa. Cerca de metade das notas foi emitida para pagamentos feitos por outros escritórios de advocacia.
Ao consultar sistemas dos tribunais estaduais, federais e superiores, a reportagem localizou apenas um processo relacionado aos clientes identificados nos documentos.
A ausência de processos identificados não significa, por si só, que os serviços não tenham sido prestados. A atividade jurídica também inclui consultorias, orientações e elaboração de pareceres. Procurados pelo UOL, os clientes não detalharam a atuação de Flávio.
Polícia Federal investiga movimentações financeiras
A banca de advocacia está no centro de uma investigação da Polícia Federal, aberta para apurar as transações da empresa. O inquérito tramita sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após surgirem indícios de possível compartilhamento de contas bancárias entre Flávio e o advogado Willer Tomaz, amigo do senador. Os dois negam dividir a titularidade de uma conta.
Uma das notas fiscais analisadas pelo UOL indica uma conta no Santander que, segundo a PF, seria compartilhada pelos dois. Os pagamentos recebidos pelo escritório também foram direcionados a uma conta no BRB, Banco de Brasília.
Flávio já é alvo de outra apuração relacionada ao financiamento do filme Dark Horse. No caso envolvendo a banca de advocacia, a suspeita de conexão financeira com Tomaz motivou o pedido de abertura de novo inquérito.
O escritório foi criado em abril de 2021 e tem como endereço a residência do senador, uma mansão no Lago Sul, em Brasília. Flávio é o titular da sociedade individual, que não possui outros funcionários.
A administradora é Letícia Caetano dos Reis, irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis, preso em dezembro de 2025 sob suspeita de envolvimento em fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Os pagamentos ao escritório de Flávio Bolsonaro
Escritório de advocacia concentra pagamentos milionários
O maior cliente identificado é o Nilo & Almeida Advogados Associados, que emitiu duas notas fiscais de R$ 2 milhões cada, em agosto e outubro de 2025. Os valores representam 29% do faturamento documentado da empresa de Flávio. Os comprovantes descrevem os serviços como “assessoria jurídica” e indicam uma conta no BRB para os pagamentos.
O sócio do escritório, Edvaldo Nilo de Almeida, afirmou ao UOL que os valores estavam relacionados a um contrato firmado em abril de 2025.
Segundo ele, os dois escritórios prestaram serviços conjuntamente a clientes privados, sem participação de recursos públicos ou de entes federativos. Nilo não identificou os clientes nem os casos envolvidos e disse que o contrato foi encerrado após a prestação dos serviços.
Nilo foi nomeado por Jair Bolsonaro (PL) para a Comissão de Ética Pública da Presidência em 2022, onde permaneceu até 2025. Atualmente, integra o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), em vaga destinada à indicação da Câmara dos Deputados.
As notas foram emitidas no mesmo ano em que ele buscava a recondução ao conselho, aprovada pelo Senado em 12 de novembro de 2025. Em setembro de 2026, publicou artigo declarando apoio à candidatura presidencial de Flávio.
A segunda maior fonte de pagamentos foi a Simas Industrial de Alimentos, fabricante de doces do Rio Grande do Norte, que pagou R$ 3,3 milhões ao escritório em três notas emitidas entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024.
Flávio recebeu procuração para representar a companhia em uma disputa societária que chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2022. Willer Tomaz também atuou no caso, cuja existência havia sido divulgada pelo Estadão naquele ano.
Esse foi o único processo que o UOL conseguiu localizar entre os clientes identificados nos documentos. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhou ao inquérito da operação Dark Horse uma comunicação do Banco Daycoval sobre duas transferências que chamaram a atenção da Simas para o escritório de Flávio.
Amigos de Kassio Nunes Marques

Duas sociedades de advocacia que levam o nome de Otto Medeiros aparecem em notas que totalizam R$ 2,1 milhões. Otto é amigo do ministro do STF Kassio Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro, que se declara impedido de atuar em casos envolvendo o advogado.
Otto também já trabalhou em processos ao lado de Karine Nunes Marques, irmã do ministro.
Os documentos registram cobranças mensais de R$ 50 mil em 2023 e 2024, reduzidas para R$ 40 mil a partir de 2025. A banca contratante afirmou que buscou consultoria jurídica privada e que suas parcerias são definidas com base em critérios técnicos, experiência e competência profissional.
Outro cliente é o escritório de Daniel Bettamio Tesser, integrante da defesa de Jair Bolsonaro. Entre dezembro de 2025 e março de 2026, foram emitidas notas que somam R$ 970 mil, também descritas como pagamentos por assessoria jurídica. O escritório foi procurado para esclarecer os serviços, mas não respondeu até a publicação da reportagem.
A documentação inclui ainda registros relacionados à Copenhagen Assessoria e Consultoria, empresa que recebeu R$ 57,9 milhões do Banco Master, de Daniel Vorcaro, entre 2024 e 2025.
Em abril de 2025, o escritório de Flávio emitiu duas notas de R$ 500 mil para a Copenhagen, ambas canceladas. Dois dias depois, emitiu uma nota de R$ 500 mil para a Contábil Correa Contabilidade & Auditoria, cujo sócio-administrador, Rogério Lourenço Novo, também é diretor da Copenhagen.
A lista inclui Marcos Antonio Grecco, fundador do GNPW Group, parceira empresarial da Evolution Power Partners, empresa que arrematou R$ 17 bilhões em contratos no leilão emergencial de energia de 2021, durante o governo Jair Bolsonaro.
Grecco afirmou ter contratado Flávio em 2024 para representá-lo em um processo judicial, sem relação com os leilões de energia ou com a GNPW. Ele também questionou a divulgação dos dados, alegando quebra ilegal de sigilo fiscal e bancário, e disse que tomaria as providências cabíveis.
Já o escritório Leonardo Amarante Advogados Associados pagou R$ 239 mil por pareceres jurídicos. Em declaração ao UOL, afirmou que os documentos foram entregues e remunerados mediante nota fiscal, respeitando o sigilo profissional.
A campanha de Flávio não se manifestou
Parlamentares podem manter atividades profissionais paralelas ao mandato, desde que respeitem as restrições legais. No caso da advocacia, senadores não podem integrar a Mesa Diretora do Senado nem atuar em causas que envolvam órgãos públicos, empresas estatais ou autarquias.
Procurada pelo UOL, a campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu até a publicação da reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.