Folha e Estadão apontam risco de censura na atuação do TSE às vésperas da eleição

Jornais criticam minuta que previa bloquear canais com mais de 200 mil inscritos antes do segundo turno e questionam o poder da Justiça Eleitoral de restringir o debate político
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Ministro André Mendonça. Foto: Carlos Moura/SCO/STF

Os jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo convergiram na crítica à proposta discutida no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para bloquear canais de WhatsApp com mais de 200 mil inscritos que publicassem conteúdo político-eleitoral nas 48 horas anteriores ao segundo turno. Leia em TVT News.

Em editoriais, os dois veículos classificaram a iniciativa como uma ameaça à liberdade de expressão e questionaram a tentativa da Justiça Eleitoral de restringir o debate político antes da votação.

>> TSE barra tentativa de suspender canal “Exército do Lula” às vésperas do segundo turno

A proposta foi elaborada em uma minuta de resolução pelo ministro André Mendonça, vice-presidente do TSE, e discutida em reuniões nos dias 16 e 20 de outubro. A medida alteraria as regras eleitorais para permitir o bloqueio de canais com grande número de participantes. A iniciativa não avançou por falta de apoio da maioria dos ministros, mas o gabinete de Mendonça informou ao Estadão que o texto continuava em discussão interna.

Folha critica restrição de última hora de Mendonça e Nunes Marques

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Mensagens ligadas ao caso Banco Master, pagamentos ao filho do ministro Nunes Marques e mudança em declaração de impedimento levantam questionamentos. Foto: Carlos Moura/STF

No editorial “Kassio e Mendonça enxergam TSE como arma de censura”, a Folha avaliou que a proposta tinha como principal alvo o canal “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), que reúne milhões de participantes.

>> Acesse o canal de WhatsApp “Exército do Lula”

Embora a regra também pudesse atingir a “Tropa do Flávio”, ligada à campanha de Flávio Bolsonaro (PL), o jornal apontou uma diferença expressiva no tamanho e no engajamento dos grupos.

A publicação destacou que a suspensão preventiva de canais, sem comprovação de irregularidades específicas, representaria censura prévia. Para o jornal, eventuais infrações eleitorais devem ser apuradas e combatidas depois de demonstradas, com medidas proporcionais, em vez de impedir antecipadamente a circulação de conteúdos políticos.

A Folha também ressaltou que mais de cem juristas, pesquisadores e representantes da sociedade civil encaminharam ao TSE uma nota técnica contrária ao bloqueio. Segundo o documento, a medida restringiria a liberdade política e alteraria as condições da disputa eleitoral.

Especialistas ouvidos pelo jornal consideraram a iniciativa inconstitucional por afetar as liberdades de expressão e de reunião no ambiente digital.

Estadão questiona poder de definir o que é conteúdo político

No editorial “O TSE e a tentação da censura”, o Estadão também criticou a tentativa de restringir canais políticos às vésperas do segundo turno.

O jornal argumentou que a proposta não se limitava a publicações consideradas ilegais, mas abrangia conteúdos políticos de forma ampla, deixando margem para interpretações subjetivas sobre o que poderia ser divulgado.

A publicação questionou quem definiria quais mensagens seriam classificadas como políticas e se assuntos como segurança pública, Bolsa Família ou o próprio funcionamento do TSE poderiam justificar restrições. Na avaliação do jornal, essa indefinição abriria espaço para decisões arbitrárias e para a intervenção do poder judiciário no debate público.

O Estadão também lembrou que a adesão a canais de WhatsApp é voluntária: os usuários escolhem quais páginas acompanhar e podem deixar de segui-las quando quiserem. Por isso, considerou inadequado que a Justiça Eleitoral decidisse preventivamente quais conteúdos os cidadãos poderiam receber antes de votar.

Outro ponto levantado pelo editorial foi o calendário eleitoral. A Lei das Eleições determina que as instruções do TSE para cada pleito sejam expedidas até 5 de março do ano eleitoral. Para o jornal, uma mudança de regras tão perto da votação contrariaria a previsibilidade que deve orientar o processo eleitoral.

Recuo não encerra questionamentos

O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, declarou ao Estadão ser contrário a mudanças de última hora nas regras eleitorais. Após a repercussão do caso, ele atribuiu a autoria da minuta a André Mendonça.

O vice-presidente, por sua vez, afirmou que a proposta não era uma iniciativa individual e dependia de deliberação colegiada.

Os dois editoriais apontaram que o recuo não elimina as preocupações com a atuação da Corte. A Folha lembrou que Nunes Marques já havia determinado a suspensão do canal de Janones, decisão posteriormente revertida pelo relator do caso.

O Estadão, por sua vez, relacionou a discussão a decisões anteriores de ministros do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF), criticando o que considera uma interferência judicial no debate eleitoral.

Apesar das diferenças de enfoque, os jornais convergiram em um ponto: impedir preventivamente a circulação de conteúdo político em canais amplos de comunicação pode restringir a liberdade de expressão e reduzir o espaço para a discussão pública em um momento decisivo da eleição.

Para ambos, a Justiça Eleitoral deve atuar para assegurar a regularidade do pleito sem assumir o papel de tutelar o que os eleitores podem ler ou discutir.

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