Por: Lorena Basilia, Manoella Marinho, estagiárias sob a supervisão do jornalista Alexandre Barbosa
O despertar causado pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais reacendeu o movimento estudantil brasileiro e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro não ficou de fora da luta, por ser símbolo de resistência e militância há décadas.
O que surpreendeu foi a resposta da reitoria: os estudantes foram proibidos de promover qualquer tipo de movimento político nas dependências da universidade, desde o dia 12 de outubro até o fim do período eleitoral.
No dia 13 de outubro, durante a mobilização, que aconteceu em frente à universidade, a memória de Marielle Franco, ex-vereadora do Rio de Janeiro formada pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), foi alvo de deboche.
O influenciador da extrema direita Breno Faria, conhecido como “Café com Teu Pai” e candidato a deputado federal pelo Partido Liberal (PL) em 2026, ironizou o assassinato da parlamentar enquanto apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entoavam “Marielle, presente”.
O episódio ocorreu durante atos de grupos alinhados a Lula e ao senador Flávio Bolsonaro (PL), que reuniram manifestantes e carros de som na entrada da instituição, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro.
A PUC como resistência
A PUC-Rio teve estudantes envolvidos na mobilização política dos anos 1960, período em que a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o movimento estudantil se destacaram na oposição à ditadura militar. Aldo Arantes, então estudante de Direito e presidente da UNE, é um dos nomes associados a essa trajetória. A história da instituição também passa pela atuação de Lélia Gonzalez, intelectual e professora da universidade nos anos 1980, Uma produção fundamental para o pensamento sobre raça, gênero e classe no Brasil.
Todas as lutas que compõem a universidade, constroem um ambiente de crescimento e relevância de Marielle Franco na história da universidade. Formada em Ciências Sociais pela PUC-Rio em 2007, uma mulher negra, cria da Maré e defensora dos direitos humanos, Marielle construiu sua atuação política em torno do enfrentamento às desigualdades, da defesa dos direitos das mulheres e da denúncia da violência de Estado. Em 14 de março de 2018, foi assassinada a tiros junto ao motorista Anderson Gomes, em um crime que se tornou um marco da violência política no país.
Sua história na última semana volta ao centro da universidade, quando grupos com posições políticas opostas organizam mobilizações nas proximidades da instituição. Na segunda-feira (12), a Vice-Reitoria Comunitária da PUC-Rio anunciou que não autorizaria eventos de natureza político-partidária em suas dependências até o encerramento do período eleitoral.
A universidade, em nota, classificou a medida como “preventiva e excepcional” e justificou a decisão pela necessidade de preservar a segurança.
Entre as manifestações na áreas externas da universidade, estava o ato “A PUC Também é Nossa”, organização feita pela Liga da Juventude Livre, que defendia maior espaço para diferentes posições políticas no ambiente universitário e havia anunciado uma mobilização de estudantes alinhados a Flávio Bolsonaro.
Influenciador zombou da morte de Marielle
Durante a mobilização, Breno Faria estava em um carro de som ao lado dos vereadores Rogério Amorim e Rafael Satiê, ambos do PL, quando respondeu aos gritos de manifestantes de esquerda que homenageavam Marielle.
Em um dos trechos registrados em vídeo, o influenciador debochou da morte da ex-vereadora e fez provocações sobre a ausência paterna. “Marielle tá no céu, com Papai do Céu, não adianta. Ou não, né? Ou tá no colo do capeta. Marielle tá igual o pai de vocês: ‘o pai, ausente. O pai, ausente. O pai, ausente’”, declarou, enquanto ria.Deboche que ocorreu em frente a universidade em que Marielle se formou, vinculando a disputa eleitoral à memória de uma parlamentar assassinada em um crime de motivação política.
Os registros rapidamente se espalharam pela internet, e provocaram grande repercussão. A fala incentivada por manifestantes era “Marielle, presente”, expressão utilizada em mobilizações para homenagear pessoas assassinadas e reafirmar a continuidade de suas lutas.
A PUC reafirmou o compromisso com o diálogo e o respeito às diferenças. Procurada pelo jornal O Dia após o episódio, a universidade informou que não se pronunciará sobre o caso, pois anteriormente já teria dito que a decisão de restringir eventos político-partidários buscava preservar um ambiente de convivência respeitosa, plural e pacífica durante o período eleitoral.
Quem se mobilizou na PUC a favor da democracia e direitos humanos não se deixou abalar pelas ofensas da extrema direita contra Marielle Franco e o que ela representa.
Na quinta-feira (23), com a presença de Anielle Franco, deputada estadual pelo PSOL e irmã, houve um movimento da PUC-RIO Antifascista e APG PUC-RIO para relembrar essa figura, que mesmo após sua morte, continua presente na luta racial, LGBTQIAPN+ e contra o fascismo no Brasil.
Os estudantes seguravam placas da rua Marielle Franco, estendiam bandeiras enquanto gritavam “Marielle presente”. Em suas redes sociais, Anielle declarou “seguiremos nas ruas, nas instituições e em todos os espaços, porque honrar Marielle é continuar sua luta por um Brasil onde todas as vidas tenham valor e todos os direitos sejam respeitados.”
Marielle, presente
Marielle Franco é a representação do que o conservadorismo tenta apagar, uma mulher negra nascida na periferia, bissexual e militante. Ela superou as estatísticas e se tornou socióloga pela PUC-RIO e eleita vereadora do Rio de Janeiro em 2016. Sua voz começou a incomodar aqueles que desejavam alimentar a extrema direita que conhecemos hoje, quando Marielle falava abertamente das causas sociais que defendia, não se deixava silenciar pelo preconceito.

No auge de sua luta, em 14 de março de 2018, ela foi assassinada a tiros dentro de um carro no bairro Estácio no Rio de Janeiro, mas se enganou quem pensava que ali acabaria seu legado.
Poucas semanas após seu assassinato, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro realizou uma sessão extraordinária dedicada ao seu legado e aprovou cinco projetos de lei idealizados em vida, que sintetizam as pautas centrais do seu mandato.
São eles: o Programa Espaço Coruja, voltado ao acolhimento infantil noturno para mães que trabalham ou estudam à noite; a campanha “Assédio Não É Passageiro”, de combate à violência sexual no transporte público; o Dossiê Mulher Carioca, focado na unificação de dados sobre a população feminina para orientar políticas públicas; a inclusão do Dia de Tereza de Benguela e da Mulher Negra no calendário oficial da cidade; e a lei de efetivação de medidas socioeducativas em meio aberto para a qualificação e inserção profissional de jovens periféricos.
O incômodo com a figura de Marielle não é fruto do acaso ou de simples brutalidade individual. Trata-se de uma tática política consciente e do sintoma de uma ferida aberta no projeto reacionário brasileiro. O ataque constante à sua memória expõe o pavor do fascismo diante do que ela encarnou em vida.
Marielle é uma dose de esperança nos tempos de hoje, deve ser usada de exemplo para continuar a luta, já que sua voz não foi enterrada junto ao seu corpo e segue vivíssima na política brasileira.
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