Luna Costa, Marcelle Decothé e Rithyele Dantas. (Narra)
Durante três semanas, 10 milhões de desconhecidos acordaram e dormiram em torno das mesmas mensagens e missões. Uma diarista de 52 anos, estudantes, aposentados e vizinhos que nunca falavam de política formaram, num canal de WhatsApp, a comunidade que ajudou a decidir uma eleição brasileira
Numa tarde de outubro, entre uma faxina e outra, minha mãe me mandou um áudio. Ela tem 52 anos, ela é diarista e costuma me mandar áudios durante o dia. Aquele tinha poucos segundos: “Eu tô lá no exército do Lula. É muita mensagem” Achei curioso, porque eu não tinha mandado o link. Ela chegou sozinha, do jeito que se chega ao supermercado novo do bairro: alguém comentou, alguém encaminhou e, quando viu, já estava dentro.
Ali percebi que aquilo já não tinha dono. E que, mesmo assim, alguém dava os comandos.
O medo tinha data: no domingo, 4 de outubro, o país foi dormir com um resultado que poucas pesquisas tinham antecipado: Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, e Lula, 45,16%, uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos. O PL tinha se espalhado pelo mapa do Brasil. Nos grupos de amigos, nas mesas de bar, a pergunta era sempre a mesma, feita em voz baixa: e se?

O canal já existia. O deputado André Janones o criou no WhatsApp em abril de 2026, com cerca de 50 mil participantes. Era uma reserva, um quartel quase vazio. Depois do primeiro turno, virou outra coisa: em 24 horas, chegou a 500 mil inscritos.
Janones, deputado pela Rede de Minas Gerais, de origem simples, já era conhecido pelas lives e pelo talento para se comunicar, mas o que ele fez naquelas três semanas não cabe na palavra “influenciador”. Ninguém esquece o pedido que fez logo depois do primeiro turno, quando olhou para a câmera e pediu que olhássemos no fundo dos olhos dele e confiássemos, e a gente, que precisava muito confiar em alguém, confiou.
O comando chegava sempre do mesmo jeito: “Pessoal, urgente.” Virou meme rápido, e tinha graça. Tinha também alguma coisa a mais.
“Pessoal” talvez seja um dos vocativos mais brasileiros que existe. Os movimentos sociais e sindicais talvez usassem “companheiros”. Janones preferiu um chamado sem hierarquia, que inclui todo mundo. “Urgente” é a palavra do celular, do boleto, da mensagem que chega à noite. Era uma operação de massa, com metas na casa dos milhões, mas falava com a gente no tom de quem tira o sapato e pergunta como foi o dia.
A rotina foi se impondo sem que a gente notasse: acordávamos querendo saber qual era a missão, o assunto do dia, dormíamos já sabendo qual seria a ação das 9 horas e só íamos para a cama depois que o general liberava a tropa, e no meio disso tudo ainda dávamos conta do trabalho, da casa, dos filhos, pets, embora boa parte da energia, e talvez do afeto, fosse mesmo para o Exército do Lula.

Surgiu até uma etiqueta. Chegar a uma publicação e ver que alguém do exército já tinha comentado trazia um alívio misturado com respeito, como encontrar um conhecido num lugar estranho. Quem chegava primeiro abria o caminho; quem vinha depois engrossava a onda, e ninguém ali queria aparecer mais que o outro. Daí nasceu um sentimento de “eu sei que você estava lá”. E havia humor, muito humor, no meio de uma tensão que não dava trégua: reels com os gritos do general, memes, aquela velha mistura brasileira da “bagunça organizada”.
Nem tudo foi festa, e em meados de outubro o Tribunal Superior Eleitoral entrou na história quando seu presidente, Kassio Nunes Marques, suspendeu as atualizações e a entrada de novos seguidores no canal, que tinha então 3,7 milhões de usuários.
O canal só voltou a funcionar no dia 13, depois que a campanha o registrou no tribunal, e Janones, que podia ter transformado o episódio em guerra, preferiu dizer que não mandaria a tropa atacar o ministro e que aquele exército defendia a Democracia. Logo depois passamos dos 4 milhões, e quanto mais nos atacavam, mais queríamos que crescesse.
Por curiosidade, fui espiar a “Tropa do Flávio”, o canal do adversário, que chegou a passar de 2 milhões de seguidores, e a diferença de tom era evidente. E hoje, orgulhosamente, sabemos que a construção do nosso Exército não contou com mentiras, ódio, fake news e distorção.
Uma semana depois o general caiu, internado numa UTI em São Paulo na madrugada de 19 de outubro com arritmia cardíaca, e durante algumas horas a tropa ficou sem voz de comando, tensa, sem saber como seguir sem a pessoa em quem tinha aprendido a confiar tanto e que dava direção.

Lula escreveu nas redes “Vamos lá, meu general”, dois dias depois, Janones avisou que sairia do hospital pela porta da frente para comandar o “MAIOR EXÉRCITO DEMOCRÁTICO DO MUNDO”, assim mesmo, em caixa alta. Saiu às 13h13, para alívio de milhões de soldados.
Aí começou a contagem. O general fechou o grupo e avisou que não haveria missões até batermos 7 milhões, marca que o canal passou em 21 de outubro, a quatro dias do segundo turno, e então ele subiu a aposta: agora queria 10 milhões, e só aí revelaria a fórmula da vitória. Viramos recrutadores, cada um com seus três, quatro, cinco convertidos, a mãe, o vizinho, a colega de trabalho que nunca falava de política, e ficou difícil achar quem não tivesse recebido o link em mais de um grupo do whatsapp.

Na sexta-feira, 23 de outubro, o canal chegou a 10 milhões e passou a Netflix, virando o segundo maior canal do WhatsApp no Brasil. Naquela mesma noite, depois do debate, começou uma live de 24 horas com uma ordem clara: ficar acordado, cancelar encontro, adiar compromisso e, se precisasse sair, deixar alguém no seu lugar.
E a fórmula dos 10 milhões? Nenhuma sofisticação, nenhum truque digital, só isto: busquem alguém que não foi votar.
Esperávamos a tal “bala de prata” e recebemos uma tarefa de formiga, mas foi o suspense que transformou uma instrução simples em rito, e rito a gente cumpre junto. Nêgo Bispo, o pensador quilombola, tinha uma palavra para isso, confluência, que é quando os rios se encontram e passam a correr juntos sem deixar de ser o que são, como a diarista de 52 anos, o estudante, os pais das minhas amigas, gente que não virou outra pessoa e que levou, cada uma, a sua água.
Não sei dizer quantos dos votos que viraram a eleição passaram pelo canal do Exército do Lula, ninguém sabe ao certo, mas todo mundo sabe que aquelas pessoas fizeram algo grandioso e extraordinário juntas.
O que eu sei é que minha mãe votou e convenceu pelo menos sete pessoas que não tinham votado no primeiro turno, sei que o pai de uma grande amiga ligou para 30 pessoas no dia da votação para confirmar o 13, que muita gente ofereceu carona para levar os outros até a seção, que muitos idosos, já sem a obrigação de votar, foram às urnas dar talvez o último voto da vida, que os “Vingadores” pegaram aviões de várias partes do mundo para votar no Brasil e que brasileiros de tantas regiões enfrentaram horas de estrada, pegaram barco, balsa, canoa, o que tivesse para chegar às urnas.
E sei que, por três semanas, milhões de pessoas que não se conheciam acordaram, comeram, trabalharam e dormiram em torno da mesma mensagem. Todos parte do mesmo Exército, o maior e mais democrático do mundo.
“EXPLODE!!” Era a ordem mais repetida do canal, a palavra que o general usava quando queria que uma publicação bombasse, que uma hashtag subisse em primeiro no X, que os comentários se multiplicassem até ninguém mais conseguir ignorar a nossa força. No domingo, 25, a ordem saiu da tela, e talvez no dia 5 de outubro pouca gente ali acreditasse que era possível, mas a gente olhou no fundo dos olhos do Janones, como ele tinha pedido, seguiu a estratégia do nosso general e ajudou a eleger o Marechal Luiz Inácio Lula da Silva.
EXPLODIU!
Explodimos como explode uma torcida, um bloco de carnaval, como explode o povo brasileiro quando resolve.
Pessoal, urgente: podem dormir.

Sobre as autoras
Rithyele Dantas é jornalista com 9 anos de experiência em Comunicação Política e Narrativas. Já atuou em campanhas eleitorais, mandatos, sociedade civil e no governo federal. Foi Chefe de Comunicação do Ministério da Igualdade Racial e hoje coordena a comunicação da Secretaria de Mulheres e Cuidados do Rio. É uma das fundadoras do Projeto Narra.
Luna Costa é comunicadora, formada em Comunicação Social, com extensão em Mídia, Violência e Direitos Humanos na UFRJ, mestra em Cultura e Territorialidades pela UFF, e pesquisadora no Grupo de Estudos sobre Comunicação, Cultura e Sociedade. Trabalha há 7 anos com comunicação política, trabalhou na campanha à prefeitura de Marcelo Freixo e Luciana Boiteux em 2016, foi assessora de comunicação no mandato da vereadora Marielle Franco e coordenadora de comunicação no mandato da Deputada Estadual Monica Francisco.
Em 2021, foi Consultora Nacional de Comunicação na ONU Mulheres na área de enfrentamento à violência contra mulheres e meninas. Foi Gestora de Campanhas e Comunicação no Instituto Marielle Franco e Gestora de Comunicação Estratégica no Ministério da Igualdade Racial. É fundadora e diretora da organização de comunicação NARRA
Marcelle Decothé é diretora de Estratégia e Sustentabilidade da Iniciativa PIPA e cofundadora da NARRA, mulher negra que trabalha pelo avanço dos direitos humanos, da justiça social, da comunicação política e da igualdade racial e de gênero no Brasil. Tem mais de dez anos de experiência no desenvolvimento e gestão de projetos, campanhas, pesquisas e iniciativas de defesa de direitos sobre questões relacionadas à favela, justiça racial e políticas públicas. É mestre em Políticas Públicas e Direitos Humanos pela UFRJ.
A NARRA é uma organização de comunicação política e mobilização criada para democratizar, sistematizar e fortalecer tecnologias narrativas e fomentar a criação de novas formas de comunicação e mobilização que garantam justiça social, racial e de gênero.