A vitória democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos foi acompanhada por uma mudança histórica no perfil de quem ocupa os espaços de poder no país. Mulheres negras, indígenas, latinos, muçulmanos e pessoas LGBTQIAPN+ conquistaram cargos de destaque em diferentes estados, ampliando a diversidade da representação política norte-americana. Leia em TVT News.
O resultado também representou uma derrota para o presidente republicano Donald Trump. Os democratas conquistaram maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, retirando dos republicanos o controle das duas Casas do Congresso.
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A votação de terça-feira (3) mostrou que o descontentamento com o governo se traduziu tanto na escolha de representantes do partido adversário quanto na eleição de lideranças que historicamente enfrentaram barreiras para chegar aos principais postos da política institucional.
A presença dessas lideranças em cargos estaduais e nacionais dá dimensão ao resultado.
Geórgia, estado historicamente conservador, elegeu sua primeira mulher negra, Keisha Lance Bottoms
Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms foi eleita governadora e se tornou a primeira mulher negra a ocupar o comando de um estado norte-americano.
Ex-prefeita de Atlanta, ela derrotou o bilionário Rick Jackson e encerrou mais de duas décadas de governos republicanos no estado. Na mesma disputa eleitoral, o senador democrata Jon Ossoff conquistou a reeleição, vencendo o deputado Mike Collins.
Primeira mulher indígena é eleita como governadora
No Novo México, Deb Haaland venceu o republicano Gregg Hull e entrou para a história como a primeira mulher indígena eleita governadora nos Estados Unidos. Integrante do povo Laguna Pueblo, Haaland já havia sido a primeira pessoa indígena a ocupar um cargo de secretária no gabinete presidencial, durante o governo de Joe Biden, quando comandou o Departamento do Interior.
A representação indígena também avançou em Minnesota. A democrata Peggy Flanagan foi eleita senadora e se tornou a primeira mulher indígena norte-americana a conquistar uma cadeira no Senado.
As duas vitórias ampliam a presença de povos originários em instituições políticas que, por muito tempo, tiveram pouca participação dessas comunidades.
Primeiro homem gay a ocupar uma cadeira no Senado
Em New Hampshire, o deputado democrata Chris Pappas venceu a disputa pelo Senado contra o ex-senador John Sununu. Com o resultado, será o primeiro homem abertamente gay a ocupar uma cadeira na Casa.
Ele está na Câmara dos Representantes desde 2019 e defende publicamente que ninguém deve sofrer discriminação por sua identidade ou por quem ama.
Abdul El-Sayed é o primeiro muçulmano eleito como senador
No Michigan, Abdul El-Sayed conquistou uma cadeira no Senado e se tornou o primeiro muçulmano eleito para o cargo. Médico de 42 anos e ex-gestor da área da saúde, ele levou à campanha propostas como a universalização do atendimento médico. Durante a disputa, enfrentou ataques de caráter islamofóbico. O Council on American-Islamic Relations destacou a mobilização das comunidades muçulmanas para garantir que suas vozes fossem representadas no Congresso.
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No Texas, estado com histórico republicano, primeira mulher latina é eleita como governadora
A eleição também teve resultados expressivos para candidaturas latinas. No Texas, Gina Hinojosa derrotou o republicano Greg Abbott e se tornou a primeira mulher latina eleita governadora do estado. A vitória ocorreu em uma região tradicionalmente marcada pela força republicana. Na Califórnia, Xavier Becerra venceu Steve Hilton e se tornou o primeiro latino eleito governador do estado.
Democratas avançam em estados de tradição republicana
Além das conquistas relacionadas à diversidade, os resultados apontaram uma mudança no cenário político em estados nos quais os republicanos mantinham posições fortes.
No Texas, o democrata James Talarico venceu a disputa por uma vaga no Senado, conquistando mais uma cadeira para seu partido e impondo um duro revés aos republicanos, segundo projeções da imprensa.
Talarico derrotou o procurador-geral do estado, Ken Paxton, aliado próximo do presidente Donald Trump.

Veja o discurso de James Talarico, primeiro senador democrata eleito em 40 anos no seu estado: “Nós recuperamos o Texas”.
Na Carolina do Sul, Annie Andrews venceu Darline Graham, garantindo aos democratas uma vitória inesperada em um estado no qual o partido não elegia um senador havia 28 anos.
Em Ohio, Sherrod Brown derrotou o republicano Jon Husted.
Na Carolina do Norte, os democratas também conquistaram uma cadeira no Senado.
Em New Hampshire, além da vitória de Pappas, os democratas mantiveram a posição no estado.
Na Geórgia, a reeleição de Ossoff impediu que os republicanos avançassem sobre uma cadeira considerada estratégica.
Senadores democratas
Outros senadores democratas também asseguraram novos mandatos.
Cory Booker foi reeleito em Nova Jersey, Ed Markey venceu em Massachusetts e John Hickenlooper conquistou a reeleição no Colorado.
Em Illinois, Juliana Stratton foi eleita para substituir o senador democrata Dick Durbin.
O avanço democrata chegou ainda à Câmara dos Representantes.
Até a última atualização dos resultados, o partido havia conquistado 228 cadeiras, contra 139 dos republicanos, com 68 disputas ainda sem definição.
Os democratas também conseguiram tomar 25 assentos que estavam sob controle republicano em distritos de mais de dez estados.
No Senado, a legenda alcançou 54 das 100 cadeiras, enquanto os republicanos somavam 44, com duas vagas ainda pendentes. Eram necessárias 51 cadeiras para garantir a maioria. Ao todo, 35 assentos estavam em disputa nesta eleição.
Vitória das minorias e rejeição à política de Trump
*Com informações da AFP
A dimensão política do resultado foi destacada por Bill Shiebler, diretor de estratégia da organização State Voices, que atua para ampliar a participação cívica e a equidade.
Ele avaliou que a votação representou uma rejeição ao discurso de ódio e à divisão. Para Shiebler, o eleitorado demonstra identificação crescente com representantes que vêm das próprias comunidades que passam a ocupar os espaços de decisão.
A eleição de mulheres negras, indígenas, latinos, muçulmanos e pessoas LGBTQIAPN+ indica uma transformação na composição das lideranças políticas dos Estados Unidos.
Mais do que conquistas individuais, essas vitórias ampliam a presença de grupos historicamente sub-representados nas instituições e dão visibilidade a demandas que nem sempre encontram espaço nas estruturas tradicionais de poder.
A derrota republicana também abre um novo cenário para o governo Trump. Com os democratas no comando das duas Casas do Congresso pelos próximos dois anos, o presidente terá de negociar com uma oposição fortalecida.
Após os resultados, Trump afirmou que estava disposto a trabalhar com os democratas, mas também sinalizou que pretende recorrer ao poder de veto para barrar propostas aprovadas pelo Legislativo.
Primeiro homem negro pode presidir a Câmara dos Representantes
Caso Hakeem Jeffries, atual líder da minoria na Câmara, seja escolhido presidente da Casa, como esperado no novo Congresso, será o primeiro homem negro a ocupar o posto.
A possibilidade reforça o alcance das mudanças produzidas pelas urnas: a diversidade conquistou espaço nos governos estaduais, no Senado e pode avançar também para o comando de uma das principais instituições políticas do país.