Por Michel Lenz – para prefeitos e vereadores, a eleição de 2026 foi o ensaio. O resultado das urnas, as regras de 2028 e o comportamento do eleitor mostram o que precisa ser feito agora.
As urnas fecharam, os eleitos já organizam a posse e os santinhos saíram das calçadas. Para boa parte do mundo político, começa um período de descanso. Para quem está em mandato municipal, é o contrário.
Prefeitos e vereadores eleitos em 2024 passaram os últimos meses trabalhando pela eleição de outros: apoiando candidatos a deputado, senador e governador, organizando agendas e pedindo votos para aliados. Agora, a próxima eleição é a deles.

E ela não será decidida apenas em outubro de 2028. Boa parte do resultado será construída ao longo de 2027, o último ano completo antes da eleição. Quem deixar para consolidar resultados, imagem e alianças no ano eleitoral vai chegar atrasado.
O que 2026 deixou de herança
A eleição que passou não foi só dos outros. Ela deixou três heranças para quem está em mandato, e nem todos vão saber aproveitá-las.
1. Um diagnóstico gratuito da sua base
Se você apoiou candidatos em 2026, o desempenho deles no seu município é um dado valioso. O TSE disponibiliza o resultado por seção eleitoral. Cruzando essas informações com o mapa da sua votação em 2024, surgem quatro situações:
- Você foi forte e seu candidato também: base consolidada, que segue a sua indicação.
- Você foi forte e seu candidato não: o eleitor gosta de você, mas o vínculo é pessoal e não necessariamente segue o seu apoio.
- Você foi fraco e seu candidato foi forte: há eleitores e lideranças naquele território com quem você ainda pode construir relação.
- Nenhum dos dois foi bem: território que precisa de atenção antes de 2028.
Isso não comprova transferência de votos, porque o desempenho de um candidato depende de muitos fatores. Mesmo assim, é a pesquisa mais barata que o seu mandato vai ter antes de 2028, e mostra não só onde você está, mas onde pode crescer.
2. Alianças redesenhadas
Todo candidato sabe quantos votos fez em cada município e lembra de quem esteve ao seu lado. Se você apoiou alguém que venceu, existe uma relação a ser fortalecida. Mas o eleito também sabe quanto você entregou: se a expectativa era de três mil votos e vieram oitocentos, essa conta já foi feita.
Se o seu candidato perdeu, o mapa mudou. Há deputados eleitos com votos no seu município procurando interlocutores locais, adversários que apostaram no nome certo e lideranças que ganharam influência. Revisar essas relações agora custa menos do que descobrir em 2028 quem mudou de lado.
3. Um eleitor cansado do ambiente de campanha
Depois de meses de horário eleitoral, santinhos, grupos de WhatsApp tomados por política e discussões em almoço de família, parte do eleitorado quer distância do ambiente de campanha. Não é desinteresse pela política, é cansaço de conflito permanente.
O mandatário que mantém o tom de campanha nas redes, comprando brigas nacionais e comentando cada polêmica de Brasília, fala só com quem já concorda com ele. Enquanto isso, o cidadão continua preocupado com a rua, a fila no posto de saúde e a vaga na creche. Os próximos meses são a hora de sair do modo campanha e voltar ao modo mandato.
Três mandatários, três jogos diferentes
Não existe receita única para 2027, porque cada mandatário vai jogar um jogo diferente em 2028.
Prefeito de primeiro mandato: o jogo é a reeleição
O risco é chegar a 2028 sem resultados consolidados: programas sem efeito percebido e uma comunicação que ainda não mostrou o que mudou na cidade. A prioridade de 2027 é consolidar entregas, melhorar serviços e tornar os resultados conhecidos.
O eleitor precisa enxergar um trabalho consistente que merece continuar. Isso se constrói com resultados concretos, não com slogan.
Prefeito de segundo mandato: o jogo é a sucessão
Quem está no segundo mandato consecutivo não pode disputar a terceira eleição seguida para prefeito, e isso muda a dinâmica política. Quando todos sabem que o prefeito sai, secretários, vereadores e aliados começam a olhar para o futuro.
O dilema é fortalecer um sucessor sem enfraquecer a própria autoridade. Antecipar demais a escolha pode gerar disputas internas; demorar demais pode impedir a consolidação de um nome competitivo.
Como construir um sucessor sem transformar o prefeito em ex-prefeito antes de terminar o mandato?
A prioridade de 2027 é preparar a sucessão, preservar a unidade do grupo e manter a gestão entregando. É o desempenho do governo que sustenta a credibilidade do projeto de continuidade.
Vereador: o jogo é a reeleição ou a ascensão
O vereador tem menos estrutura e visibilidade que o prefeito. E, desde o fim das coligações proporcionais, a disputa mais dura costuma acontecer dentro da própria chapa: um vereador pode fazer boa votação e não se eleger, dependendo do desempenho do partido ou da federação.
Quem disputou 2026 e não se elegeu segue na Câmara com o tamanho exposto, mas também com um diagnóstico valioso sobre a própria força.
A prioridade de 2027 é ter identidade política, com um ou dois temas reconhecidamente seus, presença nas comunidades e atenção à montagem da chapa. Não basta apresentar indicações e publicar fotos de reuniões: o cidadão precisa saber qual é a contribuição daquele vereador para o município.
Por que 2027 é o ano decisivo
2028 será um ano eleitoral, com regras específicas para agentes públicos, publicidade institucional e atividades próximas ao pleito. Essas restrições não impedem a administração de trabalhar, mas, somadas às disputas por filiações, alianças e chapas, deixam o calendário mais apertado. O ano eleitoral serve para mostrar o que foi feito, não para começar a fazer.
Por isso, 2027 precisa ser o ano de consolidar resultados, fortalecer o reconhecimento público e organizar o projeto político para 2028.
Um cuidado vale para tudo o que está neste artigo: gestão pública e projeto político andam separados. A comunicação institucional segue a impessoalidade, a estrutura pública não serve à atividade eleitoral e dados de cidadãos não viram base de campanha.
Com isso claro, são três frentes que precisam avançar juntas.
1. Entrega: o que realizar, e quando
Nem toda ação do mandato tem o mesmo peso. A primeira tarefa é separar o que sustenta o seu projeto do que é rotina, e concentrar energia no primeiro grupo.
O segundo cuidado é o ritmo. Uma gestão que concentra as principais entregas no ano da eleição transmite a impressão de que só começou a agir quando o voto se aproximou, e o cidadão percebe. O ideal é o equilíbrio: entregar ao longo de 2027 e iniciar em 2027 os projetos que serão concluídos em 2028, para que o eleitor acompanhe cada um do começo ao fim.
2. Narrativa: o que as entregas significam
Uma lista de obras, sozinha, não constrói reputação. Não basta informar quanto foi investido ou quantos metros de asfalto foram executados: é preciso mostrar o problema enfrentado e o benefício produzido na vida das pessoas.
Uma gestão pode ter excelentes indicadores e, ainda assim, percepção pública ruim. Entre o resultado administrativo e o reconhecimento popular existe um trabalho contínuo de comunicação. O objetivo é que o cidadão consiga explicar, em uma frase, o que mudou na cidade e por que aquele projeto merece continuar.
3. Organização: quem vai estar ao seu lado
Eleição municipal se ganha com relações construídas ao longo do tempo. 2027 é o ano de cuidar das lideranças que falam por você nos bairros e nas comunidades, entender quais temas mobilizam cada grupo e consolidar alianças antes das negociações de 2028.
Quem chega ao ano eleitoral tentando organizar suas relações políticas começa em desvantagem diante de quem já fez esse trabalho.

O teste de dezembro de 2027
Ao final de 2027, três perguntas mostram se o mandato está pronto para 2028:
- Entrega: os principais resultados estão consolidados ou têm cronograma realista?
- Narrativa: o cidadão consegue dizer o que mudou na cidade e reconhecer a contribuição do mandato?
- Organização: você conhece suas lideranças, suas alianças e os desafios políticos que vai enfrentar?
Quem responde sim às três chega a 2028 com vantagem. Quem não responde terá menos tempo para corrigir o que poderia ter sido resolvido antes.
Para fechar
Nos próximos meses, a eleição de 2026 vai render análises sobre quem ganhou, quem perdeu e o que muda em Brasília e nos estados. Para quem está em mandato municipal, essa leitura importa, mas a pergunta mais importante é o que fazer com o que as urnas revelaram.
Na eleição municipal, o eleitor convive com as consequências das decisões públicas e forma sua opinião ao longo do mandato. As urnas de 2026 mostraram onde cada liderança está. O trabalho de 2027 vai mostrar quem chega mais forte a 2028.
Sobre o autor
Michel Lenz
Apaixonado por estratégia, inovação, ideias e projetos, pelos tatames e a filosofia do jiu-jitsu, sua vida é a família (Papai de Alice). Estrategista de Marketing Político e Comunicação Governamental, Secretário de Gestão Estratégica e Inovação em Três de Maio-RS, Fundador e Ex-CEO da IntMark – Inteligência de Marketing, Cofundador da Alcateia Política., Sócio/CMO da #Ninjas! Contabilidade, Professor de Jiu-Jitsu na Union Team. Possui MBA em Marketing Político e Comunicação Governamental, MBA em Gestão de Marketing e Comunicação, Bacharel em Sistemas de Informação.
Atua com marketing político desde 2016 com campanhas eleitorais e mandato, como estrategista de campanha, estrategista de marketing e comunicação e coordenador de equipe, além de realizar diagnósticos de presença digital.