A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e a filósofa e ativista norte-americana Angela Davis visitaram neste sábado (25) o Quilombo do Campinho da Independência, em Paraty (RJ), durante a programação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
Primeira comunidade quilombola titulada do estado do Rio de Janeiro, o território recebeu as duas lideranças no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, em uma agenda voltada ao fortalecimento da memória, da ancestralidade e da luta pela igualdade racial.
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Angela Davis também participou da mesa “América e África: uma conversa Atlântica”, realizada no Sesc Caborê e mediada pela jornalista Flávia Oliveira.
O encontro, que precisou ser transferido para um espaço maior devido à grande procura por ingressos, reuniu centenas de pessoas para discutir racismo, democracia, cultura, feminismo, justiça social e os desafios políticos da atualidade.
Logo na abertura da conversa, Davis destacou o papel da produção intelectual negra na construção de sociedades mais democráticas. Ao comentar a presença do escritor nigeriano Wole Soyinka e da escritora Conceição Evaristo na programação da Flip, afirmou que ambos representam uma tradição de resistência construída por meio da literatura e da arte.
Para a ativista, intelectuais negros preservam a memória de seus povos e ajudam a imaginar novos caminhos para a liberdade e a justiça social.
Em sua décima visita ao Brasil, Angela Davis voltou a declarar o carinho que sente pelo país. “Tenho que admitir que o Brasil é meu lugar favorito no mundo”, afirmou. A filósofa disse se sentir especialmente honrada por participar de atividades em Paraty, cidade cuja história reúne as marcas da escravidão, mas também da resistência da população negra.
Segundo ela, a trajetória dos negros no Brasil não pode ser narrada apenas pela violência, mas também pela capacidade de criar cultura, música, arte e formas de organização coletiva. “Quase podemos sentir a presença dos ancestrais aqui”, declarou.
Quilombo do Campinho simboliza resistência e preservação da memória
Além do debate no Sesc Caborê, Angela Davis e Anielle Franco estiveram no Quilombo do Campinho da Independência, onde foram recebidas por lideranças quilombolas e percorreram a comunidade em uma agenda de diálogo sobre memória, cultura, ancestralidade e os desafios atuais enfrentados pelos territórios tradicionais.
O Quilombo do Campinho abriga cerca de 170 famílias e se tornou referência nacional em organização comunitária, turismo de base comunitária, preservação ambiental e valorização da cultura afro-brasileira.
Durante a visita, Anielle Franco destacou a importância de fortalecer territórios que preservam a história e a identidade da população negra brasileira.
“Não existe futuro para a democracia sem reconhecer e fortalecer os territórios que mantêm viva a história do povo negro. Estar no Quilombo do Campinho, ao lado de Angela Davis, neste 25 de julho, é celebrar mulheres que transformaram e seguem transformando a luta por igualdade racial em todo o mundo, mas também reafirmar o compromisso de proteger as comunidades que preservam nossa ancestralidade e apontam caminhos para o futuro”, afirmou a ministra.
Angela Davis homenageia Marielle e defende luta coletiva
Durante a mesa com Flávia Oliveira no Sesc Caborê, Angela Davis também fez referência ao legado de Marielle Franco e afirmou acompanhar a atuação pública de Anielle Franco, destacando sua continuidade na defesa dos direitos humanos e da igualdade racial.
Ao abordar a violência contra as mulheres, a filósofa defendeu um feminismo que contemple mulheres negras, indígenas e trans, argumentando que são justamente esses grupos os mais atingidos pelas desigualdades e pela violência.
“A violência contra as mulheres é a violência mais disseminada no planeta”, afirmou. A filósofa afirmou que combater o feminicídio exige enfrentar também o racismo, a pobreza e as estruturas econômicas que sustentam diferentes formas de exclusão, e pediu que toda a plateia repetisse, em português, a frase “Obrigada, Marielle Franco”.
Extrema direita, literatura e democracia
Ao longo do debate, Angela Davis afirmou que o avanço da extrema direita em diferentes partes do mundo exige organização popular e fortalecimento da democracia.
“O que quero dizer aqui é que somos muito mais fortes do que aqueles que fingem nos governar”, declarou.
A filósofa também explicou que, em diversas tradições africanas, dar nome a alguém significa conceder poder. Por isso, afirmou preferir não citar nominalmente lideranças que representam projetos autoritários.
Ao retomar o conceito de confluência elaborado por Nego Bispo, Davis defendeu que raça, gênero e classe precisam ser compreendidos de forma integrada. Segundo ela, é justamente o encontro dessas diferentes identidades que fortalece os movimentos sociais.
Nesse contexto, voltou a destacar a relevância da produção intelectual negra e citou novamente Conceição Evaristo e Wole Soyinka como referências fundamentais para pensar democracia, memória e emancipação dos povos negros.
Gentrificação, racismo ambiental e justiça climática
Angela Davis falou sobre a própria cidade de Paraty, ao criticar o avanço da especulação imobiliária e alertar para o processo de gentrificação que ameaça comunidades tradicionais da região.
Ela falou sobre empreendimentos privados que têm pressionado moradores históricos e comunidades quilombolas a deixarem territórios ocupados há gerações para abrir espaço ao mercado imobiliário e ao turismo.
A filósofa categorizou o processo como parte do fenômeno do racismo ambiental, afirmando que populações negras e tradicionais costumam ser as primeiras atingidas pela degradação ambiental, pela perda de seus territórios e pela ausência de políticas públicas de proteção.
Davis reforçou que não há justiça climática sem justiça racial, e que proteger o meio ambiente passa necessariamente pela defesa dos direitos territoriais de quilombolas, indígenas e demais povos tradicionais.
A filósofa também destacou o protagonismo da juventude na luta contra as mudanças climáticas e afirmou que os jovens têm mostrado ao mundo que a preservação ambiental depende igualmente da proteção das comunidades que historicamente cuidam desses territórios.

