O patrocínio de empresas de apostas esportivas movimentou cerca de R$ 1,03 bilhão entre os clubes que disputaram a Série A do Campeonato Brasileiro em 2025. O valor é expressivo, mas representa uma parcela limitada das receitas totais das equipes: 7,2% dos R$ 14,3 bilhões arrecadados pelos clubes no período. Mesmo assim, clubes insistem em dizer que fim das bets representa também o fim do futebol. Leia em TVT News.
Os números fazem parte de levantamento da consultoria Convocados e colocam em cheque os argumentos levantados pelos clubes de futebol que defenderam a permanência das casas de apostas esportivas diante das discussões do governo Lula sobre a proibição das bets.
>> Lula prepara MP para proibir bets e reforça combate às apostas em ato com artistas
RELEMBRE: Uma nota foi publicada na quinta-feira (17) por diversos times da série A em meio às discussões sobre possíveis mudanças nas regras para o mercado de apostas. Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco, Palmeiras, São Paulo, Santos, Cruzeiro e Corinthians estiveram entre os clubes que aderiram ao posicionamento, além de federações estaduais, como a Federação Paulista de Futebol.
No documento, os clubes afirmaram que alterações nas regras poderiam reduzir a capacidade de investimento, comprometer contratos e provocar desequilíbrios financeiros.
A Federação Paulista de Futebol também sustentou que os recursos das apostas seriam importantes para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, jogadores, projetos sociais, futebol feminino e formação de atletas. O texto chegou a afirmar: “Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O que acaba é o futebol!”.
Fim do futebol? Bets não são a principal fonte de receita dos clubes…
Os dados financeiros, porém, mostram que os patrocínios das bets não são a principal fonte de receita dos clubes da elite nacional.
Em 2025, as equipes da Série A tiveram R$ 3,92 bilhões provenientes de transferências de jogadores e R$ 3,14 bilhões em direitos de transmissão. As receitas comerciais, que incluem os patrocínios, chegaram a R$ 3,07 bilhões.
Dentro desse cenário, os R$ 1,03 bilhão pagos pelas empresas de apostas correspondem a pouco mais de 7% da arrecadação total.
Isso não significa que uma eventual restrição teria o mesmo efeito sobre todos os clubes.
A dependência varia de acordo com cada orçamento e com o tamanho dos contratos firmados com as empresas do setor. Ainda assim, os números não sustentam a ideia de que o futebol brasileiro, como atividade econômica, deixaria de existir sem os patrocínios das bets.
O economista Cesar Grafietti, sócio da consultoria Convocados, faz uma ponderação sobre o impacto de uma retirada repentina dos recursos.
Segundo ele, o futebol não acabaria sem as empresas de apostas, mas os clubes poderiam enfrentar dificuldades em uma situação de ruptura, principalmente diante de contratos de jogadores, custos das partidas e dívidas que continuam vencendo.
Dependência das bets varia entre os clubes; Flamengo é o clube que mais recebe de casa de apostas
Entre os times que tiveram os valores de patrocínio divulgados, o Flamengo apresentou a maior proporção de receitas associadas às bets em 2025. O acordo com a Betano foi estimado em R$ 268 milhões anuais, equivalente a 13,6% da receita total de R$ 1,97 bilhão do clube.
O Vasco aparece em seguida, com R$ 70 milhões recebidos da Betfair, correspondentes a 12,3% dos R$ 570 milhões arrecadados pelo clube. No Sport, o contrato de R$ 22 milhões com a Betnacional representou aproximadamente 12% da receita anual de R$ 183 milhões.
Botafogo é um dos times com menor receita de bet
Também tiveram participação relevante os patrocínios de apostas nas receitas do Juventude, com 11%; Corinthians, com 10,5%; Grêmio, com 9,8%; Internacional, com 9,3%; e Atlético-MG, com 9%. No outro extremo, as menores proporções foram registradas por Botafogo, com 4%; Fluminense, com 5,1%; São Paulo, com 5,2%; e Cruzeiro, com 5,9%.
Bahia, Mirassol e Red Bull Bragantino não divulgaram os valores de seus contratos com empresas de apostas em 2025.
Apesar de representarem uma parcela menor da arrecadação total, as bets de fato foram responsáveis por ampliar as receitas comerciais dos clubes.
Essa fonte passou de R$ 2,26 bilhões em 2024 para R$ 3,07 bilhões em 2025, crescimento de 35,6%. O levantamento também mostra que os patrocínios das apostas cresceram aproximadamente 66% no mesmo intervalo, passando de R$ 618 milhões para R$ 1,03 bilhão.
Futebol existe sem patrocínio de bets: veja quais campeonatos restringem casas de apostas
A experiência de outras competições também mostra que o futebol profissional pode funcionar com restrições à publicidade de apostas. A Premier League, principal divisão do futebol inglês, iniciou na temporada 2026/27 uma nova regra que impede os clubes de exibirem marcas de empresas de apostas na parte frontal das camisas.
>> Premier League restringe patrocínio de bets e clubes buscam novas fontes de receita
A medida havia sido aprovada voluntariamente pelos 20 clubes da competição em 2023. Na temporada anterior, 11 das 20 equipes tinham empresas de apostas como patrocinadoras no espaço principal do uniforme. A retirada desse tipo de publicidade obrigou os clubes a buscar novos parceiros comerciais.
Empresas dos setores financeiro, tecnológico e de inteligência artificial passaram a ocupar parte desse espaço. Liverpool, Tottenham, Brighton, Everton e Nottingham Forest, por exemplo, possuem acordos com empresas financeiras. Fulham e Crystal Palace estabeleceram parcerias com companhias de tecnologia e inteligência artificial.

Outros clubes ampliaram contratos que já mantinham com empresas de diferentes setores. O Newcastle promoveu a Knox Hydrate, anteriormente patrocinadora de seu centro de treinamento, ao espaço principal da camisa. O Bournemouth fez movimento semelhante com a Vitality, enquanto o Brentford ampliou a parceria com a Indeed.
A experiência inglesa não eliminou completamente a presença das bets no futebol. A regra restringe o espaço frontal das camisas, mas anúncios em mangas, placas de campo, materiais promocionais e outras formas de exposição continuam permitidos.
Outras ligas também adotaram restrições. Na Espanha, desde 2020, casas de apostas não podem patrocinar camisas e equipamentos esportivos, além de existirem limitações para a presença dessas empresas em equipes, competições e instalações. Nos Países Baixos, desde julho de 2025, operadores de apostas online não podem patrocinar clubes, equipes ou competições esportivas.
Na Itália, regras adotadas a partir de 2018 proibiram publicidade e patrocínios relacionados a jogos e apostas com dinheiro. A Bélgica estabeleceu uma transição gradual, com a proibição de empresas de apostas no espaço frontal dos uniformes desde janeiro de 2025 e previsão de restrições mais amplas a partir de 2028.