Fim do futebol? Premier League restringe patrocínio de bets e clubes buscam novas fontes de receita

Medida aprovada pelos clubes reduz espaço das casas de apostas nos uniformes e abre mercado para empresas de tecnologia, finanças e outros setores
Alexis Mac Allister, do Liverpool, em ação com Lucas Bergvall, do Tottenham Hotspur, durante a partida da terceira rodada da Copa da Liga Inglesa (Carabao Cup) entre Liverpool e Tottenham Hotspur, em Anfield, em Liverpool, em 15 de setembro de 2026. (Foto de Steven Halliwell/MI News/NurPhoto) (Foto de MI News / NurPhoto / NurPhoto via AFP)

A Premier League iniciou uma nova fase em sua relação com as casas de apostas. Na atual temporada 2026/27, nenhum clube da primeira divisão inglesa pode exibir nome ou logotipo de uma empresa de apostas esportivas na parte frontal da camisa. A mudança foi aprovada voluntariamente pelos 20 clubes da competição em 2023 e passou a valer agora. Leia em TVT News.

A medida encerra um modelo comercial que durante anos teve forte presença no futebol inglês. Na temporada anterior, 11 dos 20 clubes da Premier League exibiam marcas de casas de apostas no peito, em contratos que movimentavam até 100 milhões de libras em conjunto. Entre os acordos, mesmo os de menor valor, firmados principalmente por equipes recém-promovidas, costumavam alcançar cerca de 6 milhões de libras por ano.

A estimativa apresentada pelo jornal britânico The Guardian é de que os clubes possam deixar de arrecadar até 80 milhões de libras, cerca de R$ 542 milhões, com a retirada das casas de apostas do principal espaço comercial das camisas.

A proibição, entretanto, não eliminou completamente a presença das empresas de apostas no futebol inglês. A restrição se aplica ao espaço frontal dos uniformes. Patrocínios nas mangas, materiais promocionais, placas à beira do campo e outras formas de exposição continuam permitidos.

Clubes ingleses buscam alternativas no mercado

A mudança obrigou metade dos clubes da Premier League a procurar novos parceiros comerciais. Seis equipes chegaram a lançar seus uniformes para a nova temporada sem patrocinador definido, e o Nottingham Forest foi um dos últimos clubes a encontrar uma empresa para substituir sua antiga parceria com uma casa de apostas.

O mercado financeiro passou a ocupar parte desse espaço. Seis clubes agora contam com empresas do setor como patrocinadoras. Entre elas estão Liverpool, com a Standard Chartered; Tottenham, com a AIA; Brighton, com a American Express; Everton, que fechou parceria com a CMC Markets; e Nottingham Forest, que passou a trabalhar com a Marex.

Outro setor que avançou foi o de tecnologia e inteligência artificial. O Fulham passou a ter a ClickHouse, especializada em análise de dados e inteligência artificial, como principal patrocinadora. O Crystal Palace, por sua vez, fechou acordo com a Temporal, empresa de software voltada ao desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial.

A presença de marcas ligadas a países africanos também aumentou. O Aston Villa firmou acordo com a Visit Rwanda, que anteriormente patrocinava a manga da camisa do Arsenal. O Sunderland também negocia uma parceria com a Visit Ghana, embora o acordo ainda não tenha sido confirmado.

A mudança de patrocinadores não ocorreu sem controvérsias. No caso do Aston Villa, organizações e ativistas criticaram a parceria com Ruanda. Segundo a Anistia Internacional do Reino Unido, citada no texto de apoio, críticos acusam o país de utilizar parcerias esportivas para melhorar sua imagem internacional diante de questionamentos relacionados aos direitos humanos.

Estratégia dos clubes também envolve o retorno de antigos patrocinadores

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O goleiro espanhol do Arsenal, David Raya (C), faz uma defesa na prorrogação durante a partida do Campeonato Inglês entre Arsenal e Chelsea, no Emirates Stadium, em Londres, em 1º de março de 2026. O Arsenal encerrou uma espera de 22 anos para ser coroado campeão da Premier League em 19 de maio. (Foto de Adrian Dennis / AFP) / USO EDITORIAL RESTRITO.

Uma das principais soluções encontradas pelos clubes foi ampliar acordos que já existiam. O Newcastle United, por exemplo, tinha a empresa sul-africana Knox Hydrate como patrocinadora de seu centro de treinamento. O contrato, inicialmente de 6 milhões de libras por ano, foi ampliado e a empresa passou a ocupar o espaço principal da camisa em um acordo de 60 milhões de libras por três anos.

O Bournemouth adotou estratégia semelhante ao promover a Vitality, empresa que já dava nome ao estádio do clube, para o espaço principal da camisa. O Brentford também ampliou sua parceria com a Indeed, que anteriormente estampava os uniformes de treinamento.

Para os clubes, a substituição dos contratos não ocorreu sem perda de receita. Uma estimativa apresentada antes da temporada apontava para uma possível redução líquida de 20% nas receitas relacionadas aos patrocínios. Ao mesmo tempo, representantes do mercado de publicidade esportiva avaliaram que vários acordos foram fechados em valores considerados relevantes, reduzindo o impacto financeiro inicialmente projetado.

O Aston Villa conseguiu um dos maiores contratos entre os clubes fora do chamado Big Six. A parceria com a Visit Rwanda foi estimada em 17 milhões de libras por ano, podendo chegar a 20 milhões com bônus. O clube recebia anteriormente 14 milhões de libras anuais da Betano, que passou a ocupar o espaço da manga da camisa.

Quais outras ligas têm restrições de bets?

A Premier League não é a primeira competição a restringir a publicidade de bets no futebol. Itália, Espanha e Países Baixos adotaram regras mais abrangentes, enquanto Bélgica e Austrália seguiram caminhos com diferentes níveis de restrição.

Itália proibe a publicidade de bets no futebol

Na Itália, as medidas começaram em 2018, com o chamado Decreto Dignità. A legislação proibiu publicidade, inclusive indireta, de jogos e apostas com dinheiro, além de contratos de patrocínio relacionados a eventos esportivos. A partir de 2019, as regras passaram a alcançar também acordos de patrocínio de eventos, atividades e manifestações.

Apesar da legislação, o texto de apoio aponta que empresas ligadas ao setor continuam encontrando formas de aparecer no futebol italiano. A Inter de Milão, por exemplo, tem desde 2024 a Betsson.sport como patrocinadora principal. A marca se apresenta como plataforma de informação e entretenimento esportivo, embora pertença ao grupo Betsson, que atua com apostas esportivas e cassino online.

Desde 2020 a LaLiga proibe o patrocínio de bets em camisas e competições

Na Espanha, o governo aprovou em 2020 o Real Decreto 958/2020, que proibiu o patrocínio de casas de apostas em camisas e equipamentos esportivos. As regras também estabeleceram limitações à presença dessas empresas em equipes, competições e instalações esportivas.

Nos Países Baixos, as restrições são ainda mais amplas. Desde 1º de julho de 2025, operadores de apostas online não podem patrocinar clubes, equipes ou competições esportivas. A mudança foi precedida por medidas adotadas a partir de 2023 para limitar a publicidade não direcionada de jogos de azar.

A Bélgica adotou uma transição gradual. Desde janeiro de 2025, empresas de apostas não podem ocupar a parte frontal dos uniformes esportivos. A legislação prevê uma etapa posterior: a partir de 2028, operadores do setor não poderão patrocinar organizações esportivas profissionais.

Na Austrália, por outro lado, as mudanças ainda estão em discussão. O Parlamento analisa uma proposta que prevê a retirada da publicidade de apostas dos uniformes e dos locais esportivos, além de novas limitações à publicidade online e em outros meios de comunicação.

>> Entenda o caso brasileiro:

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