Pouco mais de uma semana após os terremotos que devastaram a Venezuela, milhares de famílias ainda vivem a angústia da espera por notícias de parentes desaparecidos. Entre elas está a do brasileiro-venezuelano Daniel Medina, que busca desesperadamente localizar o pai, Félix Tovar, de 70 anos, desaparecido desde a noite dos tremores que atingiram o país em 24 de junho. Saiba mais na TVT News.
Morador de Caracas, Tovar estava hospedado em La Guaira, cidade costeira que concentrou a maior parte da destruição provocada pelos terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5, registrados com apenas 39 segundos de intervalo. O aposentado permaneceria poucos dias na região antes de embarcar para o Chile, onde visitaria a filha, Elibel, e o neto.
Segundo informações obtidas pela família, Félix havia deixado a pousada minutos antes dos tremores para jantar na tradicional padaria La Almendrina, localizada no setor de Playa Grande. Desde então, não voltou a ser visto.
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Daniel, que vive no Brasil, e a irmã passaram a reunir informações, contatar autoridades e organizar campanhas de arrecadação de ferramentas e equipamentos para auxiliar voluntários que trabalham nas buscas entre os escombros.
A família também conseguiu confirmar, junto à operadora de telefonia, que o último sinal emitido pelo celular de Félix foi registrado às 19h19, justamente na região onde ficam a padaria e um hotel vizinho que também desabou parcialmente durante os tremores.
Esperança alimentada por equipes de resgate
Mesmo com o passar dos dias, os familiares ainda mantêm esperança de encontrar Félix com vida.
Segundo Daniel Medina, equipes espanholas de resgate que atuaram na região utilizaram cães farejadores e equipamentos especializados, identificando possíveis sinais de sobreviventes sob os escombros da padaria.
A informação renovou as expectativas da família, embora especialistas alertem que as chances de localizar sobreviventes diminuem significativamente com o passar do tempo.
Na noite de quinta-feira (2), Daniel informou que um integrante da missão humanitária brasileira na Venezuela entrou em contato para comunicar que o caso havia sido encaminhado às equipes responsáveis pelas operações de busca e salvamento.
O governo brasileiro enviou aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) com ajuda humanitária, medicamentos e equipes especializadas em resgate. Cerca de cem militares brasileiros atuam atualmente na região atingida.
Na última semana, o Ministério das Relações Exteriores confirmou também a morte de dois brasileiros na tragédia.
Buscas dependem de voluntários
Enquanto parte da ajuda internacional chega ao país, familiares das vítimas relatam dificuldades para localizar desaparecidos devido à escassez de equipamentos pesados, combustível e estrutura de resgate.
Segundo Daniel Medina, grande parte das operações continua sendo realizada por voluntários e parentes das vítimas.
“As buscas estão sendo organizadas em grande parte de forma voluntária pelas próprias famílias. Tem sido um processo muito frustrante pela falta de apoio”, afirmou.
A irmã de Félix, Elibel, que viajou do Chile para acompanhar os trabalhos em La Guaira, descreve uma rotina marcada pela exaustão e pela solidariedade.
Ela relata que voluntários permanecem dias praticamente sem dormir para remover destroços com ferramentas simples, muitas delas obtidas por meio de doações feitas pelas redes sociais.
“Não tivemos ajuda do Estado. Tudo o que temos usado foi conseguido por mobilização das pessoas”, afirmou.
Além das escavações, a família percorreu hospitais, centros de atendimento a feridos e até o porto de La Guaira, transformado provisoriamente em necrotério, na tentativa de localizar Félix entre os mortos.
Apesar das buscas, nenhuma informação concreta foi encontrada até o momento.
Hotel também pode esconder vítimas
A região onde Félix desapareceu concentra dois dos locais mais atingidos pelos terremotos.
Ao lado da padaria La Almendrina funciona um hotel Marriott, cujo restaurante desabou durante uma transmissão da partida entre Brasil e Escócia pela Copa do Mundo, atraindo dezenas de pessoas que acompanhavam o jogo.
Como o último sinal do celular foi registrado entre os dois edifícios, a família não descarta que Félix possa estar soterrado em qualquer um dos locais.
Voluntários que atuam na área afirmam acreditar que ainda haja pessoas presas sob os escombros da padaria, enquanto as buscas seguem lentamente por falta de máquinas apropriadas.
Tragédia humanitária
Os terremotos transformaram a Venezuela em uma das maiores crises humanitárias da América do Sul nos últimos anos.
Segundo o balanço mais recente divulgado pelas autoridades venezuelanas, o número de mortos chegou a 2.595. Também foram contabilizados mais de 12 mil feridos.
Estimativas divulgadas por organismos internacionais apontam que dezenas de milhares de pessoas continuam desaparecidas. Plataformas independentes que compilam registros de familiares falam em cerca de 38 mil desaparecidos, enquanto projeções das Nações Unidas indicam que esse número pode ultrapassar 50 mil.
A ONU também calcula aproximadamente 7 milhões de pessoas desabrigadas e prejuízos materiais estimados em US$ 6,7 bilhões, valor equivalente a cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano.
As agências humanitárias alertam ainda para o risco crescente de falta de alimentos, água potável e medicamentos, além da possibilidade de surtos de doenças em áreas onde a infraestrutura foi completamente destruída.
Família se apega à solidariedade
Enquanto as estatísticas aumentam e as operações avançam lentamente, Daniel e Elibel mantêm uma rotina diária de ligações, contatos com equipes de resgate e campanhas de arrecadação.
A família também se apega a uma lembrança marcante do passado. Em 1999, durante o desastre provocado por chuvas torrenciais em La Guaira, Félix também desapareceu por cinco dias antes de conseguir voltar para casa.
Agora, mais de duas décadas depois, os filhos enfrentam novamente a mesma incerteza.
“Tenho forças. A incerteza é muito dolorosa, mas o que me conforta é ver pessoas que nem sequer conheciam meu pai dando tudo para tentar encontrá-lo”, afirmou Elibel.
Enquanto as buscas continuam, a família espera que o reforço das equipes internacionais e o apoio brasileiro possam ampliar as chances de localizar Félix Tovar e oferecer uma resposta para uma espera que se tornou símbolo do drama vivido por milhares de famílias venezuelanas após a maior tragédia natural da história recente do país.
