O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou nesta quinta-feira (23) o relatório final sobre a queda do voo 2283 da Voepass, em Vinhedo (SP), em tragédia que matou 62 pessoas. Leia em TVT News.
O documento conclui que uma combinação de falhas operacionais, problemas de manutenção, erros da tripulação e deficiências na fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) contribuiu para o acidente.
Além de apontar as causas do desastre, a investigação apresenta recomendações para a fabricante da aeronave, a francesa ATR, para a autoridade europeia de aviação (EASA) e para a Anac, com o objetivo de evitar que episódios semelhantes se repitam.
>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp
O que levou à queda da aeronave
O relatório técnico da Cenipa identificou que o avião ATR 72-500 enfrentou, durante praticamente todo o voo entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), condições severas de formação de gelo.
Segundo o centro, uma falha no sistema de degelo da asa direita comprometeu o desempenho da aeronave justamente quando ela atravessava uma área de intensa formação de gelo.
Ao longo do trajeto, os equipamentos de bordo emitiram diversos alertas de baixa velocidade e degradação de desempenho. Apesar disso, os investigadores concluíram que os procedimentos de emergência previstos para essas situações não foram executados pela tripulação.
O documento também aponta que conversas alheias à operação do voo reduziram a atenção dos pilotos ao monitoramento dos instrumentos.
Ocorreu também que, quando a aeronave entrou em estol — situação em que perde sustentação —, o copiloto realizou uma manobra incompatível com os procedimentos previstos nos manuais, agravando a perda de controle.
Segundo o Cenipa, o avião entrou em parafuso chato, o que significa que começou a cair girando sobre o próprio eixo, completando cinco rotações antes de atingir o solo. A velocidade de descida chegou a aproximadamente 14 mil pés por minuto, o equivalente a cerca de quatro quilômetros por minuto.
Problemas de manutenção e falhas da empresa
A investigação também identificou irregularidades na manutenção da aeronave. De acordo com o relatório, o avião da ATR foi liberado para operar mesmo apresentando uma falha no sistema de degelo que não havia sido registrada oficialmente no diário técnico, impedindo que o problema fosse corrigido.
O Cenipa afirma que havia uma prática recorrente dentro da companhia de não registrar panes e anormalidades para evitar a retirada das aeronaves de operação. Essa cultura foi classificada pelos investigadores como uma “normalização de desvios”, comprometendo os padrões de segurança operacional.
Outro ponto destacado é que a aeronave não deveria ter sido autorizada a decolar naquele horário por apresentar defeito no limpador de para-brisa, condição que, segundo normas operacionais, impede voos quando há previsão de chuva nas proximidades da decolagem ou do pouso.
Antes do voo, o avião acumulava dez itens com falhas técnicas registrados pelos investigadores.
Relatório também aponta falhas na fiscalização da Anac
O Cenipa concluiu que auditorias e inspeções realizadas pela Anac já haviam identificado diversas irregularidades na Voepass antes do acidente, incluindo problemas de manutenção, rastreabilidade de componentes e falhas no registro de panes.
Apesar dessas constatações, o relatório afirma que os mecanismos de gerenciamento de risco adotados pela agência reguladora não foram suficientes para impedir a continuidade das operações da companhia aérea, mesmo diante da deterioração dos níveis de segurança.
Em nota, a Anac informou que irá analisar as conclusões apresentadas pelo Cenipa dentro do prazo de até 120 dias.
Recomendações para evitar novos acidentes
Como resultado da investigação, o Cenipa encaminhou recomendações à fabricante francesa ATR, por meio da Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA).
Entre as medidas sugeridas estão a revisão dos alertas automáticos relacionados à perda de desempenho causada pela formação de gelo, alterações nos procedimentos de voo nessas condições, aperfeiçoamentos na caixa-preta para registrar mais informações técnicas e mudanças no sistema de monitoramento da aeronave para tornar mais clara a gravidade das situações enfrentadas pelos pilotos.
À Anac, o órgão recomendou revisar os manuais operacionais utilizados pelas empresas que voam com aeronaves ATR no Brasil, aperfeiçoar os procedimentos de fiscalização, melhorar a comunicação entre equipes de solo e tripulações durante situações de risco, compartilhar as conclusões da investigação com as companhias aéreas e acompanhar a implementação das mudanças recomendadas à fabricante.
O que disse a Voepass
Em nota divulgada após a publicação do relatório, a Voepass afirmou que o acidente representou o episódio mais grave de sua história e reiterou solidariedade aos familiares das vítimas.
A empresa destacou que possui mais de três décadas de atuação na aviação brasileira, afirmou seguir padrões internacionais de segurança e ressaltou que a tripulação era experiente, certificada e treinada para a operação do voo.
A companhia também declarou que colaborou com o Cenipa desde o início das investigações e informou que permanece à disposição das autoridades para contribuir com os desdobramentos do caso.
Investigações continuam na esfera criminal
Embora o relatório do Cenipa encerre a investigação técnica sobre o acidente, ele não tem finalidade de responsabilização civil ou criminal.
Paralelamente, a Polícia Federal mantém um inquérito para apurar eventuais crimes relacionados à tragédia. Durante as investigações, familiares das vítimas tiveram acesso às transcrições das conversas gravadas na cabine, enquanto reportagens revelaram relatos de funcionários sobre falhas no sistema antigelo que teriam sido comunicadas verbalmente antes do acidente, mas não registradas oficialmente.
Após a queda da aeronave, a Anac suspendeu as operações da Voepass em março de 2025 e, meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa, impedindo a retomada dos voos comerciais. O relatório final do Cenipa encerra a apuração técnica do acidente, mas as investigações conduzidas pela Polícia Federal seguem em andamento.

