Agora
Da Redação
Abril na história, visto em 2026
Artigo do historiador Demetrius Ricco Ávila sobre as efemérides de Abril, especial para a TVT News.
Por Demetrius Ricco Ávila*
Nesta semana dá-se o início de mais um abril. Em meio à dúzia de meses do calendário, o de número quatro salta aos olhos porquanto abarrotado de incidentes com grande significado histórico, desde o primeiro de seus trinta dias: diz-se que o “dia dos bobos”, “dos tolos”, ou “da mentira” originou-se por volta de 1582, na Europa, quando o papa Gregório XIII resolveu implantar um novo calendário (o “gregoriano”, utilizado até o presente) em substituição ao instaurado em Roma, no ano de 46 a.C., por Júlio César.
A partir de então, modificou-se a entrada de cada novo ano para janeiro, havendo a resistência dos “bobos” que, por rebeldia ou mera ignorância, seguiam celebrando a passagem de ano na chegada de abril, conforme estabelecia o obsoleto calendário juliano.
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Nos murais da História, abril se pinta sobremodo com as tintas da tragédia. Esvai-se uma vida luminar em plena luta pela construção de um sonhado amanhã de regozijo; tanto quanto aporta neste mundo o que seria a mais bisonha expressão da barbárie. Ilustram tais asserções dois fatos humana e historicamente antípodas: o assassinato de Martin Luther King – no dia 04 de abril de 1968, em Memphis – e o nascimento de Adolf Hitler – a 20 de abril de 1889, em Braunau am Inn –, respectivamente.

Em terras brasileiras, o 21 de abril marca a execução, em 1792, do alferes mineiro que ousou pensar em liberdade ao tempo que éramos (tal como hoje, à diferença do caráter oficial da condição à época) colônia de país do Hemisfério Norte. Enforcado, esquartejado e esparramado estrada afora, cabeça posta em ignomínia, Tiradentes “reviveria” mais de um século depois como herói artificial da República recém-proclamada.
Abril da resistência democrática
No que toca à nossa vida republicana, registre-se mais um trágico 21 de abril, gravado na memória coletiva como capricho de Clio, musa da História e da criatividade conforme a mitologia grega. Nesse dia, em 1985, outro mineiro ilustre, Tancredo Neves, deixou este plano eleito o 33° presidente brasileiro, todavia não empossado.
Uma das consequências de sua partida – causada por uma diverticulite encarada com surpresa, espanto e boas doses de suspeição por muita gente – foi o arranjo, muito à brasileira, de vice-presidente para substituí-lo com legitimidade no mínimo incerta, principiando-se, assim, os anos economicamente hiperinflacionários do governo José Sarney.

O trágico desaparecimento do presidente jamais empossado não enseja, necessariamente, a afirmação segura de que Tancredo Neves faria uma administração excepcionalmente pródiga. A santificação post-mortem nem sempre permite entrever ações e inações pelo menos questionáveis. Edulcorado, Tancredo assim o era tanto para os grandes operadores do sistema, nacional e internacionalmente, quanto para a classe média obscurantista que apoiara o golpe de 1964.
Leve-se em conta, ainda antes disso, a anuência do político mineiro “conciliador” em relação à manobra golpista do parlamentarismo, em 1961, que apartara João Goulart dos poderes de fato da Presidência da República, neutralizando a espetacular vitória da Campanha da Legalidade liderada por Leonel Brizola, encetada desde Porto Alegre.
Não sem razões, portanto, realizaria Tancredo uma tal “transição” sem sobressaltos, tendo sido eleito indiretamente, pela confiança dos quartéis, do patriciado e do patronato . Eleito, além do mais, por um procedimento contrário aos anseios dos milhões que haviam tomado as ruas em 1984, bradando pela aprovação da Emenda Dante de Oliveira pelo Congresso Nacional.
Fazendo correr a vista por sobre o mês de abril no calendário, pode-se divisar o dia 22, marco cronológico especialíssimo para um civismo destituído de muito rigor historiográfico, sobreposto aos bancos escolares de outrora e, quiçá, de hoje.
Abril dos indígenas
A saber: não será desprovida de intenções a prolongada omissão quanto à denúncia dos múltiplos genocídios de ordem colonial e da deculturação eclesiástica das populações originárias, iniciados a partir da ancoragem, na atual Bahia, das naus chefiadas por Pedro Álvares Cabral, em abril de 1500.
Tamanha violência, “pecado original” no que toca à fundação de nossa nacionalidade, reproduz-se através de atos desgraçadamente sem fim. A cada 19 de abril, celebra-se no Brasil o “Dia do Índio”, instituído por Getúlio Vargas através do decreto-lei 5.540, de 1943 (em tempo: também Vargas veio ao mundo no mês de abril, no ano de 1882).
Mais de meio século depois dessa instituição, o cacique Galdino Jesus dos Santos fora a Brasília, pela segunda vez, valer-se da data no intuito de reivindicar a demarcação das terras dos Pataxó Hã-hã-Hãe, ao Sul do cabralino Estado da Bahia.
Ignorado pelo poder oficial, não regressaria da viagem: cinco abastados jovens brasilienses atearam fogo a Galdino enquanto o pataxó dormia, feito desvalido, em um ponto de ônibus da Capital Federal. Tendo ao menos 95% do corpo queimado, viria a falecer em 20 de abril de 1997.
Tiradentes e Galdino, no mês de “aniversário” do Brasil, personificam dois dentre tantos mártires da brutalidade que se fez marca genésica da construção do país, desde a primeira hora. De sangue é a tinta encarnada que colore o mural da nossa História. Se acaso a crueldade para com o inconfidente e o cacique, ao juízo de quem assimilou a estupidez como norma, não sustenta a afirmação de uma bestialidade entranhada, mormente nas classes de cima da sociedade brasileira, torna-se necessário rememorar outra carnificina de abril.
Em 1996, cerca de um ano antes do assassinato do cacique pataxó, dezenove trabalhadores rurais sem-terra foram assassinados pela Polícia Militar no Sul do Pará, em um sanguinolento incidente denominado “Massacre de Eldorado dos Carajás”.

Outros dois morreriam mais tarde, em decorrência dos ferimentos produzidos a bala e cassetete. Os trabalhadores, cerca de um milhar e meio, protestavam na rodovia PA-150, no trecho conhecido como Curva do “S”. Seu ato, reedição ou continuidade da longínqua luta pela terra, chaga aberta no corpo da sociedade brasileira e mote de Palmares de Zumbi, de Canudos de Antônio Conselheiro ou do cangaço de Virgulino Ferreira da Silva, tal como nesses eventos precedentes, foi de encontro à repressão atroz por parte do braço armado da classe dominante latifundiária – no mais das vezes, disfarçado de agentes do poder público.
O pavor que a expressão “reforma agrária” suscita nos poderosos terratenentes foi um dos elementos preponderantes para a derrubada de João Goulart, em 1964. O golpe, consumado realmente a 1º de abril, e não a 31 de março, como apregoa o senso comum, impediu a criação, àquela altura já muito bem projetada por um governo composto de diversos intelectuais deveras qualificados, de dez milhões de novas propriedades rurais. Um século antes, nos Estados Unidos da América, Abraham Lincoln estava cônscio da necessidade de se criar uma estrutura fundiária sadia para fins de desenvolvimento nacional, dentro de uma perspectiva capitalista.

Os tolos do 1º de abril brasileiro, em sua paranoia anticomunista “ianquecêntrica”, por aqui reverberada pela Escola Superior de Guerra, miravam a Jango como uma “ameaça vermelha”. Miseravelmente, ainda hoje, os herdeiros e beneficiários desta estultice comemoram e se locupletam, pois, com o vermelho dos muitos litros de sangue derramado e imiscuído à terra, sangue dos que, quanto a essa mesma terra, há meio milênio clamam pelo direito a uma modesta fração para viver e trabalhar com dignidade.
Sobre o autor
* Historiador; professor do Instituto Federal Sul-rio-grandense.
CPI do Crime Organizado convoca Ibaneis, Cláudio Castro e Campos Neto
A Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado (CPI do Crime Organizado) do Senado aprovou, nesta terça-feira (31), as convocações dos ex-governadores do Distrito Federal Ibaneis Rocha e do Rio de Janeiro Cláudio Castro.
Leia em TVT News.
Autor do requerimento de convocação de Ibaneis, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) disse que o depoimento do ex-governador do Distrito Federal é essencial para a CPI compreender as relações comerciais entre o escritório de advocacia Ibaneis e entidades investigadas pela Polícia Federal (PF), bem como os critérios que nortearam as decisões de governo relativas às negociações entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master.
Ao pedir a convocação do ex-governador, Alessandro Vieira destaca que, segundo informações preliminares, o escritório de advocacia fundado por Ibaneis manteve contratos milionários com entidades ligadas ao Grupo Reag Investimentos e ao Banco Master, alvos de investigações federais, além de ter recebido transferências financeiras atípicas do Grupo J&F.
Ainda segundo Vieira, à frente do Poder Executivo distrital Ibaneis teria “agido pessoalmente para aprovar” que o banco público do Distrito Federal adquirisse o Banco Master, de Daniel Vorcaro, que já tinha vendido ao BRB cerca de R$ 12,2 bilhões em créditos questionados.
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No caso de Cláudio Castro, Vieira afirma que o depoimento do ex-governador fluminense proporcionará à CPI um “panorama macroestratégico inestimável, permitindo investigar as falhas e os gargalos institucionais que dificultam o combate à lavagem de dinheiro e à asfixia financeira do crime organizado, bem como a capilaridade da infiltração de criminosos no aparato estatal”.
Segundo Vieira, já há algum tempo o Rio de Janeiro tornou-se “o laboratório das mais sofisticadas dinâmicas do crime organizado no país”.
“Mas nos últimos anos observou-se uma mutação alarmante nesse cenário: a outrora nítida divisão entre facções ligadas ao narcotráfico e grupos milicianos formados por agentes e ex-agentes de segurança pública deu lugar a uma simbiose criminosa, frequentemente denominada narcomilícia”, disse.
“É neste ponto nevrálgico que a oitiva do senhor Cláudio Castro, na condição de ex-governador do estado, revela-se não apenas pertinente, mas absolutamente indispensável para o avanço dos trabalhos desta Comissão”, sustenta Vieira, relator da CPI do Crime Organizado.
Alex Rodrigues – Repórter da Agência Brasil
Brasil cria 255,3 mil postos de trabalho em fevereiro, aponta Caged
Os dados divulgados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, apontam que 255.321 postos de trabalho com carteira assinada foram abertos em fevereiro. O indicador mede a diferença entre contratações e demissões.
Leia em TVT News.
O saldo é maior em relação a janeiro, quando o país criou 115.018 empregos.
A criação de empregos caiu 42% em comparação a fevereiro do ano passado, pressionada pelos juros altos e pela desaceleração da economia. No mesmo mês de 2025, tinham sido criados 440.432 postos de trabalho, nos dados com ajuste, que consideram declarações entregues em atraso pelos empregadores.
Em relação aos meses de fevereiro desde 2020, esse é o terceiro resultado mais baixo da série, só perdendo para o mesmo mês de 2020 (+217,329 postos) e de 2023 (+252.480 postos). A mudança da metodologia impede a comparação com anos anteriores a 2020.
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Acumulado
Em janeiro e fevereiro, o Caged registrou queda de 37,8% no acumulado de vagas formais. Foram 370.339 nos dois primeiros meses de 2026 contra 594.953 no mesmo período de 2025.
Os dados trazem ajustes, quando o Ministério do Trabalho registra declarações entregues fora do prazo pelos empregadores e retifica os dados de meses anteriores.
Setores
Na divisão por ramos de atividade, todos os cinco setores pesquisados criaram empregos formais em fevereiro.
- Serviços: 177.953 postos
- Indústria (de transformação, de extração e de outros tipos): 32.027
- Construção civil: 31.099
- Agropecuária: 8.123
- Comércio: 6.127
Tradicionalmente, o mês de fevereiro é fraco para o comércio, que se recupera dos fins dos contratos temporários no Natal.
Destaques
Nos serviços, a criação de empregos foi puxada pelo segmento de administração pública, defesa e seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais, com a abertura de 79.788 postos formais. A categoria de Informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas abriu 48.132 vagas.
Na indústria, o destaque positivo ficou com a indústria de transformação, que contratou 29.029 trabalhadores a mais do que demitiu. Em segundo lugar, ficou o segmento de água, esgoto, atividades de gestão de resíduos e descontaminação, que abriu 1.626 vagas. A indústria extrativa abriu 1.199 vagas em fevereiro
Regiões e estados
Todas as cinco regiões registraram abertura de vagas formais em fevereiro.
>> Veja abaixo o desempenho de cada região:
- Sudeste: 133.052 postos
- Sul: 67.718
- Centro-Oeste: 32.328
- Nordeste: 11.629
- Norte: 10.634
Na divisão por unidades da Federação, 24 registraram saldo positivo e três demitiram mais do que contrataram. Os destaques na criação de empregos foram em São Paulo (+95.896 postos); Rio Grande do Sul (+24.392) e Minas Gerais (+22.874).
Os estados que eliminaram empregos formais em fevereiro foram Alagoas (-3.023), Rio Grande do Norte (-2.221) e Paraíba (-1.186);
Carteira assinada
Com a criação de empregos formais, o número de trabalhadores com carteira assinada encerrou fevereiro em 48.837.602, alta de 0,53% em relação a janeiro e de 2,19% em relação ao mesmo mês do ano passado.
Wellton Máximo – Repórter da Agência Brasil
Brasil x Croácia: resultado jogo da seleção brasileira
A Seleção Brasileira entra em campo na noite desta terça-feira (31) para o jogo amistoso contra a Croácia, às 21h (horário de Brasília). O jogo será realizado no Camping World Stadium, em Orlando (EUA),e marca o último compromisso da equipe antes de o técnico Carlo Ancelotti definir a lista dos 26 convocados para a Copa do Mundo, que será anunciada no dia 18 de maio. Acompanhe em TVT News.
Onde assistir Brasil x Croácia
Brasil x Croácia
- Local: Camping World Stadium, Orlando (EUA)
- Horário: 21h (de Brasília).
- Onde assistir: sportv, Globo, getv | TVT News acompanha em tempo real
Resultado Brasil x Croácia
Brasil
Orlando (EUA) • Camping World Stadium
Em último teste antes da Copa, Brasil encara a Croácia nesta terça-feira nos EUA
Em seu décimo jogo no comando da Amarelinha, Ancelotti busca encerrar esta primeira Data FIFA de 2026 com uma vitória, após ter enfrentado a França na última quinta-feira (26). A partida de hoje também traz uma novidade estética para os torcedores: os jogadores vestirão pela primeira vez o novo uniforme amarelo da Seleção.
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Para o confronto, o Brasil conta com o retorno do zagueiro Marquinhos, que se recuperou de dores no quadril e está à disposição da comissão técnica, assim como o jovem Vitor Reis, integrado recentemente ao grupo. Por outro lado, Wesley e Raphinha sofreram lesões e precisaram ser cortados da delegação.
Croácia é adversário de peso
Terceira colocada na última Copa do Mundo e atual 11ª no Ranking da FIFA, a Croácia promete ser uma adversária indigesta. A equipe do técnico Zlatko Dalić chega embalada por uma vitória de virada sobre a Colômbia por 2 a 1.
O destaque em campo segue sendo o incansável Luka Modrić. Aos 40 anos, o craque croata arrancou elogios de Carlo Ancelotti, com quem fez história no Real Madrid. “Modrić pode fazer todas as posições no campo porque é um meia completo. É um dos melhores jogadores que treinei, um profissional espetacular. No mercado mundial não tem um jogador como ele”, exaltou o treinador italiano.
Histórico Brasil x Croácia
O retrospecto entre Brasil e Croácia registra muito equilíbrio e jogos tensos. Em seis confrontos oficiais, a Seleção venceu três vezes e houve três empates — incluindo as quartas de final da Copa de 2022, quando os europeus levaram a melhor nas penalidades.
Linha 17 Ouro começa a operar em SP, confira o novo mapa
A nova Linha 17–Ouro do Metrô de São Paulo começou a operar nesta terça-feira (31), marcando a entrega de um projeto que se arrastou por mais de uma década. A inauguração inclui um período de seis meses de gratuidade para os usuários, medida adotada pelo governo estadual para estimular a adesão ao novo sistema e compensar os sucessivos atrasos da obra. Leia em TVT News.
Planejada inicialmente para a Copa do Mundo de 2014, a Linha 17-Ouro enfrentou uma série de entraves ao longo dos anos, incluindo problemas contratuais, mudanças no projeto e dificuldades financeiras das empresas envolvidas. O resultado foi um cronograma que se estendeu por mais de dez anos além do previsto, tornando-se um dos exemplos mais emblemáticos de atraso em obras de mobilidade urbana no estado.
O novo ramal, operado por monotrilho, passa a integrar o sistema metroferroviário da capital paulista e aparece agora nos mapas oficiais com conexão à Linha 5–Lilás. A expectativa do governo é que a linha amplie o acesso à região da zona sul e facilite o deslocamento até o aeroporto de Congonhas, um dos principais polos de transporte da cidade.
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Com a inauguração, o mapa do transporte sobre trilhos em São Paulo ultrapassa a marca de 100 estações, considerando a integração entre metrô e trens metropolitanos. A inclusão da Linha 17-Ouro também altera a dinâmica de deslocamento na região, criando novas possibilidades de conexão e reduzindo a dependência de ônibus em trechos estratégicos.
Apesar da entrega, especialistas apontam limitações operacionais neste início. Os trens da nova linha têm cinco vagões e capacidade para cerca de 600 passageiros, número inferior ao de outras linhas do sistema. A operação inicial também deve ocorrer com intervalos maiores, já que a linha ainda não está em sua capacidade plena.
A gratuidade anunciada para os primeiros seis meses é vista como uma tentativa de atrair usuários e testar a operação em condições reais. Após esse período, a expectativa é que a linha passe a integrar plenamente o sistema tarifário, com cobrança regular e integração com bilhete único.
A inauguração ocorre em meio a críticas sobre o modelo de planejamento e execução da obra. Ao longo dos anos, o projeto sofreu alterações significativas, incluindo mudanças no traçado e no número de estações. Além disso, investigações e disputas judiciais envolvendo contratos contribuíram para a paralisação de trechos e a revisão de prazos.
Mesmo com as controvérsias, o governo estadual defende que a entrega representa um avanço na infraestrutura de mobilidade da cidade. A gestão também destaca que a integração com outras linhas deve melhorar a fluidez do sistema e beneficiar milhares de passageiros diariamente.
Para os usuários, a principal novidade é a possibilidade de utilizar um novo eixo de transporte em uma região historicamente carente de opções sobre trilhos. A expectativa agora recai sobre a consolidação da operação e a ampliação futura da linha, ainda prevista em etapas.
A entrada em funcionamento da Linha 17-Ouro redefine o mapa do transporte em São Paulo, mas também reforça o histórico de atrasos e desafios estruturais em grandes obras públicas. O período de gratuidade e a operação inicial serão determinantes para avaliar o impacto real da nova linha na mobilidade urbana da capital paulista.
Confira o novo mapa do Metrô com a inclusão da Linha 17–Ouro

Golpe de 31 de março: 62 anos depois
Nos 62 anos do golpe de 31 de março, o historiador Demetrius Ricco Ávila traz olhar para aquele março de 64 a partir deste março de 2026, para provocar indagações, confrontar o senso comum e indicar leituras sobre a trama conspiratória. Veja mais conteúdos sobre ditadura militar na TVT News.
Idas e vindas: março na história brasileira, do golpe de 31 de março de 1964 à (re)afirmação da democracia
Março na história brasileira
O mês de março de 2026, no Brasil, vem sendo assinalado por extraordinárias articulações entre efemérides – isto é, datas que demarcam acontecimentos importantes do passado – e eventos do presente, que o país acompanha atento, conquanto se mantenha significativamente dividido.
No decorrer deste mês de março, no último dia 15, celebramos os 41 da redemocratização que se seguiu após um longo período de ditadura militar – em 15 de março de 1985, José Sarney, primeiro presidente civil eleito, ainda que de forma indireta, depois de uma sequência de cinco militares, é empossado presidente da República.
As instituições democráticas resistiram àqueles atos e, aparentemente, seus mentores intelectuais virão a ser punidos com as penas da lei. A Carta Magna de 1988, “Constituição Cidadã”, conforme alcunha a ela atribuída por Ulysses Guimarães, segue vigente (março também carrega uma efeméride ligada a constituições, mas à Constituição autoritária de D. Pedro I, a primeira de nossa história, outorgada a 25 de março de 1824), e as articulações entre passado e presente bem podem levar a pensar que estamos vivendo um ponto alto da história.
Oficiais militares réus por tentativa de golpe de Estado acaso sugeririam que começamos a realizar, com quarenta anos de atraso, uma “purga” que a Lei da Anistia, de 1979, ao se fazer “ampla, geral e irrestrita”, obstou?
Ainda no escopo do corrente mês, na esteira do reconhecimento internacional demonstrado pela obtenção de uma inédita premiação no Oscar, no último dia 02, por Ainda Estou Aqui, filme brasileiro que aborda prisão, tortura, morte, ocultação de cadáver e, especialmente, o sofrimento inflingido por uma ditadura a uma família por ela devassada e mutilada, deve-se recordar outra efeméride, diametralmente oposta à do dia 15: o último dia de março, 31, é indelevelemente lembrado como o do golpe de 1964.
Entrementes, antes que se passe a discorrer a respeito do golpe, fazem-se necessárias algumas palavras explicativas, concernentes ao próprio texto. A despeito de ser redigido com rigor, procurará este fugir ao academicismo e construir-se por meio de uma prosa ágil e acessível, com vistas a alargar seu alcance em termos de público leitor.
Por outro lado, de limites físicos relativamente exíguos, não pretende aprofundar discussões, nem se arroga capaz de oferecer explicações definitivas sobre o tema que se dispõe a tratar, quanto menos esgotá-lo.
Deseja, antes, provocar indagações capazes de confrontar o discurso do senso comum sobre o golpe de 31 de março de 1964 e da ditadura de mais de vinte anos por ele implantada. E, como consequência dessa confrontação, o texto objetiva inequivocamente despertar o interesse de quem venha a apreciá-lo para outras e mais abrangentes leituras relativas à história política do Brasil nas últimas seis ou sete décadas, em virtude do que, as linhas a seguir passam de pronto a exibir algumas sugestões.
Relatos e historiografia do golpe de 31 de março
A cadeia dos acontecimentos que resultaram no golpe de 31 de março de 1964 é extensa e intrincada em muitos dos pontos que nela se enlaçam.
Praticamente desde a primeira hora de instauração do regime discricionário implantado pelo golpe, imprimiram-se milhares de páginas contendo relatos de pessoas que participaram dessa cadeia, mais ou menos de perto, em um ou mais de seus pontos.
Dentre esses relatos, muitos dos quais elaborados em terras estrangeiras pela imposição do exílio compulsório a seus enunciadores, podem ser citados, a título de exemplo:
- o de Abelardo Jurema (Sexta-feira 13 – os últimos dias do governo João Goulart), ex-ministro da Justiça do governo João Goulart;
- o de Paulo Schilling (Como se coloca a direita no poder, em dois volumes), economista iracundo, que fora assessor de Leonel Brizola no governo do Rio Grande do Sul, secretário-executivo da Frente de Mobilização Popular e diretor do jornal brizolista Panfleto;
- o de Miguel Arraes (Brasil, o povo e o poder), governador de Pernambuco deposto pelo golpe; e muitíssimos mais.
Para além desses relatos, no mais das vezes carregados de uma densidade existencial, a boa historiografia brasileira produziu e segue produzindo obras de relevo para a elucidação, seja das razões, seja do modus operandi dos que derrubaram um governo constitucionalmente estabelecido e desencadearam uma repressão que se estenderia por mais de dois decênios.
Também a título de exemplo, nessa direção, recorde-se um livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira chamado O Governo João Goulart e as lutas sociais no Brasil, um dos trabalhos pioneiros no que tange à historiografia do golpe, uma vez que veio à luz no final da década de 1970, época em que a ditadura dava sinais de arrefecimento.
Trama conspiratória do golpe militar
Tanto nos relatos vívidos de lideranças sociais e políticas e de participantes diretos do governo deposto, quanto nos trabalhos historiográficos de que se possa lançar mão, salta aos olhos o fato de que o golpe de 31 de março de 1964 é filho da conspiração; de uma trama de conspirações, melhor dito, que envolveu:
- elementos endógenos – latifundiários, industriais, imprensa e jornalistas de grande expressão, setores conservadores da Igreja, falsos institutos de pesquisa e fomento à democracia (como IPES e IBAD), parlamentares, governadores e outros elementos da classe política, partidos, militares…
- e exógenos, sobremaneira, o governo dos Estados Unidos da América, cuja ingerência sobre a política brasileira, coroada pelo golpe de 1964, está competentemente descrita e documentada em O dia que durou 21 anos (Brasil, 2012), dirigido por Camilo Galli Tavares.
A trama conspiratória, espargida em bombardeios midiáticos diários, capturou a consciência da classe média, temerosa da “ameaça comunista” que supostamente vinha rondando o Brasil, temor acirrado pelo sucesso da Revolução Cubana desde 1959.
Parte dessa classe média vai às ruas marchar, “em família”, “com Deus e pela liberdade”, para se contrapor ao Comício da Central do Brasil, de 13 de março de 1964, no qual João Goulart subira o tom na pugna por suas Reformas de Base.

Note-se que, naquele contexto de Guerra Fria, e em conta de idiossincrasias da sociedade brasileira – que por certo perduram, anacronicamente, nos dias de hoje -, a alusão a reformas era prontamente entendida como demonstração de alinhamento com Moscou. Meras reformas, propostas dentro da ordem constitucional, em que pese o tom mais elevado de Goulart no Comício.
O programa das Reformas de Base, portanto, nem de longe, significava revolução. João Goulart era gaúcho e herdeiro político de Getúlio Vargas, que, por sua vez, era produto do meio castilhista e borgista do Rio Grande do Sul dos tempos da República Velha. Júlio de Castilhos, que seria sucedido e teria sua política continuada por Borges de Medeiros no governo do Estado natal de Vargas, fora o materializador, em termos políticos e institucionais, nas plagas sul-rio-grandenses, do positivismo do pensador francês Auguste Comte (1798-1857), doutrina francamente reformista e avessa à ideia de revolução. O trabalhismo brasileiro, ao menos no que toca a Getúlio Vargas e João Goulart, praticamente em nada se assemelhava ao comunismo.
Não obstante, a principal dentre as Reformas de Base propostas por Goulart era a reforma agrária, defrontando-se, pois, com a solidez multissecular da instituição do latifúndio. Estando também acuados pelas Ligas Camponesas lideradas por Francisco Julião a partir de Pernambuco, e rancorosos de Leonel Brizola, que (mais radicalizado que João Goulart e seu grupo, de modo a cindir o PTB em tendências díspares), tendo governado o Rio Grande do Sul, fizera desapropriações de terras improdutivas ou de propriedade contestável e auxiliara trabalhadores rurais na criação de assentamentos, os grandes terratenentes do país unem-se à trama de conspirações, tomando parte na desestabilização do governo e na derrubada do presidente da República.
Em todo caso, a evocação da questão agrária e do golpismo do setor primário contempla não mais do que um pedaço da cadeia de acontecimentos suprarreferida. Há outros, demasiados, pontos a elucidar, personagens a conhecer e ações e omissões a desvelar. No âmbito dessas elucidações e desvelos, seguramente se encontra a atuação do setor secundário.
Decorrido pouco tempo do golpe de 1964, o economista teuto-estadunidense André Gunder Frank, que vivera no Brasil e fora, junto com Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos, um dos criadores da Teoria (Marxista) da Dependência, chamava a atenção para a participação ativa e decisiva da FIESP no golpe de 1964 (nesse sentido, ver o livro Gunder Frank – o enguiço das ciências sociais, de Gilberto Felisberto Vasconcellos).

Confirmada tantos anos depois por depoimentos à Comissão Nacional da Verdade (instituída em 2012), tal participação foi a pá de cal despejada sobre a ilusão de uma parcela da intelectualidade brasileira de esquerda, vinculada ao Instituto Superior de Estudos Brasileiros (mais conhecido como ISEB e extinto três dias após o golpe), que acreditava na existência de uma “burguesia nacional” interessada em se fazer vanguarda revolucionária, unida circunstancialmente às classes subalternas na luta contra o jugo do capital estrangeiro e as garras do imperialismo.
O pequeno livro cujo título tem a forma da pergunta Quem é o povo no Brasil?, de autoria do militar e historiador marxista Nelson Werneck Sodré, e parte integrante da coleção Cadernos do Povo Brasileiro, editada pelo ISEB por volta de 1962, traz a expressão mais acabada dessa ilusão.
Demasiados pontos, personagens, ações e omissões que excedem os limites e possibilidades desse texto. Uma imperiosa seletividade impõe, dessa feita, um avanço no tempo para memorar que, em 31 de março de 1964, o general Olímpio Mourão Filho, o “Vaca Fardada”, segundo cognome a ele conferido por si mesmo, para estupefação do marechal Humberto Castelo Branco, desloca-se de Juiz de Fora em direção o Rio de Janeiro para ocupar o Ministério da Guerra (embora Brasília tivesse sido inaugurada em abril de 1960, alguns ministérios permaneciam na antiga capital do país), dando início ao golpe.
Não era a primeira vez, diga-se de passagem, que o general Mourão maculava sua biografia com um golpe de Estado. Em 1937, com a patente de capitão, ligado à Ação Integralista Brasileira (AIB), engendrou o falso Plano Cohen, que serviu de justificativa para a implantação do Estado Novo (Mourão, que morreria em 1972, deixou um livro de memórias intitulado A verdade de um revolucionário). Castelo Branco, por seu turno, coordenado com a cúpula golpista, intentava consumar o golpe pouco tempo mais tarde, a 1° de maio, tendo sido surpreendido pela precipitação de Mourão.
Marco inicial do golpe
Em que pese a necessária exiguidade do texto, cabe uma indagação mais profunda a respeito do golpe de 1964. Qual o marco inicial da cadeia de acontecimentos que culminou com a marcha tresloucada do general Mourão?
Testemunha ocular da história – posto que tenha sido líder do governo João Goulart na Câmara dos Deputados e ocupado, pelo período aproximado de um semestre, um dos mais estratégicos ministérios do mesmo governo -, Almino Afonso, em seu livro de memórias publicado no cinquentenário do golpe (1964 na visão do ministro do Trabalho de João Goulart), recua até 1950.
Ele toma por baliza o inconformismo da União Democrática Nacional, a UDN, partido visceralmente antigetulista, em razão da derrota do brigadeiro Eduardo Gomes para Getúlio Vargas na corrida presidencial daquele ano (e que fora a segunda derrota consecutiva da UDN e do brigadeiro, que, em 1946, perdera para o general Eurico Gaspar Dutra, candidato indicado por Vargas para disputar no voto o Palácio do Catete).
Malfadada uma manobra golpista da UDN, que consistia em não reconhecer a vitória eleitoral de seu oponente, com base na tese estapafúrdia – dado que sem qualquer aporte na Constituição em vigor, promulgada em 1946, mas constante da de 1891 – de que aquele obtivera a maioria, porém, não a maioria absoluta dos votos, tem início mais um período de governo de Getúlio Vargas; “nos braços do povo”, isto é, eleito democraticamente, tal como havia vaticinado ao ser apeado do poder (ressalte-se, em consequência de uma intervenção militar) em outubro de 1945.

Foto : Arquivo Nacional/Fundo Correio da Manhã
Como realização maior desse retorno de Vargas, a criação da Petrobras, em 1953 – por força de um empenho deliberado do governo em mobilizar a sociedade em prol do monopólio estatal sobre o petróleo – afigura-se, segundo Afonso, como o ponto mais alto de tensão entre o nacionalismo getulista, reverberado pelo PTB, e o “entreguismo” da UDN.
Em todo caso, a criação Petrobras não faz tensionar a relação entre governo e comandos militares, até mesmo porque elementos nacionalistas da oficialidade envolveram-se na campanha “O Petróleo é Nosso” – entre eles, curiosamente, o então reformado general Leônidas Cardoso, pai do futuro presidente Fernando Henrique Cardoso, cujo governo, em 1995, acabaria com o monopólio estatal do petróleo.
Doutrina de Segurança Nacional
Ocorre que, em 1949, nos estertores do governo de Eurico Gaspar Dutra, criou-se a Escola Superior de Guerra – à semelhança do National War College estadunidense, inaugurado em 1946 -, como “Instituto de Altos Estudos de Política, Defesa e Estratégia”. Vale ressaltar que, enquanto presidente, o general Dutra rompeu relações com a URSS e colocou na ilegalidade o PCB, ato contínuo, cassando os mandatos de seus representantes no Congresso.
Centro reitor do pensamento de grande parte oficialidade a partir de então, a Escola Superior de Guerra preconiza a defesa contra o “inimigo interno”, a saber, o “comunismo”, defesa que se expressa na “Doutrina de Segurança Nacional”. Tendo seu pensamento embebido por uma tal doutrina essencialmente conservadora, assemelhando-se à futura classe média da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” – estrato socioeconômico do qual, outrossim, se fazia a extração dos novos oficiais -, essa oficialidade passa a mirar com desconfiança qualquer movimento reivindicatório que parta da sociedade, bem como iniciativas de governo visando o aprimoramento da legislação do trabalho.
Por conseguinte, não tardará a fricção entre o governo Vargas e militares conservadores. Esta se dá no momento em que, à frente do Ministério do Trabalho, um ainda quase desconhecido João Goulart determina o reajuste de cem por cento no salário mínimo nacional. Em protesto contra esse reajuste, o então coronel Golbery do Couto e Silva redige o Manifesto dos Coroneis, assinado por 42 coroneis e 39 tenentes-coroneis e dirigido à alta oficialidade.
Divulgado pela imprensa em 20 de fevereiro de 1954, o Manifesto obriga Getúlio Vargas a um recuo, forçando-o a remover Goulart do Ministério do Trabalho dois dias depois. Na raiz das queixas dos coronéis estava a suposta desvalorização do governo em relação ao Exército, ao não atender às suas necessidades de aquisição de novos equipamentos; não promover a melhoria de suas instalações; e, sobremodo, não conceder reajustes salariais que equiparassem seus vencimentos aos de militares de outros países. Finalmente, segundo os coronéis, o reajuste do salário mínimo ocasionaria desinteresse por parte dos jovens em seguir carreira militar, dado que a remuneração em outras atividades se lhes pareceria mais convidativa.
De Vargas a Brizola
Um pequeno salto no tempo. Em 24 de agosto do mesmo ano de 1954, o presidente Getúlio Vargas, em meio a uma crise política, que era também, e talvez principalmente, uma crise militar – vide o major Rubens Vaz, morto no episódio da rua Tonelero e a consequente instauração da “República do Galeão” -, desfere um tiro contra o próprio coração. A enorme comoção popular causada pela morte do supremo mandatário da nação, costuma-se afirmar, retraiu os ímpetos da UDN e dos militares a ela associados e, destarte, retardou o golpe militar em dez anos.
A afirmação é parcialmente verdadeira. É preciso lembrar que, no ano seguinte, manobras golpistas udenistas-militares, refreadas pelo marechal legalista Henrique Teixeira Lott, almejavam impedir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek. Alguns anos depois, em agosto de 1961, ante a renúncia inesperada do presidente Jânio Quadros, transcorridos poucos meses de seu governo, os ministros militares tentam impedir a posse do vice-presidente, João Goulart, violando, desse modo, o que estabelecia a Constituição.

Foto: Arquivo Senado Federal
Uma intensa mobilização popular liderada pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola – que entrou para a história com o nome de Campanha da Legalidade -, correligionário e cunhado de Goulart, garante a posse deste na presidência da República, no dia 07 de setembro daquele ano. Entretanto, como estivesse o Brasil à beira de uma guerra civil, o Congresso estabeleceu, às pressas, o regime parlamentarista.
Persuadido por Tancredo Neves de que seria esta a melhor fórmula para que se acalmassem os ânimos no país, e para desencanto de Brizola, João Goulart assume a presidência praticamente sem poderes. Somente em janeiro de 1963, mediante um plebiscito, dar-se-ia o retorno do Brasil ao presidencialismo.
Leonel Brizola, ainda que dispondo da vigorosa Brigada Militar gaúcha, liderara uma campanha ímpar: nada mais improvável, na América Latina do que um governante civil lograr o insucesso de uma tentativa de golpe militar.
Doze anos mais tarde, a tentativa de resistência de Salvador Allende no Palácio La Moneda evidenciaria dramaticamente esta improbabilidade. No Rio Grande do Sul de 1961, todavia, tivera lugar a excepcionalidade – o microfone de uma rádio silenciou os canhões, mesmo que temporariamente.
Golpe militar consumado
Um novo salto no tempo. O general Olímpio Mourão Filho, como supradito, deflagra o golpe a 31 de março de 1964.
João Goulart voa do Rio de Janeiro para Brasília. Mais tarde, rumará para Porto Alegre, onde o já então deputado federal Leonel Brizola (eleito em 1962, pelo extinto Estado da Guanabara, com votação recorde) o aguarda junto a um grupo de generais. Destaca-se nesse grupo o general Ladário Telles, recentemente nomeado comandante do III Exército (hoje chamado Comando Militar do Sul).

Telles é um general legalista, e seu exército é o mais poderoso do país. Por isso, Brizola está convencido da viabilidade da resistência ao golpe, embasado pela experiência de 1961. Naquela ocasião, o êxito da Campanha da Legalidade deveu-se a que o então comandante do III Exército, general José Machado Lopes, aderira à mobilização do Rio Grande do Sul em nome da posse de Goulart. Leonel Brizola, uma vez mais, tem a seu lado um ocupante desse importante comando.
João Goulart aterrissa na capital gaúcha, une-se ao grupo e ouve os arrazoados – Brizola solicita que o presidente o nomeie ministro da Justiça e, a Ladário Telles, ministro da Guerra, a fim de dar início à resistência.
Telles afirma que, além dos contingentes militares que possuía, poderia armar mais cem mil civis; mas argui que, em sendo um militar legalista, apenas poderia começar a agir a partir da ordem expressa do presidente. Essa ordem, contudo, não veio – João Goulart opta por não resistir, alegando não desejar derramamento de sangue do povo brasileiro em nome da defesa de seu mandato.
Decorridos muitos anos, na década de 1980 deu-se a conhecer publicamente a “Operação Brother Sam”, por efeito da qual, no momento do golpe de 1964, havia todo o apoio militar necessário para destituí-lo, fornecido pelos Estados Unidos, incluindo um porta-aviões na costa do Espírito Santo. Estaria o presidente deposto inteirado quanto a esta operação?
O golpe é, então, fato consumado, e Goulart parte para o exílio, onde morrerá, na Argentina, em 1976. Voltaria a adentrar novamente as fronteiras do Brasil dentro do féretro, para ser sepultado em São Borja.
31 de março ou 1o de abril: o dia da mentira
O golpe de 1964 consumou-se entre os dias 31 de março e 02 de abril, tendo o dia 1° de abril, portanto, como seu termo médio. Por óbvio, a versão prevalecente dos acontecimentos empurrou, no calendário, seu aniversário para trás, no intuito de evitar a identificação jocosa com a data conhecida como o dia da mentira. O dia 31 de março demarca tão-somente o início da movimentação do general Mourão de Juiz de Fora rumo ao Rio de Janeiro.
Em verdade, o golpe estaria consumado, em sentido político-institucional, apenas na madrugada do dia 02 de abril, quando o senador Auro de Moura Andrade (filho de uma abastada família paulista de fazendeiros e que participara, em São Paulo, da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”), presidindo uma sessão extraordinária, tumultuada e atipicamente breve do Congresso Nacional, declarou vaga a presidência da República e entregou o comando do país para Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados.

O anúncio teve protesto veemente de Tancredo Neves, que, aos gritos, o chamava de “canalha”; mesmo que Andrade soubesse – por meio de um comunicado feito por Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil do governo deposto – que João Goulart, àquela altura, encontrava-se em Porto Alegre, quer dizer, em paradeiro conhecido e dentro do território nacional. A trama conspiratória uniu civis e militares. Ao golpe de fardas, sabres e tanques, agregou-se o de paletós, canetas e infâmias.
Sobre o autor
Demetrius Ricco Ávila, graduado em Ciências Sociais (UFRGS), mestre em História (PUCRS), doutorando em História (PUCRS), Professor do Instituto Federal Sul-rio-grandense e Secretário de Formação Política do Movimento Cultural Darcy Ribeiro (MCDR)/PDT-RS. Autor do livro Eneida Tropical: O Povo Brasileiro como grande narrativa sobre o Brasil (Class, 2019)
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