Agora

Da Redação

O Brasil que acordará depois das urnas

Por Nilson Hashizumi *

Na manhã seguinte à eleição, uma mãe fará as contas antes de ir ao supermercado. Um jovem procurará trabalho. Alguém continuará esperando uma cirurgia. O resultado das urnas estará conhecido. A vida continuará exigindo respostas.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro carrega experiências, entregas e responsabilidades muito diferentes. É preciso olhar além dos nomes na urna.

Uma trajetória que chegou à mesa

Lula conheceu a pobreza antes de combatê-la como presidente. Retirante nordestino, metalúrgico, dirigente sindical, fundador do PT e deputado constituinte, tornou-se uma liderança internacional. Cumpriu dois mandatos, ajudou a eleger Dilma Rousseff e está concluindo o terceiro.

Há resultados para comparar. Segundo dados do IBGE, entre 2023 e 2024, 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza. O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome em 2025 e permaneceu fora em 2026. São conquistas coletivas, apoiadas em políticas públicas, trabalho e renda.

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O reconhecimento da FAO reflete o papel do governo, da academia e da sociedade do Brasil no combate à fome e à pobreza. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Criado em seu primeiro governo, o Prouni beneficiou mais de 3,6 milhões de estudantes ao longo de vinte anos. Para famílias de baixa renda, o diploma abriu possibilidades profissionais antes distantes. Não garantiu prosperidade a todos, mas ampliou oportunidades de melhorar a renda pessoal e familiar.[20]

Essas mudanças têm rosto. São a comida que voltou, o filho que chegou à faculdade, a possibilidade de imaginar outro futuro.

Herança não substitui entrega

Flávio exerceu quatro mandatos estaduais e chegou ao Senado em 2019. Sua principal força política é a herança do pai: identidade, organização e eleitores mobilizados. Jair Bolsonaro foi condenado por crimes ligados à tentativa de golpe; essa condenação não se transmite ao filho.

O balanço parlamentar merece cobrança. Levantamento do UOL de maio registrava dois projetos de autoria principal aprovados no Senado em sete anos, nenhum convertido em lei. Sua defesa ressalta coautorias e emendas; houve também relatorias relevantes. Ainda assim, a produção própria é limitada para quem pretende comandar o país.

Também há questões de reputação. Flávio foi denunciado no caso das “rachadinhas” por crimes que incluíam peculato e lavagem de dinheiro. O caso foi encerrado após anulação de provas, sem condenação. Ele nega irregularidades.

Homenageou Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como miliciano, e empregou sua mãe e mulher. São relações documentadas; não comprovam participação de Flávio em milícia.

Reportagem publicada em 29 de setembro acrescentou alegações de participação em festas com garotas de programa. Isso não comprova crime. Politicamente, exige examinar a coerência entre a conduta atribuída e o discurso conservador.

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Notas fiscais apresentadas pelo ex sócio do Flávio Bolsolnaro – Foto: Reprodução/Platô

Quem vota, quem pode mudar

Na Quaest de setembro, Lula tinha vantagem entre mulheres, pessoas de menor renda, nordestinos, católicos, pretos e pardos. Flávio, entre homens, evangélicos, brancos, pessoas de renda mais alta e eleitores do Sul. São tendências, não destinos.

Entre as alternativas mais competitivas predominam candidaturas de direita ou conservadoras, inclusive moderadas. O antipetismo poderá aproximar seus eleitores no segundo turno. O Datafolha encontrou, entre apoiadores de Zema, Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, 43% para Flávio e 30% para Lula.

Essa convergência poderá decidir a eleição. Não significa transferência automática nem transforma todo conservador em extremista.

A soberania também estará na urna

Há uma disputa que atravessa as fronteiras. Donald Trump, referência para forças conservadoras e de extrema direita em diferentes países, procura ampliar a influência dos Estados Unidos sobre decisões políticas nas Américas. No Brasil, essa pressão ganhou uma expressão concreta: em julho de 2025, seu governo anunciou tarifas que somavam 50% e vinculou expressamente a medida ao processo contra Jair Bolsonaro.

Quando uma potência usa o comércio para pressionar decisões da Justiça de outro país, ameaça sua autonomia. O prejuízo pode chegar ao emprego, à produção e à renda de brasileiros que nada têm a ver com os interesses de uma família política.

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Trump anuncia nova tarifa ao Brasil – Foto: Divulgação

Eduardo Bolsonaro integra essa história. Morando nos Estados Unidos desde 2025, perdeu o mandato de deputado federal por São Paulo em dezembro daquele ano, por faltas às sessões. Em 21 de setembro de 2026, foi demitido do cargo de escrivão da Polícia Federal por abandono de cargo.

Em Washington, atua pela adoção de medidas contra autoridades brasileiras. Neste setembro, ele e Paulo Figueiredo anunciaram que buscariam a retomada de sanções contra Alexandre de Moraes e medidas contra outros ministros do STF. Apresentam-se como dissidentes perseguidos; sua atuação, porém, precisa ser examinada pelo efeito sobre o país que Eduardo foi eleito para representar.

O risco de interferência eleitoral também provocou alertas de parlamentares dos próprios Estados Unidos, que cobraram do governo Trump respeito ao resultado brasileiro.

Para 2027, a diferença importa. Pela trajetória diplomática e pelas posições de campanha, Lula tenderia a preservar autonomia e diversificar parceiros. A proximidade política dos Bolsonaro com Trump pode facilitar interlocução, mas traz uma cobrança incontornável a Flávio: demonstrar independência quando os interesses brasileiros contrariem Washington.

Ser conservador não obriga ninguém a aceitar tutela estrangeira. Defender a soberania deve reunir brasileiros de diferentes posições políticas.

O mandato começa quando a promessa é cobrada

Flávio promete privatizações, cortes administrativos e endurecimento criminal. Seus apoiadores esperarão segurança e menos burocracia; precisarão cobrar proteção dos serviços essenciais.

Lula oferece continuidade da valorização do salário-mínimo, do SUS e dos investimentos. Tem experiência e políticas em andamento, mas carrega desgaste e falhas que exigem resposta. Seus eleitores esperarão que os avanços alcancem quem ainda ficou para trás.

Guerras pressionam combustíveis, fertilizantes e alimentos. O Brasil pode ampliar mercados na Europa, no Oriente Médio, na África e nas Américas, desde que combine diplomacia, produção e responsabilidade ambiental.

Exportar mais precisa melhorar a vida aqui. Reduzir a dependência de fertilizantes importados, investir em energia e atender às exigências sanitárias e ambientais dos compradores ajudará a transformar oportunidades externas em segurança para a população. Governar exige negociação com o Congresso e compromisso com quem votou no adversário.

O Brasil que sairá das urnas precisará alimentar seu povo e decidir seu próprio caminho. Nenhuma dessas responsabilidades pode ser entregue a uma potência estrangeira.

Porque a esperança só vira conquista quando atravessa a porta e chega à mesa.

* Sobre o autor


Nilson Hashizumi é profissional de Marketing pela ESPM, jornalista pela Cásper Líbero, fotógrafo pela Focus SP e gestor de cultura pelo CPF/SESC, com MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político pelo IDP.

Após 30 anos de atuação em corporações e na iniciativa privada, ingressou nas campanhas políticas em 2018. Atua em todo o Brasil, com campanhas vencedoras de candidaturas majoritárias e proporcionais em São Paulo, Minas Gerais e Pará. É cofundador da Alcateia Política e associado ao CAMP.
https://www.linkedin.com/in/nilsonhashizumi/


Os artigos dos colunistas expressam as opiniões individuais da autora ou do autor e não, necessariamente, refletem a opinião da TVT News

TSE manda Nikolas Ferreira apagar post que associa fala de Lula a crimes contra crianças

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) remova, no prazo de 24 horas, uma publicação nas redes sociais que associa uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a crimes envolvendo crianças e adolescentes. Leia em TVT News.

A decisão foi tomada nesta quarta-feira (30), pela ministra Estela Aranha. Segundo a magistrada, a publicação retirou de contexto uma fala de Lula durante um comício realizado na segunda-feira (28), em Belém (PA), quando o presidente tratava da prevenção e do tratamento do câncer de próstata.

Durante o discurso, Lula criticava a resistência de homens em realizar exames para detectar a doença. Ao abordar o exame de próstata, o presidente afirmou: “As mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas. O homem não, ele é cheio de trejeito”. Na sequência, disse que, em caso de câncer de próstata, os pacientes seriam submetidos a exames e procedimentos médicos.

A declaração foi feita enquanto Lula também mencionava a realização da primeira cirurgia robótica de próstata no Pará e na Região Norte. O presidente destacou ainda avanços no tratamento da doença e a redução dos riscos de incontinência urinária e impotência sexual após procedimentos realizados com cirurgia robótica.

Decisão aponta descontextualização

Após o discurso, Nikolas Ferreira publicou no X um vídeo comentando a declaração. Na gravação, o deputado afirmou ser “difícil comentar” a fala do presidente e questionou a interpretação de que Lula estaria fazendo uma comparação relacionada aos exames médicos.

“Agora está dando para entender por que o Lula não está querendo ir mais nos debates. Porque toda vez que ele abre a boca mostra quem realmente ele é”, afirmou Nikolas na publicação.

Na decisão, Estela Aranha avaliou que a fala original de Lula estava relacionada à resistência masculina aos exames de próstata e utilizava as mulheres como referência para tratar de cuidados preventivos de saúde.

Segundo a ministra, a publicação de Nikolas deslocou o sentido original da declaração ao relacioná-la a condutas criminosas envolvendo crianças e adolescentes. Para Estela, o conteúdo poderia levar o eleitor a interpretar que Lula estaria fazendo referência, concordando ou normalizando crimes dessa natureza.

A magistrada afirmou que a situação não poderia ser tratada como uma interpretação alternativa de uma declaração, mas como uma construção discursiva capaz de alterar o entendimento sobre o conteúdo original da fala.

Ministra destaca regra sobre desinformação eleitoral

Na decisão, Estela Aranha também afirmou que a desinformação em contexto eleitoral não se restringe à criação de informações completamente falsas. Segundo ela, a forma como uma informação verdadeira ou existente é apresentada também pode produzir distorções.

“A desinformação eleitoral não se limita à mentira integralmente fabricada. A distorção também pode decorrer da maneira pela qual uma informação é apresentada”, afirmou a ministra.

A ação contra a publicação foi apresentada pela coligação de Lula ao TSE. A determinação estabelece prazo de 24 horas para que o conteúdo seja removido.

O texto de apoio informa que houve tentativa de contato com Nikolas Ferreira, mas não registra manifestação do deputado sobre a decisão até o momento.

Com a decisão do TSE, Nikolas Ferreira deverá retirar o conteúdo determinado pela ministra dentro do prazo estabelecido.

Leia também:

>> Organizações cobram de candidaturas propostas para reduzir desigualdades raciais

TSE tem 3 a 2 para remoção de posts sobre Nossa Senhora Aparecida

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisa, nesta quarta-feira (30), a decisão do ministro André Mendonça que determinou a retirada de publicações nas redes sociais relacionadas à Nossa Senhora Aparecida e ao candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). O julgamento ocorre em plenário virtual e está previsto para terminar às 23h59. Até agora, 4 ministros votaram pela remoção dos posts, sendo que um decidiu que a postagem de do humorista Antonio Tabet deva ser mantida. Leia em TVT News.

Como votam os ministros

  • Placar da votação até o momento:
    • manter a decisão de Mendonça e derrubar os posts: 3
    • divergência parcial (remoção dos posts, mas manter o de Tabet): 2
    • decisão contrária: 0

Até o momento, os ministros André Mendonça, Dias Toffoli, Kassio Nunes votaram para manter a decisão pela derrubada das publicações. Os ministros Ricardo Villas Bôas Cueva e Floriano de Azevedo Marques também votaram para remover, no entanto, com a observação para manter a postagem de Tabet.

A sessão virtual está marcada para durar até as 23h59 desta quarta.

Restam votar os ministros Estela Aranha e Sebastião Reis Júnior. 

Ministros do TSE

Quem são os ministros do TSE

  • Kássio Nunes Marques (atual presidente do TSE);
  • André Mendonça (vice-presidente);
  • Dias Toffoli;
  • Sebastião Reis Júnior;
  • Ricardo Villas Bôas Cueva;
  • Floriano Peixoto Marques Neto;
  • Estela Aranha

O que o TSE está votando

A decisão de Mendonça foi tomada na sexta-feira (25), após pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. O ministro determinou que plataformas digitais removessem conteúdos que apresentassem como verdadeira a informação de que o candidato pretendia alterar o status de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. A ordem também estabeleceu medidas para impedir a circulação de conteúdos semelhantes.

O caso ganhou repercussão depois que diferentes publicações passaram a relacionar Flávio e setores da direita à possibilidade de retirada do título religioso. O senador nega qualquer intenção nesse sentido.

Projeto citado nas publicações foi apresentado em 2007

A origem da controvérsia está em um projeto de lei apresentado em 2007 pelo então deputado federal Professor Victório Galli (MT). O texto propunha modificar a legislação que estabeleceu o feriado de 12 de outubro e substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.

A proposta não avançou na Câmara dos Deputados. Foi rejeitada pela Comissão de Educação e Cultura e arquivada em agosto de 2008.

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Projeto de Lei do deputado bolsonarista Victório Galli propunha retirar o feriado de 12 de outubro e trocar o título de Nossa Senhora Aparecida para padroeira dos basileiros católicos apostólicos romanos – Imagem: Reprodução / Câmara dos Deputados

Anos depois, Galli se aproximou do grupo político do ex-presidente Jair Bolsonaro e chegou a ocupar o cargo de assessor especial da Presidência da República. Durante a atual campanha eleitoral, essa relação passou a ser utilizada em publicações que associaram Flávio Bolsonaro à proposta, embora o candidato negue ter qualquer projeto com esse objetivo.

Entre os conteúdos atingidos pela decisão de Mendonça está uma publicação do humorista Antonio Tabet. Embora o texto não citasse nominalmente Flávio Bolsonaro, o ministro entendeu que a postagem estava relacionada à informação considerada falsa sobre o candidato.

Decisão provocou disputa entre ministros do STF e TSE

A ordem de retirada das publicações acabou provocando uma sequência de decisões diferentes no Supremo Tribunal Federal (STF).

O ministro Flávio Dino atendeu a um pedido de Tabet e suspendeu a determinação de Mendonça. Dino considerou que a medida atingia a liberdade de expressão e o debate eleitoral e determinou o restabelecimento das publicações.

A campanha de Flávio Bolsonaro recorreu da decisão. Na sequência, o ministro Luiz Fux suspendeu a determinação de Dino e restabeleceu a ordem de retirada dos conteúdos. Fux determinou que as plataformas cumprissem a medida e defendeu que o tema fosse analisado pelo plenário do STF.

Enquanto o impasse avançava, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, encaminhou um ofício ao presidente do Supremo, Edson Fachin, questionando o que considerava interferências em decisões da Justiça Eleitoral.

>> Ex-sócio de Flávio Bolsonaro relata despesas, Rolex e lobby no STF: Documentos reunidos por ex-sócio do senador apontam pagamentos de despesas pessoais, presente de R$ 305 mil e lobby com Kassio Nunes Marques no STF

Fachin decidiu não pautar para esta quarta-feira a análise das decisões tomadas no STF. Com isso, o julgamento da decisão original de Mendonça será realizado pelo plenário virtual do TSE.

Mendonça libera publicação de Erika Hilton

Na terça-feira (29), véspera do julgamento, André Mendonça reviu parcialmente sua própria decisão e autorizou a permanência de uma publicação da deputada federal Erika Hilton (Psol-SP).

No texto, a parlamentar mencionava o projeto apresentado em 2007 e arquivado no ano seguinte. Erika afirmava que uma eventual retomada da proposta “pelas mãos de Flávio ou pelas mãos de seus aliados” deveria ser acompanhada com cautela.

Ao reconsiderar o caso, Mendonça entendeu que a publicação não apresentava como fato que Flávio Bolsonaro pretendesse retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

A decisão desta quarta-feira deverá definir a posição do colegiado do TSE sobre a ordem de remoção determinada pelo ministro.

Tema entrou na disputa eleitoral

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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, com a imagen de Nossa Senhora de Nazaré, durante ato de campanha em Belém – Foto: Ricardo Stuckert.

A controvérsia passou a fazer parte dos discursos dos candidatos à Presidência. Flávio Bolsonaro tratou do assunto em um podcast voltado ao público católico e comparou as informações que o associam ao caso com a facada sofrida por Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018.

O senador afirmou considerar a associação uma espécie de “facada” contra sua candidatura e voltou a negar qualquer relação com a proposta sobre Nossa Senhora Aparecida.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também comentou o episódio durante agenda em Belém (PA). Lula afirmou que Nossa Senhora Aparecida deveria ser respeitada e defendeu, na mesma fala, o respeito às diferentes religiões, incluindo as religiões de matriz africana.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também foi envolvida na disputa. Flávio Bolsonaro acusou a entidade de participar da disseminação das informações sobre o tema. A CNBB negou a acusação e afirmou não ter participado da elaboração ou divulgação dos conteúdos.

O episódio ainda motivou um relatório da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), organismo ligado à CNBB, que reúne 58 episódios de ataques da extrema direita contra a entidade, seus dirigentes e campanhas pastorais desde 2018.

Agora, caberá aos ministros do TSE analisar a decisão de André Mendonça e definir a situação das publicações no âmbito da Justiça Eleitoral.

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Organizações cobram de candidaturas propostas para reduzir desigualdades raciais

O enfrentamento das desigualdades raciais deve estar no centro das propostas das candidaturas nas eleições de 2026. Essa é a cobrança apresentada pelo Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (CEDRA) e pela Coalizão Negra por Direitos em um posicionamento conjunto divulgado para o período eleitoral. Leia em TVT News.

Com a mensagem “Com racismo, nenhuma democracia é plena”, as organizações apresentam um diagnóstico sobre como as desigualdades raciais afetam a população negra em diferentes etapas da vida e defendem compromissos concretos de partidos e candidaturas com a equidade racial.

A manifestação é dirigida a candidaturas à Presidência da República, aos governos estaduais, ao Senado, à Câmara dos Deputados e às assembleias legislativas. Para as entidades, as diferenças observadas em áreas como saúde, educação, renda, trabalho e moradia precisam ser consideradas na formulação das políticas públicas.

Desigualdade começa antes do nascimento

Os dados reunidos pelo CEDRA mostram diferenças raciais já no acesso e na qualidade do atendimento durante a gestação. Em 2025, 22,3% das gestantes negras tiveram acompanhamento pré-natal classificado como inadequado ou intermediário, ou não realizaram o acompanhamento.

Entre as gestantes brancas, esse percentual foi de 14,8%.

Para as organizações, os números demonstram que as desigualdades não aparecem apenas na vida adulta. Elas podem se manifestar desde os primeiros momentos da vida e se acumular ao longo do tempo, afetando as oportunidades disponíveis para a população negra.

Diferenças também aparecem nas escolas

Na educação, o diagnóstico aponta disparidades nas condições oferecidas aos estudantes. Em 2025, escolas predominantemente frequentadas por estudantes negros tinham 35,5% de docentes com formação adequada à disciplina lecionada nos anos finais do Ensino Fundamental.

Nas escolas predominantemente brancas, o índice era de 62,5%.

O levantamento chama atenção para a necessidade de analisar não apenas os resultados escolares, mas também as condições de ensino, a infraestrutura das unidades e as oportunidades de aprendizagem oferecidas aos estudantes.

A diferença na formação adequada dos docentes é apresentada pelas entidades como parte de um conjunto mais amplo de desigualdades que acompanha a população negra durante a trajetória educacional.

Desigualdade de renda atinge famílias chefiadas por mulheres negras

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O Brasil têm 10 milhões de mães solo – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Os efeitos dessas diferenças também aparecem na renda dos domicílios. Segundo dados do CEDRA, em 2023, a renda média por morador em domicílios formados somente por pessoas negras e chefiados por mulheres negras correspondia a 36,7% da renda dos domicílios sem moradores negros chefiados por homens não negros.

O dado evidencia, segundo o diagnóstico apresentado pelas organizações, a combinação entre desigualdade racial e desigualdade de gênero na distribuição de renda.

A partir desse cenário, CEDRA e Coalizão Negra por Direitos defendem que o enfrentamento das disparidades precisa envolver diferentes áreas da atuação pública. Saúde, educação, trabalho, renda e moradia são apontadas como campos que devem fazer parte das políticas voltadas à redução das desigualdades.

Organizações querem compromissos das candidaturas

O posicionamento lançado para as eleições de 2026 convoca partidos e candidaturas a assumir compromissos com a equidade racial tanto durante a disputa eleitoral quanto posteriormente, na definição das políticas e decisões dos governos e dos representantes eleitos.

Para as entidades, políticas públicas voltadas ao enfrentamento das desigualdades históricas precisam ser mantidas, fortalecidas e ampliadas.

A Coalizão Negra por Direitos reúne mais de 300 organizações, grupos e coletivos do movimento negro brasileiro. A articulação atua em ações de incidência política no Brasil e internacionalmente e mantém diálogo com o Congresso Nacional e instituições como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Já o CEDRA reúne pesquisadores e especialistas de diferentes áreas, como ciência de dados, estatística, economia e ciências sociais, com o objetivo de produzir análises sobre as desigualdades raciais a partir de estatísticas oficiais.

Entre suas iniciativas está uma plataforma aberta de dados raciais destinada a ativistas, organizações do movimento negro, entidades da sociedade civil, jornalistas, pesquisadores, gestores públicos e privados, estudantes e demais interessados.

O documento divulgado pelas duas organizações coloca a equidade racial como uma questão a ser considerada nos projetos apresentados ao eleitorado em 2026.

A partir dos dados reunidos, as entidades defendem que o debate eleitoral incorpore as diferenças verificadas nas condições de saúde, educação e renda e que essas desigualdades sejam enfrentadas por meio de políticas públicas.

Democracia e equidade racial

Para CEDRA e Coalizão Negra por Direitos, o debate sobre democracia está relacionado às condições concretas de vida da população. O diagnóstico apresentado pelas entidades aponta que diferenças persistentes entre pessoas negras e não negras atravessam áreas essenciais e podem se acumular ao longo da vida.

Por isso, a manifestação propõe que a equidade racial esteja presente nas propostas das candidaturas e nas decisões de quem ocupar os espaços de poder após as eleições.

A mensagem central do posicionamento resume a cobrança das organizações: “Com racismo, nenhuma democracia é plena.”

Camila Pitanga entrevista mãe de menina assassinada por policial defendido por Flávio

O terceiro episódio da série de reportagens especiais Revelando apresenta uma entrevista inédita da atriz Camila Pitanga com a mãe de Ana Clara Gomes Machado, menina de 5 anos assassinada com quatro tiros de fuzil na frente de casa, em 2021. Leia em TVT News.

Intitulado “O julgamento que nunca aconteceu”, o episódio foi disponibilizado nesta quarta-feira (30), no YouTube. A reportagem acompanha a história do caso e aborda o fato de que o policial militar apontado como responsável pelo homicídio nunca foi julgado pelo crime.

O cabo da Polícia Militar do Rio de Janeiro Bruno Delaroli foi preso em flagrante após o assassinato, mas acabou solto meses depois. Quando seria levado a júri popular pelo homicídio, passou a ter como advogado de defesa o senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência da República.

Na apresentação do episódio, Camila Pitanga questiona a ideia de que a demora nos julgamentos seria explicada apenas pela lentidão do sistema. “Conhecendo a história inteira, eu finalmente entendi: não é lentidão que paralisa julgamentos. É resultado de trabalho. Tem gente trabalhando, gente com nome e com poder, para que o dia do julgamento não chegue nunca”, afirma a atriz.

Assista ao episódio com Camila Pitanga

Violência policial e processos que não chegam ao fim

A reportagem também apresenta um levantamento sobre chacinas cometidas por policiais no Rio de Janeiro. Entre 2007 e 2022, foram registradas 629 chacinas cometidas por policiais. Segundo o material do episódio, apenas duas resultaram em denúncia.

Entre as 27 maiores chacinas do período, todas com oito mortos ou mais, nenhuma chegou ao fim do julgamento.

O caso de Ana Clara é apresentado dentro desse contexto, relacionando a história da menina e de sua família às dificuldades enfrentadas para que o processo avance até uma decisão judicial.

Série Revelando reúne artistas em reportagens especiais

Revelando é uma iniciativa da equipe do podcast Calma Urgente, com apoio do ICL, Mídia Ninja, 342 Artes e Intercept Brasil. A série é realizada pela produtora Peri.

O segundo episódio, “Grandes Igrejas, Master Negócios”, apresentado pelo ator e roteirista Fábio Porchat, alcançou mais de 13,2 milhões de visualizações no YouTube. O episódio também foi alvo de uma retirada temporária do perfil do programa no Instagram pela Meta, que posteriormente restabeleceu a conta após mobilização.

O perfil do Revelando passou de 64 mil para 1 milhão de seguidores em um dia e, segundo o material de divulgação, soma atualmente 1,5 milhão de inscritos.

A série estreou com uma reportagem sobre eugenia no Brasil e a ideia racista de “branqueamento da população”. O primeiro episódio foi apresentado pela atriz Samara Felippo e ultrapassou 900 mil visualizações no YouTube.

Somados, os dois primeiros episódios da produção já haviam ultrapassado 14 milhões de visualizações na plataforma.

O novo episódio, apresentado por Camila Pitanga, coloca no centro da narrativa a história de Ana Clara Gomes Machado, a mãe da menina e os caminhos que levaram o caso a permanecer sem julgamento.

Luciano Huck foi sócio de Vorcaro, afirma revista Veja

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro mostram uma relação de amizade e negócios entre o ex-dono do Banco Master e o apresentador Luciano Huck. Segundo reportagem da revista Veja, os dois mantiveram contatos frequentes, trataram de negócios, trocaram favores e chegaram a discutir uma sociedade em uma aeronave. Leia em TVT News.

As conversas analisadas pela PF começam em 2023, cerca de dois anos antes da prisão de Vorcaro. Em novembro daquele ano, Huck escreveu ao banqueiro após um encontro: “Bom te encontrar pessoalmente hoje. Nos devemos um papo. Abração”. Vorcaro respondeu chamando o apresentador de “amigo”.

A relação também envolveu negócios relacionados ao Will Bank, instituição controlada pelo grupo de Vorcaro. O banco patrocinou o programa “Domingão com Huck”, da TV Globo. Nas mensagens, o apresentador detalha valores de R$ 83 milhões em mídia para a emissora e R$ 26 milhões em um contrato pessoal.

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Mensagem enviada minutos antes da prisão

Uma das mensagens destacadas nas conversas foi enviada por Huck em 17 de novembro de 2025, pouco antes da prisão de Vorcaro.

Naquele dia, o banqueiro havia anunciado uma suposta venda do Banco Master para investidores dos Emirados Árabes Unidos. Às 21h47, depois de ver a notícia sobre a negociação no Jornal Nacional, Huck escreveu: “Vi a boa notícia da compra do Master agora no JN. Muito bom. Congrats. Você merece sair inteiro desta turbulência toda”.

Cerca de 13 minutos depois, às 22h, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava deixar o país.

As mensagens mostram ainda manifestações de apoio de Huck ao banqueiro durante o período de crise do Master. Em outra conversa, o apresentador escreveu: “E, só pra reforçar, estou com você em qualquer frente”.

Vídeo de Paulo Vieira mencionando Vorcaro em prêmio da Globo volta a circular

No contexto das revelações, voltou a viralizar nas redes um vídeo em que Paulo Vieira participa do prêmio Melhores do Ano, exibido pela TV Globo em 2025.

Durante as piadas com o Master e Vorcaro, Vieira divide palco com Luciano Huck, que fica calado e esboça um sorriso.

Negócios com o Will Bank

As tratativas para o acordo entre o Will Bank e o programa de Huck aparecem nas conversas a partir de 2024. O contrato foi fechado após encontros entre os dois e assinado em dezembro daquele ano.

Segundo os valores registrados nas mensagens, a parceria envolveu R$ 83 milhões destinados à Globo em mídia e R$ 26 milhões para Huck em um contrato pessoal. O apresentador também aparece aconselhando Vorcaro sobre as negociações com a emissora e defendendo transparência nas tratativas, inclusive com a área de compliance.

Em uma das conversas, Huck escreveu sobre o negócio: “Vai dar samba. Vamos fazer muito barulho”.

A relação comercial já havia sido mencionada em reportagem da Veja publicada em março de 2026, que registrou um jantar entre os dois em outubro de 2024, período em que o Banco Master enfrentava dificuldades de liquidez.

Aeronave e troca de favores

As mensagens também tratam de uma possível sociedade em um jato Gulfstream G550. Em fevereiro de 2024, Huck escreveu a Vorcaro dizendo que estava procurando um sócio para a aeronave e perguntou se o banqueiro teria interesse. Vorcaro respondeu: “Vamos conversar”.

Em outros momentos, Huck utilizou aeronaves de Vorcaro para viagens. Uma delas ocorreu durante as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, quando o apresentador viajou para Canoas. Outra foi usada para uma viagem a Varsóvia, na Polônia, onde Huck entrevistou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

Huck teria chegado a propor compensar o uso da aeronave com horas de voo no G550 em que os dois teriam participação.

Após a publicação da reportagem, porém, Huck negou que tenha sido sócio de Vorcaro no avião. Em nota, o apresentador afirmou que “não houve sociedade” e disse que a relação comercial entre os dois esteve concentrada na captação e gestão do patrocínio do Will Bank.

Relação se estendeu durante crise

As conversas registram também encontros pessoais e pedidos de ajuda. Huck auxiliou Vorcaro na obtenção de reservas e atendimento para familiares do banqueiro em Orlando e tentou aproximá-lo de pessoas de seu círculo de contatos.

Os dois também conversaram sobre a tentativa de Ronaldo Nazário de chegar à presidência da CBF. Em uma mensagem, Huck convidou Vorcaro para uma pizza em sua casa com o ex-jogador e afirmou que seria necessário começar a construir a candidatura.

Durante 2025, enquanto aumentavam as dificuldades envolvendo o Banco Master, Huck continuou mantendo contato com Vorcaro. Em uma das mensagens, perguntou como estavam as coisas e se poderia ajudar.

Na manifestação enviada à Veja, Huck afirmou ainda que os contratos de imagem e publicidade com o Will Bank foram encerrados antes da intervenção do Banco Central na instituição. Segundo o apresentador, o acordo comercial tinha contrato formal, emissão de notas fiscais, recolhimento de impostos e prestação dos serviços previstos.