El Niño de 2026 vai afetar o regime de chuvas no Brasil

El Ninõ deve provocar chuvas no Sul e secas e queimadas no Norte e Nordeste, alertam institutos de clima e meteorologia
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Mapeamento indica probabilidade de formação de El Ninõ no segundo semestre./ Fonte: CPTEC/INPE

O El Niño deve provocar chuvas acima da média na região Sul do Brasil e menos precipitação na Amazônia. A previsão é do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em nota técnica lançada neste mês.

As previsões têm sido realizadas pelo Inpe, por meio do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônica (Censipan) e Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). Entenda na TVT News.  

O que causa o El Niño?  

O El Ninõ se refere ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, que é o maior e tem uma grande influência no clima global. É um fenômeno natural sem periodicidade. Em um cenário comum, os ventos alísios, que são os ventos que sopram dos trópicos em relação à linha do Equador, levam o movimento das águas superficiais mais aquecidas para o Pacífico Oeste.  

“Em um ano anormal, de El Niño, as águas aquecem por causa da intensificação dos ventos, que impedem, por exemplo, que as águas frias que estão abaixo, nas camadas mais profundas do oceano, se movam para a superfície”, explica Adriano Antunes, professor de geografia, pesquisador em climatologia pela Universidade de São Paulo (USP). 

Com o oceano aquecido, surge uma maior evaporação, o que resulta numa interferência de fluxo de ventos. O resultado disso é global, e as mudanças na circulação atmosférica têm interferências na temperatura do ar e na quantidade de chuvas.   

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Como se forma o El Niño | Imagem gerada com apoio de IA

A previsão do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos, que é vinculado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA/CPC), é de 82% de chance, de o fenômeno acontecer entre maio e julho deste ano e, 96% entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.   

O pesquisador do INPE, Gilvan Sampaio alerta que, pela configuração do oceano, o El Niño acabou de se configurar e vai evoluir, mas ainda é cedo para dizer que será o mais forte já registrado. “Será um fenômeno de intensidade forte. Em relação às chuvas agora nesse segundo semestre, as atenções devem ser voltadas para a região Sul, sobretudo o Rio Grande do Sul e Santa Catarina”, afirmou.   

A expectativa, é de que o aumento das chuvas na Região Sul aconteça na primavera e no verão. Os números do quanto as chuvas ficarão acima da média devem ser divulgados somente a partir de previsões feitas a cada três meses e nas previsões diárias de tempo.   

Outro impacto esperado, ao longo dos próximos meses, está relacionado à temperatura. Se o El Niño for forte, no primeiro semestre de 2027, pode ocorrer déficit de chuvas em algumas regiões da Amazônia e na região Nordeste. “Porém, nessas regiões, ou seja, norte e leste da Amazônia e norte da região Nordeste, depende também da configuração do oceano Atlântico. Então, ainda é muito cedo para dizer qual vai ser o papel do Atlântico”, alertou Sampaio.  

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Previsão do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (NOAA/CPC), é de 82% de chance do El Niño acontecer entre maio e julho deste ano e, 96% entre dezembro e fevereiro de 2027. Fonte: Cptec   

O pesquisador explica que em dois episódios de El Niño de intensidade forte, em 1997 e 1998, algumas regiões do semiárido nordestino apresentaram um déficit de precipitação da ordem de 80%, ou seja, choveu só 20% do que deveria. O motivo foi um El Niño de forte intensidade e um oceano Atlântico desfavorável para ocorrência de chuvas na região Nordeste. Mas em 2023 e 2024, o Atlântico compensou um pouco o fenômeno. “Então, como eu falei, nós ainda estamos no mês de junho, as chuvas no norte e leste da Amazônia e no norte da região Nordeste, se forem impactadas é somente no ano que vem”, assegurou.

O Supremo Tribunal Federal (STF) cobrou do Governo Federal e dos estados da Amazônia Legal um plano contra incêndios em razão da alta dos incêndios florestais que pode ser causada pelo El Niño. Como resposta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma medida provisória para destinar recursos ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (Icmbio), reforçando as ações de prevenção a incêndios florestais.       

Também se espera durante a primavera condições mais secas em áreas do Sudeste e do Centro Oeste, abrangendo Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e Bahia.   

As análises diagnósticas e prognósticas dos relatórios do Inpe com as outras entidades apontam que o fenômeno deve atingir intensidade ao menos moderada, podendo evoluir para um evento de intensidade forte ou muito forte. O mesmo documento alerta para a necessidade de acompanhar o fenômeno para planejar as respostas diante dos impactos que podem ser causados.    

Risco climático e sanitário  

O Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz destaca que o El Niño precisa ser tratado como um fator de risco climático e sanitário e deve acionar uma agenda preventiva de preparação do SUS (Sistema Único de Saúde), da Defesa Civil e dos serviços de saneamento da assistência social. Para a entidade, é necessária uma revisão de planos de contingência para enchentes, seca, queimadas e arboviroses, além de reforço da vigilância de doenças como dengue, zika, chikungunya, leptospirose e hepatites.  

Renata Gracie, da equipe de coordenação do Observatório de Clima, explica que é preciso pensar o impacto em cada região, nas especificidades de cada território do país. “Por exemplo, uma aldeia indígena, muitas vezes, fica isolada. Um território quilombola também fica isolado, sem acesso a medicamentos, sem acesso ao serviço de saúde, o enfermeiro não consegue chegar, o médico não consegue chegar, ou, as pessoas que estão doentes não conseguem sair”. 

Além disso, a Defesa Civil deve se atentar para mapear as áreas de risco e para onde as pessoas serão transferidas em casos de desastres. “É importante também manter a atenção nos abrigos, porque, às vezes você coloca várias pessoas num lugar só lugar e você também tem a questão [de doenças] respiratórias”, alerta Gracie. 

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Observatório do Clima e Saúde da Fiocruz destca que cada evento ou condição demanda um tipo de serviço a ser acionado. / Arte TVT.
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Arboviroses como dengue e zika demandam vigilância epidemiológica e atenção primária. / Relatório Observatório de Clima e Saúde./Arte TVT/

Até um plano para a saúde mental da população precisa ser definido, pois o acesso aos medicamentos pode ficar comprometido. “Às vezes, a unidade, está funcionando, mas as pessoas não estão conseguindo chegar. Em um período de inundação, a mobilidade urbana fica muito limitada. Os suicídio, muitas vezes, acontecem tempos depois”, chama a atenção.   

O mesmo documento alerta que aumento de chuvas na Região Sul pode causar tempestades, enxurradas, inundações e deslizamentos. Já a redução das chuvas no Nordeste intensificam as queimadas e podem piorar a qualidade do ar. 

O relatório do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz traz um diagnóstico da situação de saúde para apoiar as decisões dos gestores e para dar suporte para a sociedade civil cobrar os governantes nos territórios.    

Aquecimento global  

De acordo com o pesquisador Adriano Antunes, a grande preocupação hoje é que o El Niño se dá associado a mudança climática. “A previsão para novembro e dezembro, é que ele passe de moderado a forte ou superforte. Seria um aquecimento natural das águas do Pacífico, associado a uma mudança climática”, explicou.  

Ele enfatiza a necessidade de se preocupar com a questão da agricultura. “Na região Sul, um El Niño traria chuvas, prejuízos para o agricultor. Se eu pensar, no Norte e no Nordeste, um período de estiagem mais longo. Então nós podemos ter problema de fornecimento de água. A agricultura, ela vai sofrer mais ainda”, afirmou.  

Outro problema seria a questão das grandes ondas de calor no Sudeste e Centro-Oeste brasileiro. “É o nosso celeiro agrícola. Então, ele precisa realmente se adaptar para que o prejuízo em relação à dinâmica climática não seja tão intenso, já que ele vai acontecer. Se esses dados se confirmarem, o produtor, ele vai ter que atrasar ou adiantar a safra”, disse.  

Os pesquisadores alertam que é preciso ter cuidado com o catastrofismo. “Infelizmente, existem muitas fake news, ‘o maior El Niño dos últimos 100 anos, o maior Elninho da história do planeta’. Não há elementos hoje para afirmar categoricamente isso”, considerou Sampaio.   

Mas uma coisa é certa, o El Niño deve trazer efeitos futuros. Antunes, que pesquisou o fenômeno no doutorado explica que a natureza tenta corrigir o fenômeno. “Como é que ela vai corrigir isso? Com um La Ninã, que seria o resfriamento anormal [das águas]. Aí, seria necessário verificar a intensidade do La Ninã, porque ele também traz consequências globais e as mitigações seriam diferentes”, pontuou. 

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