O Pix, ferramenta central de transações financeiras e soberania digital no Brasil, passou a enfrentar uma severa ofensiva do governo dos Estados Unidos. Donald Trump incluiu o sistema de pagamentos brasileiro em uma lista de justificativas para propor uma nova tarifa de 25% sobre produtos exportados pelo Brasil. Entenda com a TVT News como se deu essa disputa em torno do Pix.
A medida norte-americana, estruturada a partir de uma investigação iniciada em julho de 2025 pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR), acusa o Banco Central do Brasil (BC) de cometer “práticas desleais” que prejudicam companhias privadas dos EUA, isto é, o Pix.
Sob a ótica da geopolítica e dos direitos dos povos de gerirem suas próprias estruturas digitais, o cerco da Casa Branca é visto por especialistas como uma tentativa de barrar o avanço de uma infraestrutura pública eficiente e de assegurar a hegemonia de multinacionais atreladas ao dólar.
Em março, em discurso na conferência conservadora norte-americana CPAC, o senador Flávio Bolsonaro chegou a pedir que Washington exercesse “pressão diplomática” sobre o arranjo institucional brasileiro.
Já em 2025, Eduardo Bolsonaro postou agradecimento a Trump após tarifaço dos EUA contra o Brasil. Agora, após a visita dele e do irmão, Flávio Bolsonaro, a Casa Branca, o presidente norte-americano anuncia novamente uma série de medidas que ameaçam a soberania do Brasil, como a decisão de igualar o PCC e o CV a organizações terroristas e agora o novo tarifaço.
“Obrigado, presidente Donald J. Trump. Espero que as autoridades brasileiras agora tratem esses assuntos com a seriedade que merecem. O Brasil não pode — e não vai — se tornar outra Venezuela, Cuba ou Nicarágua. Deus abençoe os Estados Unidos, Deus abençoe o Brasil“, escreveu Eduardo.
Na ocasião, o tarifaço de Trump ocorreu em meio a críticas ao julgamento de Jair Bolsonaro no STF, o que o presidente norte-americano entendeu ser “uma vergonha internacional” e que Bolsonaro seria alvo de perseguição política.
O STF, que frequentemente é alvo de bolsonaristas, também foi mencionado agora por Trump como uma das justificativas para a atual taxa de 25% sobre produtos brasileiros.
O relatório final das autoridades norte-americanas apresentado como justificativa para o tarifaço de junho de 2026 cita a atuação do STF, como a anulação de sentenças e processos da Operação Lava Jato, em 2023.

Entenda a guerra ao Pix
O argumento central do Escritório de Comércio norte-americano baseia-se na alegação de que o arranjo institucional do Pix limita a livre concorrência no mercado financeiro nacional.
Segundo os documentos divulgados pelo órgão dos EUA, “o duplo papel do Banco Central do Brasil como regulador e proprietário/operador do Pix cria um conflito de interesses, na ausência de salvaguardas procedimentais adequadas“.
A acusação formalizada por Washington assevera que o BC brasileiro agiu para “prejudicar prestadores de serviços de pagamentos eletrônicos dos EUA e favorecer o Pix“.
A Casa Branca contesta especificamente as regras de democratização do acesso à ferramenta adotadas pelo Banco Central.
O governo dos EUA critica o fato de a autoridade monetária brasileira obrigar as instituições financeiras com mais de 500 mil contas ativas a disponibilizarem o Pix, além de exigir que o mecanismo seja exibido na tela principal dos aplicativos de forma destacada, com visibilidade não inferior à de qualquer outra modalidade de transferência.
A gratuidade obrigatória para pessoas físicas e as travas que reduzem as tarifas cobradas de pessoas jurídicas pelas transações também foram classificadas como abusivas por Washington. De acordo com os negociadores norte-americanos, “os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix são injustos e discriminatórios.
É injusto exigir que concorrentes concedam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites de tarifas, e o Brasil discrimina fornecedores de serviços de pagamentos eletrônicos dos EUA ao conceder essas vantagens apenas ao campeão nacional brasileiro”.
O que dizem operadoras de cartões e especialistas brasileiros
Por trás do discurso técnico sobre concorrência de mercado, economistas apontam que a ofensiva norte-americana visa resguardar as receitas de gigantes financeiras globais.
Como o Pix possui custo zero para os cidadãos e valores marginais para comércios, ele passou a disputar diretamente o mercado de pagamentos com as grandes bandeiras de cartão de crédito americanas, como Visa, Mastercard e American Express (Amex).
O professor de economia da ESPM, Jorge Ferreira dos Santos Filho, esclareceu ao G1 que a ferramenta estatal afeta substancialmente a lucratividade dessas corporações e de empresas de alta tecnologia no país. Conforme aponta o especialista:
“O sistema também compete com fintechs americanas. Enquanto nos EUA a regulação permite a cobrança por transferências instantâneas, no Brasil essas empresas são obrigadas a integrar o Pix para operar.”
O professor complementa sinalizando que o modelo brasileiro força as empresas a alterarem suas práticas de captação de receitas, atingindo inclusive grandes corporações que operam carteiras digitais, como o Google.
O diretor-executivo e fundador do RegLab, Pedro Henrique Ramos, salienta que essa pressão surge a partir do momento em que um órgão público desenvolve uma operação de amplo sucesso.
Ramos destaca que “de uma forma ou de outra, o Pix se tornou um modelo de inovação estatal eficiente, que pode ser replicado por outros países, o que representa uma possível ameaça ao domínio de empresas americanas no mercado global de meios de pagamento”.

O analista lembra que os EUA possuem um histórico de confrontar infraestruturas domésticas semelhantes em nações em desenvolvimento, rememorando contestações impostas à Indonésia, à Índia e à China. Na Indonésia, por exemplo, o governo americano impôs tarifas de 32% sobre produtos importados utilizando justificativas idênticas sobre “práticas comerciais injustas” direcionadas contra Visa e Mastercard.
Embora o sucesso do Pix assuste o mercado corporativo dos EUA, o presidente da PagBrasil, Ralf Germer, pondera que a tecnologia impulsiona uma disputa comercial justa no setor e que não há base técnica sólida para os questionamentos de Washington.
Germer pontua que “o Pix não foi criado para concorrer ou substituir outros meios de pagamento, como o cartão de crédito. Desde o lançamento do sistema, as demais formas de pagamento, especialmente os cartões, continuaram crescendo”. Ele reforça que houve período hábil para que os competidores privados aprimorassem seus próprios serviços para rivalizar com a agilidade e os custos da malha pública nacional.
Pix Internacional como ameaça à hegemonia do dólar
Um dos fatores de maior atrito geopolítico na queixa norte-americana envolve o plano de expansão do Pix além das fronteiras nacionais. O Banco Central mantém os trabalhos de desenvolvimento do Pix Internacional, formato que já opera de maneira restrita em localidades específicas dos próprios Estados Unidos (como Miami e Orlando), na Argentina e em Portugal. A intenção de longo prazo da autoridade monetária é estruturar pagamentos transfronteiriços contínuos interligando sistemas internacionais de transferências em tempo real.
A ampliação da abrangência do sistema ocorre em paralelo com as articulações promovidas pelo bloco do Brics, composto por Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Irã e Arábia Saudita, voltadas à formulação de alternativas comerciais que diminuam a dependência global em relação ao dólar americano.
Diante desse cenário, analistas apontam que a possibilidade de interligação de ferramentas semelhantes ao Pix para pagamentos mútuos entre as nações emergentes acendeu o alerta em Washington por ameaçar o monopólio cambial norte-americano.
O Pix Internacional representa um concorrente para o SWIFT. O SWIFT funciona como a rede internacional de mensagens e liquidações financeiras que, costumeiramente, é utilizada pelos Estados Unidos e pela União Europeia como canal para monitorar e impor sanções econômicas globais a países soberanos.
A vulnerabilidade decorrente da falta de infraestruturas financeiras próprias ficou evidente em discussões institucionais.
Caso o Brasil dependesse exclusivamente de uma plataforma estrangeira regulada por leis externas, como a Lei Magnitsky norte-americana, uma decisão unilateral emitida em Washington seria suficiente para paralisar as transações internas do país, gerando instabilidade na subsistência das famílias e no funcionamento de pequenos estabelecimentos.
Pressão contra o STF, interesses das big techs e o papel da oposição


A investida comercial contra o Brasil não se encerra nas finanças e engloba o descontentamento de corporações de tecnologia de dados (big techs) em relação às balizas de direitos e soberania jurídica impostas pelo Judiciário nacional.
A representação do USTR incorporou nas reclamações oficiais as queixas de empresas americanas como Google e Meta (proprietária do WhatsApp, Instagram e Facebook) quanto ao cumprimento de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) relativas ao combate a discursos de ódio, fake news e à obrigatoriedade de moderação de conteúdos ilícitos.
Embora não exista um elo direto entre regulação de internet e meios de pagamento, os embates com as big techs encorpam as justificativas americanas de retaliação para pressionar a Suprema Corte brasileira. O atrito, assim, não abrange apenas interesses comerciais, como também discursos políticos dessas empresas digitais.

