O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro estiveram na Flórida durante o feriado prolongado de 1º de maio de 2025, poucos dias depois de uma nova transferência milionária relacionada ao financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Leia em TVT News.
A informação foi publicada pela revista piauí, que cruzou registros migratórios dos Estados Unidos com dados de rastreamento de aeronaves.
Os dois chegaram ao aeroporto de Fort Lauderdale em 1º de maio, em aviões particulares diferentes e com menos de 20 minutos de diferença. Flávio estava acompanhado da esposa, Fernanda, e do advogado Willer Tomaz. O grupo viajou em um Bombardier Global 6000, enquanto Vorcaro chegou em um Dassault Falcon 7X.
Não há comprovação, segundo a reportagem, de que Flávio Bolsonaro e Vorcaro tenham se encontrado durante a permanência na Flórida. A defesa de Tomaz afirmou à piauí que é “mentira” que o senador tenha se encontrado com o banqueiro nos Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro não respondeu aos questionamentos da revista sobre o motivo da viagem ou sobre quem custeou o deslocamento.
Viagem ocorreu após novos repasses para Dark Horse
Seis dias antes da chegada de Flávio e Vorcaro à Flórida, em 25 de abril, a Entre Investimentos, empresa ligada ao ecossistema do Banco Master, transferiu US$ 3.333.334 ao fundo Havengate, sediado no Texas. O fundo concentrava recursos destinados ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro.
Os valores correspondiam à quarta e à quinta parcelas de um compromisso de US$ 24 milhões assumido por Vorcaro. Com os repasses de abril, o total desembolsado até aquele momento havia chegado a US$ 9 milhões.
A revista também teve acesso a mensagens extraídas do celular de Vorcaro que indicam cobranças relacionadas às parcelas do filme. Em 22 de abril, o publicitário Thiago Miranda perguntou ao banqueiro sobre a liberação dos recursos. Três dias depois, informou que a parcela havia sido depositada.
Na sequência, Vorcaro viajou para os Estados Unidos. Ele já havia estado no país poucos dias antes, entre 25 e 27 de abril, quando passou por Miami. Durante essa primeira viagem, segundo informações citadas pela piauí, o banqueiro participou por videoconferência de negociações envolvendo ativos classificados como a “parte podre” do Banco Master.
Flávio e Vorcaro retornaram em horários próximos
A coincidência de datas também ocorreu no retorno ao Brasil. O avião utilizado por Flávio Bolsonaro deixou Fort Lauderdale na noite de 4 de maio. O jato de Vorcaro partiu do mesmo aeroporto 2 horas e 47 minutos depois, já na madrugada de 5 de maio.
A reportagem ressalta que não há evidências de encontro entre os dois durante a permanência nos Estados Unidos. As conversas de WhatsApp entre Vorcaro e sua então noiva, Martha Graeff, durante a viagem tratavam principalmente de compromissos pessoais.
Vorcaro esteve com Martha em um evento realizado durante o fim de semana do Grande Prêmio de Fórmula 1 de Miami. O casal participou do Carbone Beach, que reúne jantar e apresentações musicais. Flávio Bolsonaro, Fernanda e Willer Tomaz não participaram do evento, segundo a piauí.
A viagem do senador também coincidiu com seu aniversário de 44 anos, em 30 de abril, e com a realização do Grande Prêmio de Miami, entre 2 e 4 de maio.
Na segunda-feira, já de volta a Brasília, Flávio se reuniu com Ricardo Pita, integrante do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Segundo o senador, a conversa tratou do combate ao crime organizado.
Viagens aos EUA e relação com o financiamento do filme
A reportagem aponta ainda outras coincidências entre viagens de Flávio e Vorcaro. Em maio de 2025, poucos dias depois do feriado, o banqueiro esteve nos Estados Unidos entre 16 e 18 de maio. Flávio permaneceu no país entre 15 e 18 de maio, viajando por Dallas.
A cidade chama atenção porque abriga o escritório do advogado Paulo Calixto, próximo de Eduardo Bolsonaro e administrador do fundo Havengate. A piauí, porém, afirma não haver informação sobre eventual encontro entre Flávio e Calixto durante aquela viagem.
Segundo levantamento da revista baseado em registros migratórios e documentos aeronáuticos, Flávio Bolsonaro realizou dez viagens aos Estados Unidos entre dezembro de 2024 e julho de 2026. Duas delas, em janeiro e maio de 2025, foram feitas em jatos particulares.
O período coincide com a evolução das negociações relacionadas a Dark Horse. De acordo com a reportagem, Flávio e Vorcaro fecharam pessoalmente o acordo de financiamento do filme em dezembro de 2024.
Em setembro de 2025, Vorcaro teria transferido mais US$ 1,6 milhão para o Havengate. Mensagens obtidas pela revista indicariam ainda outro repasse de mesmo valor no mês seguinte.
A piauí também identificou novas viagens de Flávio aos Estados Unidos entre fevereiro e julho de 2026, principalmente para Miami e Washington. O senador não respondeu às perguntas da revista sobre os motivos dessas viagens.
Eduardo Bolsonaro também esteve na Flórida
O deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025, também estava na Flórida no período próximo ao feriado de maio.
Dois dias antes da chegada de Flávio e Vorcaro a Fort Lauderdale, Eduardo publicou uma fotografia ao lado de Francis Suarez, então prefeito de Miami. Na mesma semana, de acordo com informações citadas pela piauí, ele também esteve em Washington.
Meses antes, em março de 2025, Thiago Miranda havia informado Vorcaro de que os irmãos Bolsonaro pretendiam marcar uma reunião para tratar de Dark Horse. Três dias depois, Miranda encaminhou ao banqueiro uma mensagem atribuída a Eduardo com orientações sobre como acelerar transferências de recursos para os Estados Unidos.
Eduardo Bolsonaro não respondeu aos questionamentos da piauí até o fechamento da reportagem.
Relação já havia aparecido em outra viagem
A viagem de maio de 2025 não foi a primeira ocasião em que Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz viajaram juntos. Em janeiro daquele ano, os dois retornaram da Flórida em um Legacy 650.
A aeronave pertencia a uma sociedade com três cotistas, entre eles Tomaz e a Prime You, empresa que tinha Vorcaro entre os sócios. À piauí, o advogado afirmou ter pago integralmente aquele voo utilizando as horas de voo a que tinha direito como cotista e negou envolvimento com o banqueiro.
A nova reportagem da revista não afirma que Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro tenham se encontrado durante as viagens coincidentes. O principal elemento apresentado é a proximidade temporal entre os deslocamentos, os repasses destinados ao financiamento de Dark Horse e os registros de entrada e saída dos Estados Unidos.
Até a publicação da reportagem da piauí, Flávio Bolsonaro não havia esclarecido o motivo das viagens nem quem pagou os deslocamentos realizados em jatos particulares. A defesa de Daniel Vorcaro também não se manifestou.