Por Talita Galli*
Guizhou, China — Muita gente tem medo de perder o emprego para a inteligência artificial. Mas, na província de Guizhou, na China, uma das maiores redes de comunicação da região está tentando mostrar que o futuro do trabalho ainda pode — e deve — depender das pessoas. Leia em TVT News.
A estrutura impressiona logo de cara. A Guizhou Radio and TV Station conta com um exército de 13 mil funcionários, cuida 10 canais de televisão e 5 estações de rádio e alcança um público de 1,2 bilhão de pessoas em todo o país. São milhares de horas de programação no ar e uma marca incrível: estão há 4 anos seguidos sem cometer nenhum erro de transmissão – conquista alcançada com a ajuda da inteligência artificial.
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Mesmo usando IA para caçar falhas técnicas e traduzir o jornal em poucos minutos, os diretores da emissora afirmam que os robôs não vão roubar o lugar de ninguém. No entanto, há um detalhe crucial nessa história: a engrenagem funciona ali porque estamos falando de um modelo estatal e em um governo chinês.
O peso do modelo público

Diferentemente do que acontece em redes privadas pelo mundo — que operam sob a lógica do lucro máximo e do corte de custos —, a emissora de Guizhou responde às diretrizes do modelo público da República Popular da China. De acordo com os diretores da emissora, manter as pessoas empregadas e garantir a estabilidade social é uma meta tão relevante quanto a eficiência técnica.
Por isso, embora a automação tenha reduzido a necessidade de grandes equipes nas salas de controle, a emissora optou por não demitir os funcionários antigos. Em vez disso, a empresa investe em capacitação para que a equipe aprenda a dominar e a trabalhar em conjunto com as novas ferramentas digitais.
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E como sustentar 13 mil funcionários em uma época em que novas mídias têm reduzido o público da TV tradicional?
A resposta está no investimento do Estado combinado com novas formas de financiamento criadas pela própria emissora. O detalhe é que o financiamento estatal cobre apenas os custos de manutenção do satélite. Para arcar com o restante e fechar as contas, a emissora diversificou suas receitas. O dinheiro vem de comerciais tradicionais, da organização de eventos corporativos e oficiais dentro e fora da província, de um canal próprio de televendas e até do e-commerce integrado nos seus próprios aplicativos móveis.
Jornalismo e Inteligência Artificial

Para garantir que a tecnologia sirva ao público sem prejudicar a credibilidade das notícias, a emissora adotou barreiras bem rígidas: a inteligência artificial nunca é usada no noticiário factual ou na cobertura política. O jornalismo do dia a dia permanece feito 100% por profissionais humanos.
Além disso, qualquer conteúdo gerado por computador que vá ao ar recebe, obrigatoriamente, uma marca d’água visível. Esse selo avisa claramente o telespectador de que aquela imagem passou por uma IA, protegendo o público contra fakes.
Em uma conversa com os diretores da TV e do jornal Guizhou Daily, eles deixaram claro que essa linha vermelha existe porque a máquina não tem o compromisso humano com a verdade, nem a criatividade ou o sentimento.
“A inteligência artificial ajuda a editar mais rápido, mas não consegue emocionar o público e nem checar os fatos com responsabilidade”, explicou um dos diretores da emissora. “O jornalismo de verdade precisa de pessoas indo para a rua, conversando com gente real e contando histórias com o coração.”
A lógica defendida por eles é de que a tecnologia muda as profissões, mas quem aprende a comandar o sistema garante o seu espaço.
Ainda assim, a lição que fica de Guizhou deixa um questionamento no ar: esse casamento amigável entre tecnologia, ética e preservação de empregos só é possível dentro do modelo de governo da República Popular da China, ou o mercado privado tradicional também vai entender que a confiança do público e o fator humano valem mais do que o lucro imediato?
*Talita Galli está na China a convite do Comitê Internacional do Partido Comunista da China

