Jean Wyllys aceita convite do PT e mira a Câmara em 2026

Ex-deputado diz que país mudou desde 2019, critica patrimonialismo no parlamento e aposta em movimento por “outro Congresso possível” para enfrentar extrema direita e proteger a democracia
jean-wyllys-aceita-convite-do-pt-e-mira-a-camara-em-2026-jean-denuncia-velho-patrimonialismo-e-oligarquias-politicas-no-congresso-foto-reproducao-tvt-news
Jean denuncia “velho patrimonialismo” e oligarquias políticas no Congresso. Foto: Reprodução

Sete anos após deixar o mandato e o país em meio a ameaças, o jornalista, escritor e ex-deputado federal Jean Wyllys anuncia o retorno à disputa eleitoral. Pré-candidato a deputado federal pelo PT em São Paulo nas eleições de 2026, ele afirma que o Brasil vive um novo momento, embora ainda sob risco, e que a prioridade agora é renovar o Congresso Nacional para enfrentar o poder das bigtechs, a desinformação e o avanço da extrema direita. Leia em TVT News.

Em entrevista ao Jornal TVT News Primeira Edição, Jean avaliou que o governo federal e o Parlamento ainda não têm diagnóstico claro sobre os impactos das plataformas digitais e da inteligência artificial na vida social, econômica e política do país. Para ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu um passo importante ao defender a regulação das grandes empresas de tecnologia, mas a prática ainda está aquém do discurso.

“O governo demorou muito para encarar essa questão. Nem sequer temos um diagnóstico claro dos impactos das bigtechs. O Congresso, então, menos ainda”, afirmou. Segundo ele, o Parlamento brasileiro está majoritariamente voltado a interesses próprios, marcado por “velho patrimonialismo” e por oligarquias políticas que resistem a debater os rumos do futuro.

Jean compara o vício em redes sociais ao enfrentamento histórico da indústria do tabaco. “O novo tabagismo é o vício em mídias sociais. Elas produzem dependência, ansiedade, depressão e também organizam seitas políticas masculinistas que resultam em violência e feminicídio”, disse. Para ele, as plataformas operam por algoritmos desenhados para maximizar engajamento, favorecendo conteúdos que estimulam medo, ódio e ressentimento.

Ao mesmo tempo, reconhece a ambivalência tecnológica. Citando a ideia de que “a culpa do crime nunca é da faca”, lembrou que as redes também ampliaram vozes historicamente silenciadas, como mulheres, população negra e comunidade LGBT. “Não se trata de eliminar as mídias sociais, mas de regulamentá-las. Hoje elas estão praticamente sem controle”, defendeu.

O ex-deputado destacou ainda que as vítimas preferenciais da desinformação são migrantes, mulheres, pobres e minorias. Em sua análise, campanhas organizadas de fake news partem “de cima para baixo”, afetando principalmente grupos historicamente vulneráveis. Ele mencionou o impacto da circulação de conteúdos violentos, inclusive gerados por inteligência artificial, que naturalizam abusos e crimes.

“Outro congresso é possível”, diz Jean Wyllys

A volta de Jean à política institucional se dá por meio do movimento “Um Outro Congresso é Possível”, que reúne artistas, intelectuais, empresários e ativistas. O objetivo é renovar o Legislativo com candidaturas comprometidas com direitos trabalhistas, regulação das plataformas digitais, enfrentamento da uberização e defesa das pautas ambientais e antirracistas.

“Não basta eleger Lula. É preciso renovar o Congresso. O presidente tem o cofre, mas a chave está no Parlamento”, afirmou, ao criticar o presidencialismo de coalizão e a capacidade de chantagem de setores conservadores. Para Jean, sem uma base legislativa comprometida com direitos sociais e democracia, o governo fica refém de interesses fisiológicos.

Ele reconhece que a estratégia eleitoral envolve também a necessidade de “puxadores de voto”, mas ressalta que o movimento não busca apenas nomes com potencial eleitoral. “Queremos pessoas com compromisso com uma agenda do século XXI: enfrentamento das bigtechs, defesa dos trabalhadores em tempos de automação, proteção dos povos indígenas e combate ao fascismo.”

Jean avalia que, desde o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, o país avançou pouco no enfrentamento do neofascismo. Considera a eleição de Lula em 2022 e a responsabilização de envolvidos nos ataques de 8 de janeiro como vitórias importantes, mas insuficientes.

Ele recordou que já em 2013 alertava para o risco representado por Jair Bolsonaro, então deputado. “Qualquer leitura de conjuntura mostrava que havia ali um projeto autoritário em gestação. Não fomos ouvidos”, disse.

Para o ex-parlamentar, mulheres e minorias têm sido decisivas na defesa da democracia em diversos países, inclusive no Brasil. “São esses segmentos que estão garantindo a democracia. A política tradicional, feita majoritariamente por homens, precisa reconhecer isso.”

O que mudou

Questionado sobre o que mudou desde 2019 para que sua volta fosse possível, Jean aponta dois fatores centrais: o enfraquecimento institucional da extrema direita após a derrota eleitoral de 2022 e a necessidade de ocupar novamente os espaços democráticos. Ele deixou o país no início de 2019 após receber ameaças de morte, afirmando à época que não havia garantias de segurança para exercer o mandato.

Hoje, embora reconheça que o cenário ainda é delicado, acredita que há espaço político para reorganizar forças progressistas e disputar o Parlamento. “O golpe foi derrotado há pouco tempo. A democracia segue ameaçada. Não podemos ser ingênuos”, alertou.

A pré-candidatura ainda depende de formalização interna no PT, mas já movimenta aliados e adversários. Para Jean Wyllys, a eleição de 2026 não será apenas uma disputa presidencial: será, sobretudo, uma batalha pelo controle do Congresso e pelos rumos da democracia brasileira.

Assuntos Relacionados