Lula na 68ª Cúpula do Mercosul: nenhum país terá mais liberdade com acordos excludentes

Acordo prevê entrar nos países do Mercosul com Carteira Nacional de Identificação
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Sessão Plenária da 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, Países Associados e Convidados Especiais. Foto: Ricardo Stuckert / PR

De Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil – O presidente Lula participa nesta terça-feira (30) da 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, em Assunção, no Paraguai.

O encontro reúne líderes de países-membros e associados do bloco com o objetivo de discutir medidas para aprofundar a integração regional e fortalecer o comércio, a agenda social e o desenvolvimento.

No centro de seu discurso, o Presidente Lula enfatizou que “ninguém é dono da América do Sul” e rejeitou alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes, posicionando o Mercosul como uma blindagem soberana contra o cenário global de fragmentação econômica e protecionismo.

Ao destacar que a integração regional deve transcender barreiras ideológicas, o líder brasileiro focou no fortalecimento pragmático através de conquistas concretas, como o combate unificado ao crime organizado transnacional e a exploração conjunta de minerais críticos para conter as ameaças do colonialismo digital.

Na Cúpula do Mercosul, Lula defende integração acima de ideologias e propõe o PIX como modelo para o bloco

Na Cúpula do Mercosul, Lula anuncia negociações com Japão e pacto regional contra violência. Confira os principais trechos do discurso

  • Lançamento de Negociações com o Japão: foi anunciado o lançamento oficial das negociações para um Acordo de Parceria Econômica (EPA) entre o Mercosul e o Japão, formalizando o interesse declarado por Lula e pela primeira-ministra japonesa.
  • Fortalecimento da Integração Regional: Lula defendeu o aprofundamento da integração como ferramenta fundamental para ampliar a soberania e o desenvolvimento dos países, especialmente em um cenário de instabilidade global e protecionismo.
  • Combate ao Crime Organizado e violência contra as mulheres: O Brasil apresentou uma proposta de pacto regional para combater o feminicídio e a violência contra as mulheres, somando-se à Estratégia Mercosul contra o Crime Organizado Transnacional.
  • Avanços na Cidadania e Identificação: Foi assinado um acordo para o reconhecimento da nova Carteira de Identidade Nacional (CIN) como documento válido para entrada nos países do bloco, além de um protocolo de reconhecimento mútuo de meios de identificação eletrônica.
  • Contribuição Financeira do Brasil: Foi anunciado o aumento da contribuição brasileira ao Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), visando reduzir desigualdades e financiar projetos de infraestrutura e sociais
  • Inovação Financeira: Propôs o uso da arquitetura do PIX brasileiro como base para uma infraestrutura integrada de pagamentos no Mercosul, fortalecendo o comércio em moedas locais.
  • Defesa da Democracia: Condenou as redes de desinformação e tentativas golpistas na região, defendendo que o projeto de integração sul-americano deve estar acima de ideologias.

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Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Fotografia oficial, no Hall de entrada do Centro de Convenções da Conmebol. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Leia, na íntegra, o discurso do presidente Lula na Cúpula do Mercosul

Gostaria de reiterar minha solidariedade ao povo e ao governo da Venezuela diante das perdas humanas e materiais incalculáveis causada pelos terremotos da semana passada.

Tragédias como essa convidam a uma reflexão sobre a importância da solidariedade e da cooperação regionais.

Esse mesmo espírito de fraternidade e visão de futuro compartilhado têm orientado o MERCOSUL ao longo de sua história.

Há 35 anos, aqui na querida Assunção, demos um passo histórico ao fundar nossa União Aduaneira.

Hoje, nos confrontamos com uma região e um mundo profundamente transformados.

As rivalidades geopolíticas crescem e o unilateralismo ganha força.

Guerras e conflitos aprofundam a instabilidade global e elevam os preços dos alimentos e da energia.

O protecionismo ressurge como resposta falaciosa à complexidade dos desequilíbrios macroeconômicos globais.

A fragmentação da economia mundial impõe severos desafios ao comércio, aos investimentos e ao desenvolvimento sustentável.

Na atual conjuntura, o MERCOSUL é uma necessidade estratégica.

Desde sua criação, o comércio entre nós passou de 4,5 bilhões de dólares, em 1991, para mais de 50 bilhões em 2025.

No ano passado, nosso intercâmbio com o resto do mundo cresceu mais de 6% em relação a 2024, e alcançou quase 760 bilhões de dólares, com exportações superiores a 400 bilhões.

Voltamos a olhar para o mundo com ambição.

Contrariamos as expectativas de quem acreditava que o Acordo com a União Europeia jamais sairia do papel.

O Brasil também já ratificou o acordo com a EFTA e com Singapura.

O MERCOSUL está avançando nos diálogos com Canadá, Índia e Vietnã.

Nesta Cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma Parceria Econômica com o Japão.

Em breve, queremos fazer o mesmo com a China, e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta.

No entanto, não basta estar integrado às grandes cadeias de valor mundiais.

O MERCOSUL precisa fazer diferença na vida das pessoas.

Desde sua criação, o FOCEM já financiou:
– mais de mil quilômetros de rodovias;
– 680 km de ferrovias;
– 750 km de linhas de transmissão elétrica;
– 100 km de redes de saneamento básico.

Estamos prontos para lançar o FOCEM-II e aumentar a contribuição brasileira, com aporte de 100 milhões de dólares anuais ao longo de uma década.

Incorporar a Bolívia ao Fundo será um passo adicional para reduzir as assimetrias intrabloco.

O Brasil seguirá avançando na implementação do programa Rotas da Integração Sul-Americana para conectar o interior de nosso continente a portos no Pacífico, no Atlântico e no Caribe.

A Hidrovia Paraguai–Paraná constitui outro pilar de nossa integração, transportando anualmente quase 100 mil toneladas de carga.

O fortalecimento de sua governança, alicerçada na liberdade de navegação, na cooperação e no diálogo entre os países da Bacia do Prata, permitirá explorar plenamente seu potencial logístico.

Não podemos subestimar o valor dessas conquistas.

Nem sempre avançamos na velocidade que desejamos.

Mas o MERCOSUL permanece como o principal espaço institucional em uma região cada vez mais polarizada.

O projeto de integração sul-americano deve estar acima de ideologias.

A melhor opção é fortalecer nossos mecanismos de diálogo e cooperação e ampliar nossa capacidade de atuação conjunta.

A crise climática, a transição energética, a transformação digital, o enfrentamento ao crime organizado transnacional e a promoção da saúde exigem uma capacidade de coordenação regional sem precedentes.

Defender biomas como a Amazônia, o Chaco e a Patagônia é proteger nossa soberania, nosso desenvolvimento sustentável e, acima de tudo, a vida.

A Organização Meteorológica Mundial já alerta sobre a necessidade de preparação para um El Niño que agravará secas, provocará chuvas intensas e aumentará o risco de ondas de calor.

Nossos países sofreram as consequências nefastas desse fenômeno em 2023.

As enchentes no Sul do Brasil afetaram mais de 2,4 milhões de pessoas e causaram mais de 200 mortes.

Eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes demandam maior coordenação regional em matéria de sistemas de alerta precoce e de gestão de desastres.

O MERCOSUL pode ser o embrião de um mecanismo sul-americano de enfrentamento a desastres naturais e de financiamento a medidas de adaptação climática.

Faço essa sugestão ao Uruguai, que assumirá a presidência do MERCOSUL a partir de hoje.

Nosso bloco está na vanguarda da transição energética global.

Somos detentores de uma matriz elétrica limpa, e a geração eólica e solar cresce exponencialmente.

Com até três safras por ano, produzimos biocombustíveis sem comprometer o cultivo de alimentos ou derrubar florestas.

Reunimos condições únicas para o desenvolvimento de combustível sustentável de aviação e de hidrogênio verde.

Avançar na integração elétrica e gasífera é essencial para garantir complementariedade entre diferentes fontes e aprimorar nossa resiliência energética.

Possuímos reservas abundantes de minerais críticos, ativos indispensáveis para a descarbonização e a revolução digital.

Desenvolver cadeias regionais que incluam etapas de maior valor agregado é uma questão de segurança nacional e soberania.

Ainda não dispomos de mapeamento comum do nosso potencial e de diagnóstico sobre projetos estratégicos que podem ser desenvolvidos conjuntamente.

O Mapa do Caminho para Plano de Minerais Críticos do MERCOSUL, apresentado pelo Paraguai, é um ponto de partida para reforçar a autonomia estratégica de nossos países.

Agir como bloco nos fortalece frente à ameaça do colonialismo digital.

Podemos ser mais do que fontes de dados e matéria-prima, e mercados consumidores para as grandes empresas de tecnologia.

A inteligência artificial traz soluções em áreas críticas como educação, saúde e agricultura.

Experiências nacionais bem-sucedidas devem ser compartilhadas entre os países do bloco.

O PIX, sistema brasileiro público e gratuito de pagamentos, é referência internacional de inclusão financeira e eficiência digital.
Sua arquitetura pode servir de base para uma infraestrutura de pagamentos, que beneficiará todos os cidadãos do MERCOSUL.

A integração financeira reduzirá custos, fortalecerá o comércio intrabloco, ampliará o uso de moedas locais e aumentará nossa resiliência frente a choques externos.

Meus amigos e minhas amigas,

Há 35 anos, o MERCOSUL também foi resposta ao passado autoritário do Cone Sul.

O Protocolo de Ushuaia consolidou os valores democráticos do bloco.
A democracia voltou a estar ameaçada no mundo todo.

Em nossa região, não é diferente.

No Brasil, os extremistas planejaram um golpe de Estado.

Redes de desinformação continuam desvirtuando o debate público e tentando enfraquecer a confiança nas instituições.

Apesar das tentativas de semear dúvidas sobre a integridade dos processos eleitorais na América do Sul, o respeito à vontade popular e a confiança nas regras democráticas têm prevalecido.

Na Bolívia, o diálogo entre governo e movimentos sociais é o único caminho para a superação de divergências e para a preservação da paz social.

As eleições no Peru e na Colômbia também demonstraram a resiliência institucional em nossa região.

Em outubro, o Brasil reafirmará a força de sua democracia.

O Instituto Social do MERCOSUL e o Instituto de Políticas Públicas de Direitos Humanos são esteios da defesa dos valores democráticos e da proteção dos setores mais vulneráveis.

É preciso fortalecer as instâncias regionais dedicadas aos povos indígenas, aos afrodescendentes, às crianças, aos idosos, às pessoas com deficiência e à comunidade LGBTQIA+.

O Pacto Regional pelo Fim da Violência contra Mulheres proposto pelo Brasil merece ser considerado com urgência.

Não há democracia forte ou desenvolvimento duradouro onde o crime organizado corrói a autoridade legítima do Estado.

Esse é um dos maiores desafios da nossa região.

O crime organizado controla territórios, intimida comunidades, destrói o meio ambiente, alimenta a corrupção, desvia recursos públicos e expande sua atuação para o mundo digital.

Nossa cooperação policial, judicial e financeira precisa atuar na mesma escala.

Na última Cúpula, em Foz do Iguaçu, demos um passo importante com a aprovação da Estratégia e a Comissão MERCOSUL de Combate ao Crime Organizado.

No Brasil, priorizamos o fortalecimento da inteligência e da cooperação internacional para asfixiar os escalões mais altos das redes criminosas e combater o tráfico de drogas e de armas.

Criarmos o Centro de Cooperação Policial Internacional em Manaus, com a presença de policiais de todos os países amazônicos.

Em parceria com a Interpol, estamos implementando nova iniciativa para o enfrentamento do crime organizado na América do Sul, cuja sede será o Escritório Regional da Interpol, em Buenos Aires.

O Brasil vai custear a presença de delegados dos 12 países da região na capital argentina, por um ano, para ampliar a coordenação no combate ao tráfico internacional de drogas e crimes correlatos.

Senhoras e senhores,

Ninguém é dono do mundo.

E ninguém é dono da América do Sul.

Nenhum país do MERCOSUL ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes.

Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses.

Diversificar parcerias, ampliar a cooperação e preservar a autonomia são requisitos para que a região encontre seu espaço em um mundo em transformação.

Cumprimento o presidente Santiago Peña pela condução da presidência paraguaia e desejo ao companheiro Yamandú Orsi uma gestão uruguaia exitosa no próximo semestre.

Muito obrigado.

Veja como foi o discurso de Lula na Cúpula do Mercosul

Mercosul reúne 70% do PIB da América do Sul

Em nota, o Palácio do Planalto destacou que o Mercosul reúne 73% do território sul-americano, cerca de 65% da população da região e responde por aproximadamente 70% do Produto Interno Bruto (PIB) da América do Sul.

Dados da presidência mostram que, em 2025, as exportações brasileiras para países do bloco alcançaram quase US$ 26 bilhões, o equivalente a 7,5% do total.

“O comércio do Mercosul com o restante do mundo somou US$ 757 bilhões. No primeiro quadrimestre de 2026, a corrente extrazona chegou a US$ 247,3 bilhões, alta de 8% em relação ao mesmo período de 2025”, destacou a nota.

Entre os avanços previstos pelo governo brasileiro para a cúpula está a assinatura do acordo que vai permitir o reconhecimento da nova Carteira de Identidade Nacional (CIN) como documento válido para ingresso nos países do Mercosul e Estados associados.

Também será firmado um protocolo de reconhecimento mútuo de meios de identificação e autenticação eletrônica, aproximando sistemas digitais como o Gov.br de mecanismos adotados pelos demais países do bloco.

Na área de segurança, o Brasil vai apresentar proposta de pacto regional de combate ao feminicídio e à violência contra as mulheres.

“A iniciativa se soma aos esforços já em andamento para implementação da Estratégia Mercosul contra o Crime Organizado Transnacional, considerada prioritária para os países da região”, informou o palácio.

Lula e presidente do Paraguai se encontram na cúpula do Mercosul

Outro destaque da reunião será o anúncio do aumento da contribuição brasileira ao Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), instrumento criado para reduzir desigualdades entre países do bloco por meio do financiamento de obras de infraestrutura, saneamento, habitação, energia e projetos sociais.

Quem faz parte do Mercosul

São Estados-membros do Mercosul a Argentina, a Bolívia (em processo de adesão), o Brasil, Paraguai, Uruguai e a Venezuela (suspensa). São Estados associados o Chile, a Colômbia, o Equador, a Guiana, o Panamá, Peru e Suriname.

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Acordo com UE pode incrementar exportações brasileiras em cerca de US$ 7 bi. Foto: União Europeia/Mercosul

O Mercosul (Mercado Comum do Sul) é um bloco econômico e político criado para promover a integração entre países da América do Sul. Seus principais objetivos são facilitar o comércio entre os membros, reduzir barreiras alfandegárias, coordenar políticas econômicas e fortalecer a cooperação em áreas como infraestrutura, educação e direitos sociais.

Os Estados-partes (membros plenos) são:

  • Argentina
  • Brasil
  • Paraguai
  • Uruguai
  • Bolívia (tornou-se membro pleno em 2024)

Além deles, há países associados, que participam de acordos de cooperação e livre comércio, mas não integram plenamente a união aduaneira:

  • Chile
  • Colômbia
  • Equador
  • Guiana
  • Peru
  • Suriname

A Venezuela aderiu ao Mercosul como membro pleno em 2012, mas está suspensa desde 2016 por descumprimento de normas do bloco.

Com informações de Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil

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