Marielle faria 47 anos e encontro marca a data

Encontro histórico reúne Angela Davis e lideranças negras no RJ no dia em que Marielle Franco completaria 47 anos
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A presença da Angela Davis neste dia tão emblemático reforça que o legado da minha irmã não é apenas uma lembrança, diz Anielle. Foto: Instituto Marielle Franco

Em uma data marcada por memória, afeto e resistência, o Instituto Marielle Franco e a Fundação Rosa Luxemburgo promoveram nesta segunda-feira (27) um almoço especial que reuniu as famílias de Marielle  e a filósofa e ativista norte-americana Angela Davis. O encontro ocorreu no Rio de Janeiro exatamente no dia em que a vereadora e defensora dos direitos humanos, assassinada em março de 2018, completaria 47 anos.

O evento se consolida como um marco internacional de articulação antirracista, feminista e em defesa da democracia, conectando o legado de Marielle à tradição global das lutas do movimento negro internacional representadas por Davis. Entre as personalidades presentes no almoço, destacaram-se a ex-ministra da Igualdade Racial, pré-candidata a deputada federal e irmã de Marielle, Anielle Franco; a deputada e pré-candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro, Benedita da Silva; e a vereadora do Rio, viúva de Marielle e pré-candidata ao Senado pelo PSOL, Mônica Benício.

A presença da Angela Davis neste dia tão emblemático reforça que o legado da minha irmã não é apenas uma lembrança, mas um motor de transformação global. Celebrar os 47 anos da Marielle ao lado de quem abriu os caminhos para o feminismo negro no mundo nos dá ainda mais força para seguir ocupando os espaços de poder e defendendo a vida do nosso povo”, disse Anielle Franco

A passagem de Angela Davis pelo Brasil reafirma o vínculo histórico da intelectual com as causas sociais do país. Autora de obras fundamentais como Mulheres, Raça e Classe, Davis tem sido uma das vozes internacionais mais contundentes na cobrança por justiça no caso Marielle e Anderson, apontando a violência política de gênero e o racismo estrutural como desafios centrais enfrentados pelas democracias contemporâneas no Sul Global.

O encontro também simbolizou a força da aliança entre gerações de mulheres negras na política brasileira. A presença de Benedita da Silva, pioneira na Assembleia Nacional Constituinte de 1988 e referência histórica do parlamento brasileiro, ao lado da nova ocupação institucional liderada por Anielle Franco, evidencia a continuidade e o fortalecimento de um projeto político pautado pela igualdade e pelos direitos humanos no Estado do Rio de Janeiro e no Brasil.

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Anielle Franco e Benedita da Silva: juntas por um Brasil com Igualdade Racial. Foto: Instituto Marielle Franco

O almoço contou ainda com a parceria da Fundação Rosa Luxemburgo, instituição alemã que atua globalmente na formação política e no apoio a movimentos sociais antirracistas e feministas, reforçando a relevância do legado de Marielle Franco como patrimônio imaterial da luta internacional por justiça social.

Anielle Franco e Angela Davis visitam quilombo durante a Flip

Anielle Franco, e a filósofa e ativista norte-americana Angela Davis visitaram neste sábado (25) o Quilombo do Campinho da Independência, em Paraty (RJ), durante a programação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Primeira comunidade quilombola titulada do estado do Rio de Janeiro, o território recebeu as duas lideranças no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, em uma agenda voltada ao fortalecimento da memória, da ancestralidade e da luta pela igualdade racial.

Angela Davis também participou da mesa “América e África: uma conversa Atlântica”, realizada no Sesc Caborê e mediada pela jornalista Flávia Oliveira.

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Davis destacou o papel da produção intelectual negra na construção de sociedades mais democráticas. Foto: Instituto Marielle Franco

O encontro, que precisou ser transferido para um espaço maior devido à grande procura por ingressos, reuniu centenas de pessoas para discutir racismo, democracia, cultura, feminismo, justiça social e os desafios políticos da atualidade.

Logo na abertura da conversa, Davis destacou o papel da produção intelectual negra na construção de sociedades mais democráticas. Ao comentar a presença do escritor nigeriano Wole Soyinka e da escritora Conceição Evaristo na programação da Flip, afirmou que ambos representam uma tradição de resistência construída por meio da literatura e da arte.

Para a ativista, intelectuais negros preservam a memória de seus povos e ajudam a imaginar novos caminhos para a liberdade e a justiça social.

Em sua décima visita ao Brasil, Angela Davis voltou a declarar o carinho que sente pelo país. “Tenho que admitir que o Brasil é meu lugar favorito no mundo”, afirmou. A filósofa disse se sentir especialmente honrada por participar de atividades em Paraty, cidade cuja história reúne as marcas da escravidão, mas também da resistência da população negra.

Marielle Franco, presente

Marielle Franco nasceu em 27 de julho de 1979 no Rio de Janeiro. Criada no Complexo da Maré, um dos maiores conjuntos de favelas da cidade, ela viveu desde cedo as desigualdades que marcariam sua atuação política. Mulher negra, LGBTQ, mãe e cria da favela, Marielle construiu uma trajetória que a levou da periferia à Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, onde exerceu mandato de 1º de janeiro de 2017 até sua morte.

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Socióloga, feminista e cria da favela, Marielle Franco foi vereadora do Rio e virou símbolo da luta por direitos humanos. Foto: Divulgação/IMF

Marielle era filha de Marinete da Silva e Antônio Francisco da Silva Neto. Aos 19 anos, teve sua única filha, Luyara Franco.

Em 2002, ingressou no curso de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) com uma bolsa integral do Programa Universidade para Todos (Prouni). Antes disso, havia sido aluna do Pré-Vestibular Comunitário da Maré. Concluída a graduação, cursou mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF), defendendo em 2014 uma dissertação sobre as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e a política de segurança pública do estado.

A entrada de Marielle na militância pelos direitos humanos ocorreu após a morte de uma amiga próxima, vítima de bala perdida. Trabalhou em organizações da sociedade civil, como a Brasil Foundation e o Centro de Ações Solidárias da Maré (Ceasm). Em 2006, integrou a equipe da Comunidade da Maré que apoiou a campanha do deputado Marcelo Freixo, que se tornou seu padrinho político.

O assassinato

Na noite de 14 de março de 2018, Marielle Franco voltava de um evento na região do Estácio, bairro central do Rio de Janeiro. O carro em que estava, dirigido por Anderson Pedro Gomes, foi alvo de disparos de uma metralhadora. Treze tiros atingiram o veículo. Marielle e Anderson morreram no local. Marielle tinha 38 anos.

O crime ocorreu em um contexto de disputa territorial envolvendo milícias na Zona Oeste do Rio. A investigação apontou que Marielle havia se posicionado contra projetos de regularização fundiária na região que beneficiavam grupos milicianos. Ela teria pedido à população local que não aderisse aos loteamentos irregulares.

Os executores do crime foram identificados como Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz, ambos ex-policiais militares. Foram presos e condenados pelo tribunal do júri em outubro de 2024: Lessa a 78 anos e 9 meses de prisão, e Queiroz a 59 anos e 8 meses.

Os mandantes, julgados pelo Supremo Tribunal Federal por terem foro privilegiado, foram condenados em 2025. Os irmãos Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, e Chiquinho Brazão, deputado federal, receberam penas de 76 anos e 3 meses cada. Ronald Alves, ex-chefe da Polícia Civil do Rio, foi condenado a 56 anos de prisão.

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Familiares de Marielle e Anderson acompanharam o julgamento: Foto: Gustavo Moreno/STF

A investigação da Polícia Federal apontou que o plano para matar Marielle surgiu após uma reação de Chiquinho Brazão à atuação da vereadora contra seus interesses na Zona Oeste. Os Brazão eram apontados como envolvidos com grilagem de terras e exploração econômica de áreas na região.

Legado de Marielle Franco

O assassinato de Marielle Franco gerou comoção nacional e internacional. O dia 14 de março tornou-se um marco na história recente do Brasil. Sua irmã, Anielle Franco, e sua companheira, a arquiteta Mônica Benício, fundaram o Instituto Marielle Franco para manter vivo seu legado e lutar por justiça. Anielle Franco assumiu o Ministério da Igualdade Racial no governo Lula a partir de 2023.

Marielle Franco deixou uma trajetória que transformou a política brasileira. Vereadora, socióloga, feminista, defensora dos direitos humanos e das causas LGBTI, ela se tornou símbolo da luta contra o racismo, o machismo e a violência de Estado. Sua vida e sua morte seguem como referência para movimentos sociais no Brasil e no mundo.

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