Os institutos de pesquisa estimam a abstenção dos eleitores combinando dados demográficos oficiais com o grau de interesse declarado pelo eleitor. Perguntar apenas “você vai votar?” não basta, pois a maioria diz que sim. Por isso, usam modelos de “eleitores prováveis” (likely voters) para filtrar quem tem mais chance de faltar.
O likely voter — ou eleitor provável —, é uma técnica utilizada para ajustar as projeções considerando a propensão de comparecimento às urnas.
O conceito, amplamente adotado nos Estados Unidos, ganha relevância no Brasil em um contexto de voto obrigatório, mas com taxas significativas de abstenção que distorcem as leituras das intenções de voto.
Como funciona o cálculo e a modelagem do likely voter
- Cruzamento demográfico: o instituto pega o histórico real de abstenção do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por perfil (idade, gênero, escolaridade e região).
- Grau de engajamento: no questionário, os pesquisadores medem o ânimo do eleitor, perguntando se tem certeza de que vai votar, se tem interesse na eleição ou se votaria caso o voto não fosse obrigatório.
- Atribuição de peso: cada resposta ganha um peso estatístico. Quem demonstra desinteresse total recebe uma probabilidade menor de comparecimento.
- Ajuste final: o resultado bruto da intenção de voto é filtrado por essa probabilidade de presença, dando mais peso aos eleitores engajados antes de divulgar os números finais.
Pesquisa eleitoral: como o likely voter calcula a abstenção e os votos
As pesquisas eleitorais buscam retratar o comportamento do eleitorado no momento da entrevista, mas uma questão permanece: quem efetivamente irá votar? É nesse ponto que entra o likely voter, modelo usado por institutos para estimar a probabilidade de comparecimento às urnas.
No segundo turno de 2022, a Quaest aplicou esse modelo e obteve uma redução de 1,4 ponto percentual na diferença estimada entre os candidatos, aproximando a projeção do resultado oficial. O ajuste demonstra que a técnica, embora não resolva todas as distorções, contribui para minimizar os erros.
O que é o likely voter e como ele é usado nas pesquisas dos EUA
Nos Estados Unidos, onde o voto é facultativo, pesquisas podem separar eleitores registrados daqueles considerados prováveis votantes. O modelo combina informações como intenção declarada de votar, histórico de participação e grau de envolvimento com a eleição.
A lógica é evitar que eleitores registrados, que provavelmente não comparecerão às urnas, tenham o mesmo peso daqueles com maior probabilidade de votar. Os critérios variam entre institutos.

No Brasil, a discussão ganha outra dimensão porque o voto é obrigatório e a abstenção ainda representa parcela relevante do eleitorado.
O artigo de Frederico Batista Pereira e Felipe Nunes destaca que pesquisas brasileiras podem precisar incorporar modelos capazes de identificar não apenas quem provavelmente votará, mas também quem poderá mudar de escolha na reta final.
Como a Quaest faz o cálculo de votos válidos nas pesquisas eleitorais
O cálculo de votos válidos exclui votos brancos e nulos e redistribui proporcionalmente as intenções atribuídas às candidaturas.
Já a estimativa de comparecimento é outra etapa: procura identificar quais entrevistados apresentam maior probabilidade de participar da votação.
Na modelagem, informações sociodemográficas e respostas sobre comportamento eleitoral podem ser combinadas para atribuir diferentes pesos aos entrevistados.
O estudo baseado em dados da Quaest mostra como modelos estatísticos podem estimar a propensão individual de escolha e reorganizar respostas de indecisos e eleitores estratégicos.
Pesquisas eleitorais e mudanças tardias na decisão do voto
Uma pesquisa eleitoral não fotografa necessariamente o resultado da urna. Ela registra preferências no período em que as entrevistas são realizadas. O estudo de Pereira e Nunes aponta dois mecanismos capazes de produzir mudanças nos últimos dias: o voto estratégico, conhecido no Brasil como “voto útil”, e o alinhamento tardio dos indecisos.
O eleitor estratégico pode abandonar seu candidato preferido para apoiar uma candidatura mais competitiva, enquanto o indeciso pode definir sua escolha apenas perto da votação. Em 2022, 50% dos eleitores de candidaturas da chamada terceira via diziam ainda poder mudar de escolha, segundo dados citados no estudo.
O caso do 1º turno das eleições de 2022
O primeiro turno de 2022 tornou esse debate especialmente relevante. A última pesquisa Quaest analisada no estudo apontava Bolsonaro com 33,5% e Lula com 43,5%; o resultado oficial foi de 41,3% e 46,3%, respectivamente.
Segundo os pesquisadores, parte da diferença pode estar associada a mudanças tardias. Entre eleitores que se informavam principalmente pela internet, a vantagem de Bolsonaro sobre Lula passou de seis pontos na intenção para mais de 13 pontos no voto posteriormente declarado.
A explicação mais imediata para a divergência foi a de que os institutos teriam cometido erros técnicos — vieses de amostragem, recusas de respondentes ou incapacidade de captar a abstenção. Porém, duas observações enfraquecem essa hipótese.
Primeiro, as mesmas metodologias foram aplicadas no segundo turno e produziram estimativas muito mais próximas do resultado. Segundo, a discrepância não foi isolada: fenômenos semelhantes ocorreram em 2014 e 2018.
Uma explicação alternativa, explorada por Frederico Batista Pereira e Felipe Nunes em artigo publicado na Revista do CESOP, é a de que mudanças reais na distribuição das intenções de voto ocorreram entre a última pesquisa e a votação.

Os autores argumentam que os mecanismos de voto estratégico e alinhamento de indecisos atuaram de forma intensa nos dias finais da campanha, beneficiando desproporcionalmente Bolsonaro.
Evidências empíricas reforçam essa tese. Um experimento conduzido uma semana antes do primeiro turno mostrou que eleitores da “terceira via” e indecisos apresentavam alta propensão a mudar o voto após assistir a vídeos de campanha.
Os efeitos foram mais pronunciados entre os que receberam mensagens de apelo ao “voto útil”. Além disso, dados da pesquisa Quaest revelaram que eleitores que se informavam principalmente pela internet e eleitores evangélicos alteraram substancialmente sua decisão entre a véspera e o dia da votação.
Eleitores pendulares, que não conseguem ordenar claramente suas preferências, protelam a decisão até o último momento. As campanhas intensificam seus esforços de persuasão na reta final, e a exposição a informações — muitas vezes por meio de redes sociais e aplicativos de mensagem — pode influenciar esses eleitores de forma decisiva.
Como os institutos definem quem será entrevistado?
Institutos definem amostras para representar características do eleitorado e aplicam questionários padronizados. Os resultados passam por ponderações estatísticas para corrigir diferenças entre a composição da amostra e a população.
Por isso, interpretar uma pesquisa eleitoral exige observar metodologia, período de coleta, tamanho da amostra, margem de erro, nível de confiança e critérios utilizados para definir os votos considerados. O likely voter acrescenta outra camada: a estimativa de quem efetivamente deverá comparecer às urnas.

Em 2026, portanto, a leitura das pesquisas deve considerar dois movimentos distintos: a abstenção, que pode alterar a composição do eleitorado efetivamente presente, e os chamados changing voters, eleitores cuja decisão ainda pode mudar. O estudo do CESOP sustenta que as pesquisas precisam avançar justamente na identificação dessas duas dimensões.
Como as pesquisas calculam os votos válidos?
A Quaest, um dos principais institutos do país, adota uma abordagem específica para calcular os votos válidos e ajustar suas estimativas. O processo combina dados demográficos oficiais do TSE com perguntas de engajamento incluídas nos questionários.
O primeiro passo é o cruzamento demográfico. O instituto utiliza o histórico real de abstenção por perfil — idade, gênero, escolaridade e região — para estabelecer uma base de comparação. Em seguida, no questionário aplicado aos entrevistados, são incluídas perguntas que medem o grau de interesse e a certeza de comparecimento.
Perguntas como “Você tem certeza de que vai votar?” e “Você votaria se o voto não fosse obrigatório?” ajudam a identificar os respondentes com menor engajamento.
Cada resposta recebe um peso estatístico. Quem demonstra desinteresse total ou incerteza sobre o comparecimento recebe uma probabilidade menor de presença. O resultado bruto da intenção de voto é então filtrado por essa probabilidade, dando mais peso aos eleitores engajados antes da divulgação dos números finais.

O cálculo dos votos válidos também envolve a exclusão de votos nulos e brancos da amostra. A pesquisa apresenta os percentuais de intenção de voto sobre o total de votos válidos, ou seja, desconsiderando os que declararam voto nulo, branco ou indecisão.
Essa prática é padrão no setor, mas tem implicações importantes: ao ignorar os indecisos, assume-se que seus votos, caso compareçam, se distribuirão de forma proporcional aos demais eleitores — uma premissa questionável, como mostram os estudos sobre comportamento eleitoral.
Como são feitas as pesquisas eleitorais?
As pesquisas eleitorais seguem um rigor metodológico que combina estatística, demografia e psicologia do eleitor. O processo começa com a definição do tamanho da amostra, que depende do tamanho da população, do nível de confiança desejado e da margem de erro aceitável.
Para um nível de confiança de 95% e uma margem de erro de 2 pontos percentuais, o tamanho da amostra necessário é calculado por uma fórumula que envolve o valor da distribuição normal para o nível de confiança (aproximadamente 1,96 para 95%), a proporção estimada do fenômeno (adota-se 0,5 para garantir a máxima variância) e a margem de erro em formato decimal.
Para uma margem de 2%, o cálculo resulta em cerca de 2.400 entrevistas.
A margem de erro indica o desvio máximo que o resultado pode apresentar em relação à realidade. Um candidato com 30% das intenções e margem de 2 pontos pode ter entre 28% e 32%. O nível de confiança de 95% significa que, se a pesquisa fosse repetida 100 vezes, em 95 delas o resultado estaria dentro da margem estipulada.

Além do cálculo amostral, os institutos aplicam questionários estruturados para coletar informações sobre intenção de voto, avaliação de governo, conhecimento dos candidatos e características sociodemográficas.
As entrevistas podem ser presenciais, por telefone ou online, dependendo da metodologia adotada.
Cada modalidade apresenta vantagens e limitações: o presencial permite melhor controle da amostra, mas é mais caro; o online alcança maior número de respondentes, mas pode introduzir vieses de seleção.
Após a coleta, os dados passam por ponderação estatística para corrigir distorções amostrais. Por exemplo, se a amostra tem mais mulheres do que a população real, o peso das respostas masculinas é ajustado para refletir a distribuição correta.
Em seguida, são aplicados os modelos de likely voter e outros ajustes, como a exclusão de votos nulos e brancos para o cálculo de votos válidos.
Por fim, os resultados são divulgados com a margem de erro e o nível de confiança, para que o público possa interpretar as estimativas com a devida cautela. O objetivo não é prever o resultado com exatidão, mas sim fornecer um retrato da opinião pública no momento da coleta, com todas as limitações inerentes à metodologia.