A Polícia Federal (PF) recusou formalmente, nesta quarta-feira (21), a proposta de delação premiada apresentada pela equipe jurídica do ex-banqueiro Daniel Vorcaro por considerar informações irrelevantes, já que materiais extraídos dos seus celulares são mais completos que seus relatos. PGR ainda tenta negociação. Leia em TVT News.
O empresário, antigo proprietário do Banco Master, encontra-se detido preventivamente desde o dia 4 de março em decorrência de investigações sobre crimes financeiros no âmbito da Operação Compliance Zero. Apesar da negativa da corporação policial, o investigado mantém frentes de diálogo abertas com a Procuradoria-Geral da República (PGR) na tentativa de firmar um acordo de colaboração.
Depoimentos de Vorcaro não trazem dados inéditos
O posicionamento adotado pela PF baseia-se no entendimento de que os depoimentos e materiais oferecidos no início de maio não trouxeram dados inéditos ou elementos de convicção capazes de impulsionar o inquérito.
De acordo com fontes internas que acompanham o andamento dos trabalhos, os relatos iniciais de Vorcaro foram classificados como seletivos e repetitivos.
Omissão sobre políticos e episódios relevantes
Os policiais apontam que o detido evitou mencionar episódios considerados de grande relevância pelas autoridades, gerando descontentamento sobre a utilidade real do acordo de colaboração premiada.
Como reflexo direto do travamento das conversações, o empresário sofreu alterações em seu regime de detenção.
Na última segunda-feira (18), a autoridade policial determinou a transferência do ex-banqueiro de uma sala de Estado-Maior para uma cela comum na carceragem da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
A movimentação carcerária foi interpretada nos bastidores do Poder Judiciário como um indicativo claro de insatisfação da instituição policial com a postura adotada pela defesa do empresário ao longo do processo.
Tentativa de blindar aliados?
Dentre as lacunas identificadas pela equipe de investigação na proposta de colaboração de Daniel Vorcaro, destaca-se a ausência de esclarecimentos sobre as conexões financeiras mantidas com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas.
As apurações conduzidas de forma autônoma pela corporação apontam indícios de que o parlamentar piauiense teria recebido vantagens indevidas estruturadas pelo antigo comando do Banco Master.
A Polícia Federal (PF) deflagrou, neste mês, a 5ª fase da Operação Compliance Zero. A ação que investigava fraudes financeiras e crimes contra o sistema financeiro nacional envolvendo o Banco Master, cumpriu mandado de busca e apreensão contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do partido e ex-ministro da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro.
De acordo com o relatório da Polícia Federal que fundamentou a operação, o senador Ciro Nogueira é apontado como o “destinatário central” de vantagens indevidas oferecidas por Daniel Vorcaro.
A investigação indica que o parlamentar teria instrumentalizado seu mandato para favorecer interesses privados do Vorcaro do Banco Master no Congresso Nacional.
Ciro Nogueira ganhou do Master e ficou de fora da delação

Os relatórios policiais apontam que o senador teria atuado na apresentação de uma emenda legislativa com o propósito específico de expandir o teto de cobertura assegurado pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
A alteração normativa visava elevar a garantia dos correntistas de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Conforme o mapeamento realizado pelos investigadores, o texto do instrumento legislativo foi elaborado com o auxílio e a participação direta de integrantes do quadro de funcionários do próprio Banco Master.
O fato de Vorcaro não ter abordado essa linha de investigação em seus relatos iniciais foi considerado um indicativo de que ele buscava blindar aliados políticos.
E o Flávio Bolsonaro?
Outro fator determinante para o indeferimento da proposta de delação pela Polícia Federal foi o silêncio do ex-banqueiro a respeito de suas ligações com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Na semana passada, revelações veiculadas pelo site Intercept Brasil trouxeram a público mensagens textuais, documentos e arquivos de áudio evidenciando tratativas diretas entre o parlamentar e Daniel Vorcaro.
Os arquivos demonstram a negociação de um repasse de recursos na ordem de R$ 134 milhões, cujo destino seria o financiamento do longa-metragem “Dark Horse”, produção cinematográfica em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O teor das investigações indica que pelo menos R$ 61 milhões desse montante total já teriam sido efetivamente movimentados para contas vinculadas ou de interesse do parlamentar fluminense.
Pressionado pela publicidade das provas, o senador admitiu publicamente ter realizado uma reunião presencial com Vorcaro em dezembro de 2025.
Na data do encontro, o antigo dono do banco já se encontrava sob o regime de prisão domiciliar. Toda a movimentação financeira e o encontro físico foram omitidos pelo detido durante as primeiras sessões de negociação com as autoridades, o que comprometeu a presunção de boa-fé exigida para a homologação de acordos dessa natureza.
Procuradoria-Geral da República ainda tenta acordo
Se por um lado a corporação policial encerrou os diálogos, por outro a defesa de Daniel Vorcaro concentra seus esforços na Procuradoria-Geral da República.
Em reunião realizada em Brasília, integrantes da PGR sinalizaram a intenção de dar continuidade às tratativas para avaliar o potencial das revelações sob a ótica do Ministério Público Federal.
Historicamente, a prioridade da equipe do empresário era firmar o pacto com a procuradoria, conforme sinalizado em relatórios anteriores de portais de notícias.
O processo de concertação envolve três eixos de alta complexidade:
Indenização financeira: Os valores em discussão para fins de ressarcimento aos cofres públicos situam-se em um patamar estimado em R$ 50 bilhões.
Flexibilização da pena: O réu pleiteia o direito de migrar para o regime de prisão domiciliar, buscando aguardar o julgamento final fora do estabelecimento prisional.
Desdobramentos políticos: Integrantes das negociações assinalam que o colaborador possui elementos que atingem autoridades com prerrogativa de foro no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal (STF).
Apesar do interesse manifestado pela PGR em prosseguir com a análise, existe apreensão entre os operadores do direito de que as conexões profissionais e pessoais de figuras de proa do caso possam impor limites ao alcance das investigações.
Interlocutores mencionam o receio de que as relações do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do advogado de defesa José de Oliveira Lima com integrantes do STF possam atuar como um fator de contenção sobre eventuais denúncias envolvendo magistrados da Suprema Corte.
O ex-banqueiro segue sob custódia do Estado no Distrito Federal. A Operação Compliance Zero, que se encontra em sua terceira fase ostensiva, apura um amplo espectro de práticas ilícitas, abrangendo fraudes no sistema financeiro, monitoramento ilegal de opositores econômicos e mecanismos complexos para a ocultação de patrimônio em nome de terceiros.

