Brasil x Haiti é o jogo desta sexta, 19, na Copa do Mundo. O Haiti pode parecer o adversário mais fácil do grupo C, com Brasil, Escócia e Marrocos, mas a história haitiana carrega um dos episódios mais bonitos das lutas populares: a primeira revolução dos escravizados contra o colonialismo imperial. Conheça a história do Haiti com a TVT News.
Haiti de volta à Copa do Mundo depois de 52 anos
O Haiti não participava de uma Copa do Mundo desde 1974. No mundial disputado na Alemanha, o Haiti caiu na fase de grupos depois de perder para Itália, Polônia e Argentina. A derrota para a Polônia por 7 a 0 foi uma das grandes goleadas daquele mundial.
A classificação para a a Copa do Mundo 2026 quebrou um jejum de mais de meio século e reacende o sentimento de orgulho entre haitianos dentro e fora da ilha. O futebol, bastante popular no país, torna-se um motivo de alegria em meio às inúmeras dificuldades políticas, econômicas e sociais que atravessam o cotidiano haitiano.

Conheça a história do Haiti: o primeiro país a fazer revolução de escravizados
A história haitiana ocupa posição central no debate internacional sobre colonialismo, resistência e emancipação. O Haiti foi o primeiro país do mundo a realizar uma revolução vitoriosa protagonizada por pessoas escravizadas, e o primeiro país negro independente das Américas, em 1804.
Durante os séculos XVII e XVIII, a ilha — então colônia francesa com o nome de São Domingos — era o território mais lucrativo do Caribe para a metrópole, baseada na exploração de mão de obra escravizada nas plantações de açúcar e café. O sistema era extremamente violento e marcado por desigualdades profundas.

A partir de 1791, revoltas massivas lideradas por homens e mulheres escravizados deram início à mais bem-sucedida insurreição da época moderna. O movimento, influenciado pela Revolução Francesa e pelos ideais de liberdade, atravessou anos de guerra, alianças complexas e sucessivas disputas contra forças europeias.
O resultado foi a criação de uma nova nação livre, que desde o início enfrentou represálias econômicas e diplomáticas das potências coloniais. A independência haitiana se tornou inspiração para a luta antirracista e para movimentos de emancipação por toda a América Latina.
Quem foi Toussaint Louverture, o herói da Libertação do Haiti
Toussaint Louverture é uma das figuras mais importantes da Revolução Haitiana. Nascido escravizado, aprendeu a ler e a escrever e se tornou estrategista militar. Durante a revolução, Louverture organizou tropas, articulou alianças e liderou a fase mais decisiva da luta.
Sua capacidade de negociação e sua visão política permitiram que ele conduzisse o território rumo à autonomia, preparando o caminho para a independência definitiva. Capturado pelos franceses em 1802, morreu na prisão no ano seguinte. Mesmo assim, sua liderança permaneceu como símbolo da luta por liberdade no Caribe e no mundo.

O que a Revolução Haitiana influiu na Independência do Brasil?
TVT News conversou com a historiadora Soraya Matos de Freitas, professora de História do Ensino Médio nas escolas públicas da Secretaria de Estado da Educação do Rio de Janeiro para entender a relação entre a revolução Haitiana e a independência do Brasil.
Soraya explica o termo Haitianismo. “A palavra surgiu após os ecos da Revolução Haitiana pelo continente americano. O movimento aconteceu numa pequena e valorosa colônia francesa no mar caribenho, Saint Domingue. Se a Revolução burguesa, na França, em 1789, teve entre as ideias alguns dos conceitos filosóficos do Iluminismo como liberdade, igualdade e fraternidade, na Colônia caribenha, tais ideias foram colocados em xeque”, explica a professora.
Haitianismo foi o medo de que algo igual, ou minimamente parecido. acontecesse em outras colônias. A partir daquele movimento, os ingleses grandes comerciantes de escravos, passaram a defender o fim do tráfico negreiro. Os portugueses se viram pressionados a dar fim ao comércio de escravos. Talvez a melhor solução para os comerciantes negreiros para a América portuguesa, fosse à separação de Portugal.
“Nossa independência, diferente de outras na América foi liderada por um português que ao fim se tornou o Imperador. Ou seja, ficamos independentes da metrópole sendo governados pelo filho do Rei metropolitano, e garantindo assim o comércio de escravos por um bom tempo ainda. Aqui no Império do Brasil, o fim do tráfico de escravos só passaria a ser de fato ilegal em 1850”, conta Soraya.
Para além da independência, outra consequência desse haitianismo foi a repressão cada vez mais violenta sobre qualquer rebeldia ou revolta de escravizados. Assim foi com os Malês, na Bahia de 1835; Manoel Congo, no Rio de Janeiro em 1838 e Carrancas, em Minas Gerais em 1833, só para citar algumas.

Revolta dos Malês: a revolta de escravizados africanos ocorreu em Salvador, em 25 de janeiro de 1835. Foram cerca de 600 homens, a maioria, de negros muçulmanos, em especial da etnia nagô, de língua iorubá. A expressão “malê” vem de “imalê” que, em iorubá, significa muçulmano. Foto: Reprodução Senado Federal
“O haitianismo, como nos ensinou o professor Marco Morel: surgiu no Brasil com a crise da abdicação de D. Pedro I em 1831. No entanto, podemos afirmar que o sentimento de medo que a Revolução haitiana causou, foi sendo construído ao longo dos anos que se seguiram a Revolução. Tal movimento deu origem ao primeiro país da América onde a escravidão foi abolida”, relata a historiadora.
Soraya conta também que, em 1824, um abade francês, Henri Grégorie, definiu assim aquele movimento: “Haiti é um farol elevado sobre as Antilhas, em direção ao qual os escravos e seus senhores, os oprimidos e opressores voltam seus olhares, aqueles suspirando, estes rugindo.” Silenciar o ocorrido na antiga colônia francesa foi o que as metrópoles e as elites coloniais fizeram. Obrigando ou impondo o desviar do olhar ao farol, da luz que poderia inspirar revoltas, revoluções e a justa luta por liberdade e igualdade.
Conheça algumas curiosidades do Haiti
O Haiti possui uma cultura marcada por influências africanas, francesas e indígenas. Confira algumas curiosidades sobre a cultura do Haiti,
Haiti tem francês como língua oficial
O país adota duas línguas oficiais: o francês e o crioulo haitiano (kreyòl). O francês é usado em documentos formais, mas a língua mais falada pela população é o crioulo, que mistura estruturas africanas a vocabulário francês. O uso do crioulo é um elemento forte de identidade nacional e de afirmação social.

Quais países falam francês na Copa do Mundo
São oito as seleções presentes na Copa do Mundo de 2026 que reconhecem o francês como idioma oficial: França, Bélgica, Suíça, Canadá, Haiti, Senegal, Costa do Marfim e República Democrática do Congo.
França: uma das favoritas ao título; a França tenta acertar as contas com o passado colonial;
Bélgica: os diabos vermelhos têm o francês como idioma oficial e predominante em regiões como a Valônia e na capital, Bruxelas;
Suíça: o país onde a sede da FIFA está localizada adota o francês como um de seus quatro idiomas oficiais.
Canadá: coanfitrião da Copa, mantém o francês como língua oficial, sendo o idioma principal da província do Quebec.
Haiti: de volta à Copa do Mundo, o representante caribenho fala francês e o crioulo haitiano;
Senegal: potência do futebol africano, os Leões de Teranga utilizam o francês como língua oficial e são os atuais campeões da África;
Costa do Marfim: nação da África Ocidental onde o francês é o idioma da administração e do ensino, os elefantes querem chegar mais longe em 2026;
República Democrática do Congo (RD Congo): o país com a maior população que fala francês no mundo, superando a própria França em número de habitantes que utilizam o idioma.
O que é vodu e qual a relação com a África?
O vodu é uma religião de matriz africana que reúne elementos trazidos pelos povos iorubás e de outras etnias do continente. Sua cosmologia envolve espíritos ancestrais conhecidos como lwa, rituais comunitários e concepções próprias sobre vida e espiritualidade. Associado de forma distorcida por discursos coloniais, o vodu é, na verdade, patrimônio cultural e religioso haitiano e desempenhou papel importante na organização das rebeliões que levaram à independência.
Caribe faz parte da América Latina? Entenda
O Caribe é um conjunto diverso de países e territórios com múltiplas influências linguísticas: espanhola, francesa, inglesa e holandesa.
De acordo com as teorias decoloniais, que são estudos sobre a influência dos processos de colonização na formação das nações de todo continente americano, são considerados latino-americanos países que tenham algumas características em comum:
- Sofreram a colonização de exploração em oposição à colonização de povoamento anglo-saxônica;
- Estão na periferia do capitalismo, ou seja, são nações em via de desenvolvimento e de industrialização;
- São dependentes do mercado mundial como produtores de matérias-primas e bens alimentares e são consumidores de tecnologia;
- Estão sob influência dos EUA
- Como consequência da colonização; são países que sofrem como racismo, machismo, clienteliismo e que convivem com uso da violência como controle das desigualdades sociais.
Por todas essa características, os países caribenhos fazem parte da conceito geopolítico de América Latina. Curaçau, que fala holandês, e Haiti, que fala francês, por essa interpretação histórico-econômica e social, podem ser considerados países latino-americanos.

