Quem é Andy Burnham, novo primeiro-ministro do Reino Unido

Ex-prefeito da Grande Manchester e um dos nomes mais populares do Partido Trabalhista, Andy Burnham assume o governo britânico prometendo descentralizar o poder
Burnham afirmou que pretende "devolver a esperança" aos britânicos. Foto: Divulgação/Parlamento Britânico

Andy Burnham será oficialmente o novo primeiro-ministro do Reino Unido na próxima segunda-feira (20), após ser confirmado como líder do Partido Trabalhista em uma conferência extraordinária realizada nesta sexta-feira (17). Aos 56 anos, o político sucede Keir Starmer, que renunciou ao cargo em junho depois de enfrentar uma profunda crise de popularidade, derrotas eleitorais e dificuldades para reverter a estagnação econômica britânica. Saiba mais na TVT News.

A escolha de Burnham ocorreu sem disputa interna. Único candidato habilitado, ele recebeu apoio esmagador da bancada trabalhista no Parlamento, consolidando uma transição rápida para evitar um agravamento da crise política do partido. Sua posse fará dele o sétimo primeiro-ministro britânico em apenas uma década, evidenciando o período de instabilidade vivido pelo Reino Unido desde o referendo do Brexit.

Em seu primeiro discurso como líder trabalhista, Burnham afirmou que pretende “devolver a esperança” aos britânicos e reconstruir a relação entre a política e comunidades que, segundo ele, foram negligenciadas durante décadas.

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“Estamos unidos e colocamos a força que emana desta unidade a serviço das pessoas e dos territórios que há muito tempo esperam que a política lhes devolva a esperança”, declarou.

O “Rei do Norte”

Conhecido nacionalmente pelo apelido de “Rei do Norte”, Burnham construiu sua reputação durante quase dez anos como prefeito da Grande Manchester. O título surgiu especialmente durante a pandemia de covid-19, quando enfrentou publicamente o governo conservador de Boris Johnson ao exigir mais recursos e melhores condições para as regiões submetidas às restrições sanitárias.

Sua atuação reforçou a imagem de defensor do norte da Inglaterra, historicamente menos desenvolvido que Londres e o sudeste do país. A defesa da descentralização tornou-se a principal marca de sua carreira política.

Burnham argumenta que o modelo britânico concentra excessivo poder em Westminster, sede do Parlamento e do governo, e que regiões metropolitanas e autoridades locais precisam controlar áreas estratégicas como transporte, habitação, desenvolvimento econômico e qualificação profissional.

Foi justamente em Manchester que essa proposta ganhou forma. Durante sua gestão, a cidade ampliou investimentos em infraestrutura, retomou o controle público do sistema de ônibus — tornando-se a primeira região inglesa fora de Londres a fazê-lo —, expandiu políticas habitacionais e fortaleceu programas de desenvolvimento regional.

Sob sua administração, a economia da Grande Manchester apresentou crescimento superior à média nacional, atraindo investimentos privados e consolidando um modelo que Burnham define como um “socialismo favorável aos negócios”: maior presença do Estado em serviços essenciais combinada com estímulos ao empreendedorismo e ao investimento produtivo.

Da política nacional ao governo local

Natural de Liverpool e criado em Cheshire, Burnham estudou Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge antes de iniciar carreira no jornalismo e ingressar definitivamente na política.

Foi eleito deputado pela primeira vez em 2001 e ocupou diversos cargos ministeriais durante os governos trabalhistas de Tony Blair e Gordon Brown. Entre as funções exercidas estão as secretarias de Cultura, Saúde e o cargo de secretário-chefe do Tesouro.

Após a derrota do Partido Trabalhista em 2010, tentou assumir a liderança da legenda, mas foi derrotado por Ed Miliband. Em 2015 voltou a disputar o comando do partido e perdeu novamente, desta vez para Jeremy Corbyn.

Sem espaço na política nacional, decidiu disputar a recém-criada prefeitura da Grande Manchester em 2017. A mudança acabou transformando sua trajetória política.

Reeleito sucessivamente e mantendo elevados índices de aprovação, Burnham passou a ser visto como uma das principais lideranças trabalhistas do país, especialmente enquanto o partido enfrentava divisões internas e sucessivas mudanças de direção em Londres.

Seu retorno ao Parlamento ocorreu apenas em junho deste ano, quando venceu uma eleição suplementar em Makerfield. O movimento abriu caminho para sua candidatura à liderança trabalhista logo após a renúncia de Starmer.

Uma esquerda pragmática

Embora atualmente seja identificado com a ala esquerda do Partido Trabalhista, Burnham percorreu uma trajetória política mais complexa.

Nos anos dos governos Blair, era visto como integrante da corrente mais moderada da legenda. Ao longo da última década, porém, aproximou-se de propostas mais intervencionistas, defendendo maior presença do Estado na economia e o fortalecimento dos serviços públicos.

Entre suas bandeiras estão a ampliação do controle público sobre setores como água, energia, transporte e habitação, além da construção de moradias populares, investimentos em saúde pública e políticas de reindustrialização.

Ao mesmo tempo, procura diferenciar-se da esquerda mais tradicional ao enfatizar a necessidade de manter um ambiente favorável aos investimentos privados.

Esse equilíbrio levou analistas britânicos a classificarem seu modelo como uma espécie de “socialismo pró-negócios”, no qual desenvolvimento econômico e fortalecimento dos serviços públicos caminham simultaneamente.

Burnham também sustenta que o Reino Unido precisa superar o modelo econômico das últimas quatro décadas, que, segundo ele, aprofundou desigualdades territoriais e abandonou antigas regiões industriais.

Desafios imediatos

Apesar da ampla aprovação dentro do Partido Trabalhista, Burnham assume o governo em um cenário extremamente complexo.

A economia britânica permanece praticamente estagnada desde a crise financeira de 2008, situação agravada pelos impactos do Brexit, da pandemia de covid-19 e da crise energética provocada pela guerra na Ucrânia.

O custo de vida elevado, a pressão sobre o sistema público de saúde (NHS), o déficit habitacional e o crescimento da imigração irregular estão entre as principais preocupações do eleitorado.

Outro desafio será conter o avanço do Reform UK, partido de direita radical liderado por Nigel Farage, que lidera diversas pesquisas de intenção de voto e conquistou importantes vitórias nas eleições locais deste ano.

Burnham afirma que o Partido Trabalhista não deve responder tentando copiar seus adversários.

Segundo ele, a resposta passa por recuperar a identidade trabalhista e apresentar soluções concretas para reduzir desigualdades regionais e melhorar os serviços públicos.

Além das questões internas, o novo primeiro-ministro também terá de administrar uma conjuntura internacional delicada, marcada pela continuidade da guerra na Ucrânia, tensões no Oriente Médio, discussões sobre aumento dos gastos militares da Otan e uma relação potencialmente difícil com o presidente norte-americano Donald Trump.

Um governo cercado de expectativas

O novo premiê chega ao cargo com uma vantagem que seu antecessor não possuía: elevada popularidade pessoal e boa capacidade de comunicação.

Ao longo dos últimos anos, Burnham cultivou uma imagem de político próximo da população, torcedor apaixonado do Everton, fã da cena musical de Manchester e defensor das comunidades do norte inglês.

Ao mesmo tempo, analistas destacam que ainda existem muitas dúvidas sobre como suas propostas serão implementadas diante das limitações fiscais enfrentadas pelo Reino Unido.

Boa parte de suas promessas — como ampliar investimentos públicos, acelerar a construção de moradias, descentralizar o poder e expandir serviços estatais — dependerá de recursos financeiros em um momento de baixo crescimento econômico e elevado endividamento.

Mesmo assim, Burnham inicia seu governo apresentando uma narrativa política clara: reduzir o protagonismo de Londres na tomada de decisões e promover um novo ciclo de desenvolvimento para regiões que, segundo ele, ficaram à margem da prosperidade britânica nas últimas décadas.

Se conseguirá transformar essa visão em resultados concretos será um dos principais testes para um governo que assume sob forte expectativa de mudança e com poucos anos até a próxima eleição geral.

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