Um estudo divulgado nesta segunda-feira (15) pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) reacendeu o debate sobre a importância da Petrobras no refino nacional, da segurança energética e do papel do Estado em setores considerados estratégicos para a economia brasileira. Leia em TVT News.
Os dados mostram que as refinarias que permaneceram sob controle da Petrobras tiveram participação decisiva para garantir o abastecimento interno de combustíveis e reduzir parte dos impactos provocados pela volatilidade do mercado internacional.
A divulgação do novo Boletim do Abastecimento ocorre em um momento marcado por instabilidade geopolítica internacional, com reflexos diretos sobre os preços da energia e dos combustíveis.
O estudo destaca que, apesar do crescimento da produção nacional de petróleo, o Brasil continua dependente da importação de derivados, especialmente diesel, o que mantém o país exposto às oscilações dos mercados globais e a conflitos internacionais.
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No mesmo dia da publicação do levantamento, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) lançou a campanha nacional “Reestatiza, Brasil!”, iniciativa que busca ampliar o debate sobre os impactos das privatizações em áreas como energia, combustíveis, gás natural e distribuição.
A pesquisa e a campanha reforçam uma discussão fundamental: a necessidade de fortalecer a capacidade estatal em setores considerados essenciais para a soberania nacional, o abastecimento interno e a proteção do orçamento das famílias brasileiras.
Consumo de diesel cresce, mas produção não acompanha
Um dos principais pontos destacados pelo Boletim do Abastecimento é o aumento da diferença entre a demanda nacional de diesel e a capacidade de produção interna.
Segundo os dados do Ineep, entre 2015 e o primeiro trimestre de 2026, o consumo de diesel cresceu 19,3%. O volume passou de 985,8 mil barris por dia para 1,17 milhão de barris diários.
No mesmo período, porém, a produção nacional da Petrobras registrou queda de 2,5%, recuando de 852,3 mil para 831 mil barris por dia.
O resultado foi o aumento da dependência de importações para atender o mercado interno. De acordo com o estudo, a necessidade de compra de diesel no exterior mais que dobrou na última década.
Essa situação torna o Brasil mais vulnerável às oscilações dos preços internacionais e aos impactos de crises geopolíticas que afetam o mercado global de energia.
Os pesquisadores apontam que essa vulnerabilidade ficou evidente em momentos recentes de tensão internacional. Conflitos envolvendo grandes produtores de petróleo e disputas geopolíticas em regiões estratégicas afetam diretamente os custos dos combustíveis importados e acabam repercutindo sobre os preços pagos pelos consumidores brasileiros.
Mudança na estratégia da Petrobras
O levantamento do Ineep relaciona esse cenário às mudanças ocorridas na estratégia da Petrobras entre 2016 e 2022.
Nesse período, a estatal concentrou seus investimentos na exploração e produção de petróleo, especialmente nas áreas do pré-sal, enquanto reduziu os aportes destinados ao segmento de refino.
A política adotada resultou em crescimento da produção de petróleo bruto, mas sem expansão equivalente da capacidade de processamento nacional.

O estudo aponta que essa escolha consolidou uma situação considerada contraditória: o Brasil ampliou sua posição como produtor e exportador de petróleo, mas continuou dependente da importação de derivados para abastecer o mercado interno.
Para os pesquisadores, a falta de investimentos suficientes em refino comprometeu a capacidade nacional de transformar o petróleo produzido internamente em combustíveis destinados ao consumo doméstico.
Refinarias da Petrobras sustentam abastecimento
Mesmo após a venda de refinarias realizada nos últimos anos, a Petrobras continua desempenhando papel predominante no abastecimento nacional.
Segundo o boletim, no primeiro trimestre de 2026 a estatal foi responsável por 88,6% de toda a produção nacional de diesel.
Trata-se do maior percentual registrado na última década e superior aos níveis observados antes da privatização de parte do parque de refino.
Os dados mostram também aumento no processamento de petróleo realizado pelas refinarias da companhia.
Entre janeiro e março deste ano, a Petrobras processou em média 1,73 milhão de barris de petróleo por dia, volume 2,7% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
De acordo com o Ineep, esse crescimento foi sustentado essencialmente pelas refinarias que permaneceram sob controle da estatal.
A produção nacional de gás liquefeito de petróleo (GLP), utilizado principalmente no gás de cozinha, também apresentou crescimento.
No primeiro trimestre de 2026, a produção atingiu média de 131,8 mil barris por dia, avanço de 3% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Impactos sobre os preços
O estudo afirma que a ampliação da oferta de combustíveis produzidos pelas refinarias da Petrobras ajudou a reduzir a necessidade de importações e a amortecer parte dos efeitos provocados pela alta internacional dos preços.
No entanto, os pesquisadores alertam que a dependência externa ainda é elevada, especialmente no caso do diesel.
Essa situação limita a capacidade do país de controlar os preços internos, já que uma parcela relevante do abastecimento continua sujeita às condições do mercado internacional.
Para o Ineep, ampliar os investimentos em refino é uma medida estratégica para fortalecer a segurança energética brasileira e reduzir a exposição às oscilações externas.
O instituto sustenta que uma maior capacidade de processamento nacional permitiria atender parcela mais ampla da demanda doméstica com produção própria, reduzindo custos associados à importação.
Campanha “Reestatiza, Brasil!”.
A Federação Única dos Petroleiros (FUP) lançou a campanha “Reestatiza, Brasil!”.
A iniciativa pretende ampliar o debate público sobre o papel das empresas estatais em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento econômico e social do país.
Segundo a entidade, a discussão envolve temas que afetam diretamente o cotidiano da população, como preços dos combustíveis, transporte, energia elétrica, abastecimento e custo de vida.

A coordenadora-geral da FUP, Cibele Vieira, destacou que o debate sobre reestatização está ligado à capacidade de planejamento de longo prazo e ao atendimento de necessidades coletivas.
“Setores estratégicos devem ser planejados levando em conta não apenas interesses econômicos, mas também necessidades sociais, segurança energética, desenvolvimento nacional e soberania”, afirmou.
Ela acrescenta que o tema não deve ser tratado apenas sob uma perspectiva política.
“A discussão sobre reestatização vai além da questão política. Trata-se de refletir sobre como áreas estratégicas podem contribuir para o desenvolvimento do Brasil e para a melhoria da qualidade de vida da população”, declarou.
Energia, soberania e custo de vida
A campanha da FUP pretende dialogar com trabalhadores, pesquisadores, movimentos sociais, comunicadores e a sociedade em geral.
Entre os principais pontos defendidos está a ideia de que a atuação do Estado em setores estratégicos pode contribuir para fortalecer o abastecimento nacional, preservar empregos, ampliar investimentos produtivos e enfrentar períodos de instabilidade internacional.
O debate também envolve a relação entre a estrutura do setor energético e o orçamento das famílias brasileiras.
Segundo a federação, decisões sobre produção, distribuição e comercialização de energia e combustíveis têm impacto direto sobre gastos cotidianos da população, influenciando preços do transporte, alimentos e diversos produtos de consumo.
Nesse contexto, a campanha utiliza o slogan “reestatizar é defender o Brasil e o orçamento das famílias”.
Segurança energética ganha relevância internacional
Os dados apresentados pelo Ineep e a campanha da FUP surgem em um cenário internacional marcado por disputas geopolíticas e incertezas no mercado energético.
Eventos recentes demonstraram como conflitos internacionais podem provocar oscilações abruptas nos preços do petróleo e dos combustíveis.
Para especialistas do setor, países com maior capacidade de refino e maior controle sobre sua infraestrutura energética tendem a possuir mais instrumentos para reduzir impactos dessas crises sobre a economia doméstica.
O Brasil ocupa posição de destaque entre os produtores mundiais de petróleo, especialmente após a expansão da produção no pré-sal.
Entretanto, o estudo do Ineep argumenta que o fortalecimento da cadeia de refino continua sendo um desafio para transformar essa capacidade produtiva em maior autonomia energética.
Os pesquisadores concluem que a ampliação dos investimentos em refino e a valorização do papel estratégico da Petrobras são elementos centrais para reduzir a dependência de importações, ampliar a segurança do abastecimento e oferecer maior estabilidade ao mercado interno.
O debate impulsionado pelo novo boletim e pela campanha da FUP coloca novamente em evidência a discussão sobre qual deve ser o papel do Estado na gestão de setores considerados fundamentais para o desenvolvimento econômico, a soberania nacional e a proteção da população diante das turbulências do cenário internacional.
