Relatório aponta R$ 5 bilhões em shows com dinheiro público

Investigação analisou mais de 20 mil contratos firmados entre 2024 e março de 2026 e identificou ligação entre artistas, bets, política e agronegócio
Estudo também chama atenção para a falta de transparência dos contratos públicos. Foto: Reprodução/De Olho nos Ruralistas

Um levantamento inédito do observatório De Olho nos Ruralistas revela que a indústria dos shows financiados por prefeituras e governos estaduais movimentou cifras muito superiores às conhecidas até agora. O relatório “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”, divulgado nesta semana, aponta que os cem artistas mais contratados pelo poder público desde janeiro de 2024 receberam, juntos, mais de R$ 5 bilhões em cachês. Saiba mais na TVT News.

A investigação, realizada ao longo de seis meses, compilou informações de mais de 20 mil contratos firmados até 31 de março de 2026 e conclui que o mercado de apresentações financiadas pelo Estado vai muito além da discussão sobre cachês milionários. Segundo os pesquisadores, trata-se de uma rede que envolve grandes produtoras musicais, casas de apostas esportivas, grupos ligados ao agronegócio e articulações políticas que ajudam a movimentar um dos maiores mercados culturais do país.

O estudo também chama atenção para a falta de transparência dos contratos públicos. Aproximadamente 40% das contratações identificadas não estavam disponíveis no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP). Para reconstruir o banco de dados, a equipe consultou milhares de documentos espalhados entre tribunais de contas, Ministérios Públicos estaduais, diários oficiais e portais de transparência de municípios e governos estaduais.

>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp

Segundo o relatório, somente entre os quarenta artistas mais contratados foram localizados 7.412 shows, dos quais apenas 63% apareciam no PNCP. Os demais precisaram ser identificados manualmente, evidenciando, na avaliação do observatório, uma espécie de “caixa-preta” na divulgação desses gastos públicos.

Quarenta artistas concentram mais de R$ 3 bilhões

Entre os cem artistas que receberam pelo menos R$ 25 milhões em recursos públicos, quarenta ultrapassaram a marca de R$ 50 milhões em contratos firmados entre 2024 e março de 2026. Sozinhos, eles acumulam R$ 3,08 bilhões, valor que se aproxima do recorde anual de captação da Lei Rouanet em 2025.

Os pesquisadores destacam, porém, que existe uma diferença importante entre os dois mecanismos. Enquanto os projetos aprovados pela Lei Rouanet utilizam incentivos fiscais e contemplam diversas linguagens artísticas, os recursos destinados aos shows analisados saem diretamente dos cofres públicos por meio de contratos realizados, em sua maioria, por inexigibilidade de licitação, modalidade prevista em lei para contratação de artistas consagrados.

O relatório questiona se esses valores são compatíveis com as prioridades orçamentárias de municípios que, muitas vezes, enfrentam dificuldades para financiar áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura.

Cinco produtoras dominam o mercado de shows

Outro destaque da investigação é a forte concentração do mercado de shows públicos.

Cinco produtoras nordestinas responderam por R$ 2,42 bilhões em contratos públicos envolvendo artistas que receberam mais de R$ 10 milhões desde 2024.

A líder absoluta é a Camarote Shows, empresa fundada por Wesley Safadão e seu irmão, responsável por aproximadamente R$ 701 milhões apenas entre os artistas do grupo principal e perto de R$ 1 bilhão quando considerados todos os contratos acima de R$ 10 milhões.

Na sequência aparecem:

  • Vybbe — R$ 522 milhões;
  • Tapajós — R$ 385 milhões;
  • Full — R$ 338 milhões;
  • M&P — R$ 251 milhões.

Essas cinco empresas administram boa parte dos artistas mais contratados pelo poder público. Segundo o estudo, 21 dos 40 maiores beneficiários pertencem ao casting dessas produtoras, incluindo oito dos dez primeiros colocados no ranking nacional.

Natanzinho lidera ranking de cachês

O maior beneficiário dos contratos públicos é Natanzinho Lima, que soma R$ 158 milhões em 336 apresentações realizadas ou contratadas desde janeiro de 2024.

O relatório mostra que a carreira do cantor teve crescimento meteórico após ingressar na Camarote Shows. Em janeiro de 2024 seu cachê era de aproximadamente R$ 25 mil. Pouco mais de um ano depois, apresentações chegaram à faixa de R$ 1 milhão, como ocorreu em um show contratado pela prefeitura de Mucajaí (RR).

Segundo os pesquisadores, a ascensão coincide com sua associação empresarial a Wesley Safadão e com ações de divulgação envolvendo plataformas de apostas esportivas.

Bets entram no circuito das festas

Uma das principais conclusões do relatório é que as casas de apostas se transformaram em agentes centrais da economia dos shows públicos.

Entre os quarenta artistas que mais receberam dinheiro de prefeituras e governos estaduais, 11 são patrocinados diretamente por bets, enquanto outros sete mantiveram parcerias em turnês ou projetos específicos.

Juntos, esses artistas movimentaram R$ 1,24 bilhão em contratos públicos.

Além dos artistas, as empresas de apostas passaram a patrocinar diretamente festas populares. O levantamento identificou 74 eventos em 44 municípios com presença oficial de bets. Somente nesses eventos, prefeituras e governos estaduais desembolsaram R$ 342 milhões para contratar artistas do chamado Top 40.

O relatório dedica capítulos específicos às relações entre plataformas de apostas e grupos tradicionalmente ligados ao jogo do bicho em Pernambuco, além da utilização de cantores como garotos-propaganda dessas empresas e até de rifas eletrônicas promovidas por influenciadores e artistas.

Relações políticas

A pesquisa também mapeia conexões entre artistas e lideranças políticas.

O relatório cita relações de Wesley Safadão, Xand Avião, Gusttavo Lima, Leonardo, Belo e outros artistas com prefeitos, governadores, parlamentares e dirigentes partidários, seja por meio de eventos públicos, agendas institucionais ou manifestações de apoio político durante apresentações.

Os pesquisadores também analisaram 3.391 contratos firmados em 2025 para verificar o perfil partidário das administrações contratantes.

Segundo o levantamento, 77% dos contratos envolvendo os quarenta artistas mais contratados partiram de prefeituras administradas por partidos classificados pelo estudo como pertencentes ao campo da direita, enquanto os partidos da base governista responderam pelos 23% restantes.

O observatório afirma que o objetivo não é questionar a realização de festas populares, mas ampliar a fiscalização sobre o uso dos recursos públicos e compreender como interesses econômicos privados, especialmente das bets e do agronegócio, passaram a influenciar esse mercado bilionário.

Os 20 artistas que mais receberam dinheiro público desde 2024

  1. Natanzinho Lima
  2. Henry Freitas
  3. Wesley Safadão
  4. Pablo
  5. Luan Pereira
  6. João Gomes
  7. Zé Vaqueiro
  8. Léo Santana
  9. Maiara & Maraisa
  10. Xand Avião
  11. Mari Fernandez
  12. Iguinho & Lulinha
  13. Nattan
  14. Simone Mendes
  15. Leonardo
  16. Belo
  17. Rey Vaqueiro
  18. Tarcísio do Acordeon
  19. Zezé Di Camargo
  20. Eduardo Costa

O relatório informa ainda que, após o encerramento da coleta de dados em março de 2026, Vítor Fernandes e Padre Fábio de Melo também ultrapassaram a marca de R$ 50 milhões em contratos públicos, indicando que a movimentação financeira do setor continua em expansão. Além da publicação do estudo, o De Olho nos Ruralistas anunciou a criação da editoria “De Olho no Dinheiro”, dedicada a acompanhar gastos públicos, financiamento privado e suas interfaces com a política, dando continuidade às investigações iniciadas pelo relatório.

Assuntos Relacionados