Samba semifinalista da Império Serrano homenageia “Heróis da Liberdade” de Silas de Oliveira

Com 4 sambas na semifinal, Império Serrano avança em disputa que celebra UNE, Oiticica e 80 anos da escola
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Império Serrano desfila com "Heróis da Liberdade" em 1969 – Foto: Reprodução

A escola de samba Império Serrano, do Rio de Janeiro, definiu na terça-feira (8) quatro sambas para a semifinal, os de número 01, 02, 08 e 12, de um total de sete composições apresentadas e julgadas até o momento. Entre os semifinalistas, o samba 02 homenageia o icônico “Heróis da Liberdade”. Leia em TVT News.

A próxima eliminatória acontece na terça-feira (15), quando mais seis concorrentes entram na disputa. Depois desta segunda eliminatória, as obras classificadas seguirão para as próximas etapas do concurso, até a definição final, no próximo dia 26, do samba que será cantado pela escola no Carnaval 2027.

Ao todo, 13 sambas foram inscritos para o concurso que definirá a obra que conduzirá pela Avenida o enredo “Seja Marginal, Seja Herói: A Revolução em sua Legítima Razão”.

A narrativa do Império Serrano para 2027 reúne os 90 anos da União Nacional dos Estudantes (UNE), celebrados no próximo ano; os 90 anos de nascimento do artista Hélio Oiticica; a resistência cultural e política durante a ditadura; a contracultura, o Cinema Novo, o teatro engajado e a música de protesto. A história chega ainda aos 80 anos da própria escola de Madureira.

Na primeira noite de apresentações, os quatro sambas classificados mostraram diferentes possibilidades de interpretação musical e poética para o enredo.

Entre eles, o samba nº 2, que retoma a história da própria escola e um dos sambas mais icônicos do mestre Silas de Oliveira: “Heróis da Liberdade”. O samba articula personagens, acontecimentos e símbolos da resistência brasileira em uma obra que busca contar uma história marcada pela repressão.

A parceria formada por Alex Ribeiro, Luiz Fernando, Marcio Juniot, Rodolfo Caruso, André Barros, Júnior Ribeiro e Maíra Santafé desenvolve uma narrativa que atravessa diferentes momentos do enredo.

Versos como “Mataram um estudante / Podia ser seu filho” aproximam a história de Edson Luís da dimensão humana da repressão, enquanto referências como “Caminhando e cantando / Seguindo a canção” e “Heróis da liberdade fazem a revolução” estabelecem diálogos com a memória das lutas políticas e culturais brasileiras e com a própria história do Império Serrano.

O samba retoma um episódio emblemático da história do Império Serrano o samba de 1969: “Heróis da Liberdade”.

Conheça a história do samba “Heróis da Liberdade”

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Império Serrano desfila com “Heróis da Liberdade” em 1969 – Foto: Reprodução

No Carnaval de 1969, o Império Serrano levou para a avenida um enredo que, em meio à repressão da ditadura militar, assumia um sentido que ia muito além da celebração da história brasileira.

Intitulado “Heróis da Liberdade”, o desfile homenageava personagens e movimentos ligados às lutas pela emancipação no país, passando pelos participantes das revoltas nativistas, pelos homens e mulheres livres de Palmares e pelos que participaram das lutas emancipatórias, abolicionistas e republicanas. A homenagem chegava ainda aos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira.

O contexto político tornava a escolha especialmente significativa. O desfile ocorreu pouco mais de dois meses depois da decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em dezembro de 1968, quando a ditadura ampliou seus instrumentos de repressão, censura e perseguição política.

Falar em liberdade naquele momento era também tocar em um dos temas mais sensíveis para um regime que havia fechado ainda mais os espaços de participação e expressão pública.

O samba-enredo de Silas de Oliveira, Mano Décio e Manoel Ferreira reforçava essa dimensão. Os versos evocavam estudantes, professores e jovens.

A letra fazia referência à força transformadora da juventude e terminava originalmente com a expressão “é a revolução em sua legítima razão”. O trecho, no entanto, foi censurado, e para que o samba-enredo fosse levado à avenida, os compositores tiveram de modificar o trecho, substituindo “revolução” por “evolução”.

Silas de Oliveira e Mano Décio foram convocados ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), órgão utilizado pela ditadura para investigar, perseguir e intimidar opositores e manifestações consideradas subversivas.

Segundo o relato sobre o episódio, ao ser questionado por um militar sobre o conteúdo de seus versos, Silas teria respondido que não tinha culpa de retratar a História e que não havia sido ele quem a escreveu.

Enfim, o samba saiu e desfilou. Durante um dos períodos mais críticos do regime, a Império Serrano falava em liberdade.

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