As declarações do secretário municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul, Mauro Roberto Chekin, provocaram forte reação de entidades públicas e movimentos ligados à inclusão após ele classificar a presença de pessoas com deficiência em atividades esportivas como um “problema” durante audiência pública realizada na Câmara Municipal. As falas, dirigidas especialmente a crianças autistas e pessoas com deficiência, foram consideradas capacitistas e discriminatórias pelo Ministério do Esporte e pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). Saiba mais na TVT News.
Durante a sessão de prestação de contas da pasta, Chekin afirmou: “Nós temos um problema muito grande com autista e qualquer deficiente”. Em seguida, relatou o caso de uma mãe que buscava matricular a filha em aulas de natação oferecidas pelo município. Segundo o secretário, a criança utilizava fralda, o que ele tratou como impedimento para a participação na atividade.
“Veio uma mãe que quis uma inclusão com a filha dela para ela ser incluída na aula de natação. A menina usa fralda. Como é que eu posso pôr a menina dentro da água de fralda?”, disse. Em outro trecho, afirmou que seria necessário orientar a família a adquirir uma fralda específica para piscina.
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As declarações prosseguiram em tom de rejeição à política de inclusão. “Hoje, com esse problema da inclusão social, que eu acho importante, acho que tem que ser feita, mas nós temos que tomar muito cuidado com os esportes”, declarou. Chekin também argumentou que nem todos os profissionais estariam preparados para atuar com pessoas com deficiência e disse que não se sente apto para esse trabalho.
“Eu entrei na piscina, saí da piscina e falei: se for para trabalhar desse jeito, não quero nunca mais voltar aqui. A minha condição psicológica e física é muito frágil para esse tipo de coisa”, afirmou.
Em outro momento, o secretário tentou se eximir da responsabilidade institucional ao dizer que a inclusão seria “dever do Estado”, mas não obrigação dele “como pessoa física”. A fala foi interpretada como tentativa de dissociar a função pública da responsabilidade legal e ética de garantir direitos.
A reação foi imediata. O Ministério do Esporte divulgou nota oficial em que repudiou “com veemência” as declarações, classificando-as como “profundamente capacitistas” e incompatíveis com os princípios constitucionais da dignidade humana, da inclusão e do respeito às pessoas com deficiência.
“O esporte brasileiro deve ser espaço de inclusão, diversidade, respeito e dignidade para todos”, afirmou a pasta federal. O ministério também anunciou que, por meio da Secretaria Nacional de Paradesporto, fará contato institucional com a Prefeitura de São Caetano do Sul para disponibilizar materiais informativos, orientações técnicas e acesso a programas federais voltados à inclusão.
A nota destacou ainda que o Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo no campo dos direitos das pessoas com deficiência, citando a Constituição Federal, a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e a Lei Brasileira de Inclusão. Segundo o ministério, nenhuma autoridade pública pode contribuir para a reprodução de preconceitos e estigmas.
Também o Comitê Paralímpico Brasileiro divulgou nota de repúdio, classificando a fala como “inadmissível” e reveladora de desconhecimento sobre o papel transformador do esporte. Para a entidade, a inclusão é um direito e um compromisso constitucional e civilizatório que deve ser promovido por todos os agentes públicos.
O CPB lembrou ainda que São Caetano do Sul possui relação histórica com o Movimento Paralímpico nacional. O município já foi polo de treinamento das seleções brasileiras de atletismo e natação paralímpicos antes da inauguração do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, na capital paulista. Além disso, diversos atletas paralímpicos ainda residem na cidade.
Na audiência pública, a vereadora Bruna Biondi (PSOL) rebateu o secretário e afirmou que o acesso de crianças com deficiência ao esporte não é facultativo nem depende da vontade individual de gestores ou profissionais.
“É parte da profissão, é parte da formação profissional, é parte do dever se aquele funcionário trabalha para o Estado. Ele não tem opção”, afirmou a parlamentar. Para ela, negar atendimento ou relativizar a inclusão configura discriminação.
Especialistas em educação inclusiva e no esporte adaptado apontam que o episódio expõe a necessidade urgente de formação continuada para servidores públicos e dirigentes esportivos. O capacitismo, prática estrutural baseada na inferiorização de pessoas com deficiência, segue presente em instituições que deveriam justamente promover cidadania e acesso universal.
Em nota, a Prefeitura de São Caetano do Sul afirmou possuir “compromisso histórico” com políticas públicas de inclusão e citou investimentos em saúde, educação, assistência social e esporte. A administração mencionou ainda a recente inauguração do Complexo Unificado de Inclusão, Desenvolvimento, Apoio e Reabilitação (Cuidar), além de parcerias com entidades como APAE, AACD e o próprio Comitê Paralímpico Brasileiro.
Apesar disso, a prefeitura declarou que “erros, apesar de imperdoáveis, são compreensíveis”, formulação que também gerou críticas nas redes sociais por minimizar a gravidade das declarações.
O caso reforça um debate central no país: inclusão não é concessão, favor ou escolha administrativa. Trata-se de direito assegurado em lei e condição básica para uma sociedade democrática. Quando um agente público chama esse direito de “problema”, o que se revela não é dificuldade das crianças com deficiência, mas a persistência de preconceitos que o poder público tem obrigação de combater.

