Nesta segunda-feira (22), o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, comunicou sua renúncia.
Em pronunciamento em frente à sede do governo em Downing Street, o líder afirmou que, após ouvir o Partido Trabalhista britânico, ao qual pertence, percebeu que não era a pessoa que deveria conduzir o Reino Unido à eleição nacional de 2029. Leia mais em TVT News.
Com a renúncia, espera-se que o poder passará para Andy Burnham ex-prefeito de Manchester. Burnham, que poderá ser o sétimo líder do país em um período de 10 anos, foi empossado hoje como membro do Parlamento – condição obrigatória para que possa se tornar candidato a premiê no partido Trabalhista.
O próximo primeiro-ministro será escolhido por seu partido, e Starmer pediu ao Comitê Executivo Nacional do Partido Trabalhista que estabeleça um calendário para sua substituição.
As novas nomeações para candidatos à substituição do ministro devem ocorrer entre 9 e 16 de julho, e a previsão é que o processo seja concluído até setembro, quando acaba o recesso de verão do Parlamento britânico.
Burnham foi muito aplaudido por congressistas do Partido Trabalhista ao chegar no parlamento, e há analistas que acreditam que ele pode ser o único candidato a substituit Starmer.
Renúncia de Starmer vem após meses de pressão
A renúncia do primeiro-ministro ocorreu após um período de aumento gradativo de pressão na sequência de péssimos índices de aprovação tanto para ele próprio quanto para o Partido Trabalhista.
O desgaste de Starmer aumentou ainda mais em fevereiro deste ano, com um vazamento de documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o caso do criminoso sexual Jeffrey Epstein.
Os documentos trouxeram novamente para o centro do debate a decisão de Stermer em nomear Peter Mandelson como embaixador nos EUA, ao trazer comprovação de que Mandelson e Epstein tinham uma relação próxima.
Uma derrota na eleição complementar de fevereiro, quando o Partido Trabalhista perdeu uma cadeira antes entendida como fácil de ganhar para o Partido Verde, contribuiu para que uma série de eleições locais que ocorreram em maio fossem considerados como um teste de fogo para o premiê.
Os resultados de maio, que foram péssimos – muito piores do que o partido esperava – fizeram com que vários ministros renunciassem aos seus cargos, entre eles Wes Streeting, secretário da Saúde.
A volta de Burnham à sede do parlamento em Westminster também foi incendiada por sua vitória na eleição parcial de Makerfield, onde conseguiu barrar o avanço do partido Reform UK, da extrema direita.
Insatisfação com Starmer vem da economia e questão migratória
A crise no mandato de Stermer também teve relação com as dificuldades do partido em entregar o crescimento econômico prometido nas últimas eleições, além dos problemas em promover a melhora de serviços públicos, a reforma do sistema de assistência social e a redução dos custos de vida.
O debate sobre a imigração é central no Reino Unido, com um fluxo de imigração que aumentou muito após a votação do Brexit – que acaba de completar 10 anos.
O Reform UK, partido de extrema direita que vem despontando como principal adversário dos Trabalhistas, colocou entre suas prioridades a criação de um órgão com a função específica de coordenar a deportação de imigrantes em situação irregular no país.
Eles também pretendem aprovar regras de “proteção à cultura britânica”, como normas impedindo a transformação de igrejas em mesquitas.
O líder do Reform UK, Nigel Farage, postou na rede X que Starmer seria o primeiro-ministro mais incompetente que o Reino Unido já teve, e que a “classe política” não pode continuar traindo seus eleitores. Ele citou temas em que os trabalhistas mudaram de posição e “decepcionaram seus eleitores”, como em relação a um subsídio de aquecimento para o inverno e níveis de imigração.
Farage também afirma que, se Burnham se tornar primeiro-ministro, ele representará uma continuidade das políticas de Starmer.
Burnham, integrante histórico do Partido Trabalhista, poderá representar uma mudança no parlamento caso alcance o poder. Vindo de uma ala mais à esquerda do partido, ele ganhou o apelido de “rei do Norte” com o crescimento econômico de Manchester após um período de austeridade fiscal conservadora.
A postura que ele afirma que irá levar para todo o país inclui uma descentralização do poder de Londres (a política do Reino Unido é uma das mais concentradas entre os países da OCDE) e o combate a ineficiências causadas por décadas de privatização e desregulação.
Marca desse combate é o Bee Network, um programa para a popularização do transporte público em Manchester que começou com autoridades locais tendo o poder de definir linhas, horários e preços e terminou com a aprovação da reestatização das empresas de ônibus da região.
Com as mudanças, o sistema se tornou sucesso de público e trunfo eleitoral, e teve parte de suas medidas reproduzidas em outros lugares do país.

