A política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sofreu nesta quarta-feira (3) um importante revés no Congresso norte-americano. A Câmara dos Representantes aprovou uma resolução que busca limitar os poderes do chefe da Casa Branca para conduzir operações militares contra o Irã sem autorização legislativa, em uma votação que expôs divisões dentro do próprio Partido Republicano e refletiu o aumento da insatisfação com a guerra iniciada em fevereiro. Saiba mais na TVT News.
A medida foi aprovada por 215 votos a 208. Embora os democratas tenham liderado a iniciativa, o resultado só foi possível graças ao apoio de quatro parlamentares republicanos — Thomas Massie, Brian Fitzpatrick, Tom Barrett e Warren Davidson — que romperam com a orientação do governo e votaram ao lado da oposição.
O texto determina que o presidente retire as forças armadas norte-americanas das hostilidades contra a República Islâmica do Irã e reafirma o papel constitucional do Congresso na autorização de conflitos armados. Na prática, a resolução busca impedir que Trump ordene novos ataques sem o aval dos parlamentares.
A aprovação representa uma derrota política significativa para a Casa Branca. Trata-se da quarta tentativa do Congresso de impor restrições à condução da guerra pelo governo, mas desta vez a iniciativa conseguiu superar a resistência republicana na Câmara.
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Embora a resolução ainda precise ser analisada pelo Senado, onde os republicanos mantêm maioria, o resultado da votação foi interpretado como um sinal de crescente desgaste da estratégia militar de Washington no Oriente Médio. O conflito, que começou após ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel contra o território iraniano em 28 de fevereiro, tornou-se cada vez mais impopular entre a população norte-americana.
Cresce a oposição à guerra
Nos últimos meses, parlamentares de ambos os partidos passaram a manifestar preocupação com os custos políticos, econômicos e humanos da escalada militar.
O deputado republicano Tom Barrett, um dos integrantes da base governista que apoiaram a resolução, justificou seu voto afirmando que a prerrogativa de declarar guerra pertence ao Congresso.
“Somente o Congresso declara guerra, isso é algo que certamente precisamos proteger”, declarou.
Questionado sobre possíveis represálias por parte de Trump, Barrett respondeu que vota de acordo com sua consciência e está disposto a assumir as consequências de sua decisão.
Do lado democrata, as críticas foram ainda mais contundentes. O deputado Gregory Meeks, principal integrante democrata do Comitê de Relações Exteriores da Câmara e autor da resolução, classificou o resultado como uma “repreensão bipartidária significativa” à condução da guerra.
Segundo Meeks, Trump não alcançou os objetivos anunciados pelo governo, enquanto contribuiu para o aumento dos preços dos combustíveis e dificultou uma solução diplomática para as divergências relacionadas ao programa nuclear iraniano.
“Cada vez mais republicanos estão ouvindo seus eleitores, que não querem outra guerra sem fim no Oriente Médio”, afirmou o parlamentar.
Integrantes democratas da Comissão de Relações Exteriores também celebraram o resultado, classificando a votação como uma mensagem clara de rejeição à guerra e defendendo o encerramento imediato das operações militares.
Guerra gera preocupações econômicas
Além das questões constitucionais envolvendo os poderes presidenciais, a ofensiva contra o Irã vem produzindo efeitos econômicos que preocupam congressistas de diferentes correntes políticas.
O fechamento do Estreito de Ormuz por Teerã, após os primeiros ataques norte-americanos e israelenses, provocou turbulências nos mercados internacionais de energia e contribuiu para a alta dos combustíveis.
Nos Estados Unidos, parlamentares vêm relatando crescente pressão de eleitores diante do aumento do custo de vida. Gregory Meeks chegou a afirmar que diversos republicanos enfrentam desgaste em seus estados devido à elevação dos preços da gasolina e dos alimentos.
O tema ganhou ainda mais relevância porque o país se aproxima das eleições legislativas de novembro, quando quase todas as cadeiras da Câmara e parte do Senado serão renovadas. Entre republicanos moderados, existe o temor de que a impopularidade da guerra se transforme em um passivo eleitoral para o partido de Trump.
Casa Branca tenta conter danos
Antes da votação, o presidente da Câmara, Mike Johnson, tentou convencer os parlamentares a rejeitar a proposta. Segundo ele, a resolução poderia enfraquecer a posição negociadora dos Estados Unidos e comprometer as conversas em andamento para encerrar o conflito.
Johnson argumentou que os objetivos militares da operação já teriam sido alcançados e que Trump precisa de liberdade para concluir um eventual acordo de paz.
A Casa Branca também sustenta que iniciativas para restringir os poderes do presidente na condução de operações militares seriam inconstitucionais, sinalizando que poderá recorrer ao Judiciário caso o Congresso avance com a medida.
Paralelamente, inspetores-gerais do Pentágono, do Departamento de Estado e da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional iniciaram uma revisão conjunta das operações militares. A investigação foi aberta porque a legislação norte-americana determina fiscalização específica quando conflitos ultrapassam 60 dias sem autorização formal do Congresso.
Negociações seguem em meio ao conflito
Apesar da derrota política sofrida na Câmara, Trump afirmou nesta quarta-feira que as negociações com o Irã avançam e podem produzir resultados nos próximos dias.
“Pode ser que aconteça no fim de semana”, declarou o presidente ao comentar a possibilidade de um acordo.
O governo norte-americano também sustenta que houve avanços nas discussões sobre o programa nuclear iraniano. Segundo Trump, Teerã teria demonstrado disposição para abrir mão da produção de armas nucleares, um dos principais pontos de tensão entre os dois países.
Ainda assim, a aprovação da resolução evidencia que cresce dentro do próprio Congresso a percepção de que a estratégia militar adotada pela Casa Branca carece de legitimidade política e constitucional. Mesmo que a proposta enfrente obstáculos no Senado ou venha a ser contestada judicialmente, a votação marca um momento importante de desgaste para Trump e sinaliza que parte de sua base já não acompanha de forma automática as decisões do governo na política externa.
O resultado também reforça o debate sobre os limites do poder presidencial em tempos de guerra e demonstra que a ofensiva contra o Irã, longe de consolidar apoio interno, passou a alimentar questionamentos cada vez mais amplos dentro das instituições norte-americanas.

