Fim da escala 6×1 é possível: tire suas dúvidas sobre o tema

Estudos e números mostram que é possível acabar com a escala 6x1. A redução da jornada caminha no Congresso
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Fim da escala 6×1: estudo aponta que redução da jornada pode gerar 4,5 milhões de empregos. Foto: Agência Brasil

É possível acabar com a escala 6×1? O que é a escala 6×1? A TVT News tira suas dúvidas sobre o tema que está tomando conta do Brasil.

O que é o fim da escala 6×1?

O debate sobre o fim da escala 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos para folgar apenas um — está no centro da discussão nacional.

A proposta é uma bandeira histórica da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e demais centrais sindicais, que apontam ganhos concretos:

  • Melhoria na qualidade de vida
  • Redução do adoecimento e do absenteísmo
  • Aumento da produtividade
  • Estímulo ao consumo
  • Possível geração de novos empregos

Levantamento da Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados, mostra que 73% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1, desde que não haja redução salarial. Ou seja: a sociedade entende que trabalhar para viver é diferente de viver para trabalhar.

Quais os impactos do fim da escala 6×1?

De acordo com nota técnica do Institto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), o impacto econômico do fima da escala 6×1 é mínimo:

  • Na indústria e no comércio, o custo operacional adicional seria inferior a 1%.
  • redução da jornada para 40 horas semanais elevaria o custo do trabalho celetista em média 7,84%, mas, considerando o peso da mão de obra no custo total dos setores, o impacto se dilui.
  • Mesmo em setores com alta dependência de mão de obra, como vigilância e limpeza, o impacto é administrável e pode ser enfrentado com políticas de transição.

O próprio Ipea destaca que aumento de custo do trabalho não significa automaticamente queda na produção ou aumento do desemprego.

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Um estudo do Dieese, encomendado pela Contraf-CUT, aponta que a implementação da jornada de quatro dias, entre os bancários que hoje realizam a jornada média de 37 horas semanais, teria o potencial de criar mais de 108 mil vagas no setor, ou 25% do total de vagas que existem atualmente.

“O fim da escala 6×1 pode gerar mais empregos e garantir ao trabalhador tempo para estudar, cuidar da saúde e ter lazer”, afirmou o secretário-geral da CUT, Renato Zulato

Para ele, reduzir jornadas exaustivas é uma medida concreta para abrir vagas e permitir que trabalhadores tenham tempo para qualificação e convivência familiar. “Não se trata apenas de tecnologia, mas de qualidade de vida”, afirmou, ao defender mudanças estruturais.

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Argumentos contra o fim da escala 6×1 lembram a retórica das elites escravocratas contra a abolição. Foto: Letycia Bond/Agência Brasil

Já um estudo divulgado em 2024 pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou que a Inteligência Artificial (IA) afetará 60% dos empregos em todo o mundo: metade de forma positiva e metade de forma negativa, ou seja, eliminando a participação humana em vários setores.

Renato Zulato também alertou para os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho. Segundo ele, a transformação digital já altera rotinas produtivas e pode ampliar desigualdades se não houver políticas públicas de qualificação.

“Estamos vivendo a era da inteligência artificial. Se não houver reflexão e políticas de inclusão, parte da população será excluída dos novos processos produtivos e sociais”, disse o secretário geral da CUT.

É possível acabar com a escala 6×1?

Pesquisa da Unicamp corrobora visão do governo Lula, que defende modernização das relações de trabalho como parte da agenda de desenvolvimento social e econômico.

Fim da escala 6×1: estudo aponta que redução da jornada pode gerar 4,5 milhões de empregos

Um levantamento da economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostra que a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 36 horas, com o fim da escala 6×1, tem potencial de gerar até 4,5 milhões de novos empregos no Brasil e elevar em cerca de 4% os níveis de produtividade no país. Saiba mais na TVT News.

O estudo faz parte do Dossiê 6×1, documento elaborado por 63 autores — entre professores, pesquisadores, auditores fiscais do Trabalho e representantes sindicais — que reúne 37 artigos sobre os impactos econômicos e sociais da medida.

A conclusão central do dossiê é direta: o Brasil está pronto para trabalhar menos. O diagnóstico contraria projeções pessimistas do mercado e derruba o argumento de que a mudança poderia provocar queda no PIB ou agravar a insolvência das empresas.

“Não vai ser agora, com avanços tecnológicos, num contexto de pleno emprego, com crescimento econômico e o nível de tecnologia que temos, que não vai ser possível no Brasil reduzir para 40 horas”, afirma Marilane Teixeira.

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A pesquisa feita nas 27 unidades da Federação, entre os dias 30 de janeiro e 5 de fevereiro mostra que o brasileiro apoia o fim da escala 6×1. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

O que os dados mostram sobre o fim da escala 6×1

Com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE, o dossiê revela que aproximadamente 21 milhões de trabalhadores brasileiros cumprem jornada superior às 44 horas previstas na CLT. Outros 76,3% das pessoas ocupadas no país trabalham mais de 40 horas por semana — o que derruba a narrativa de que o brasileiro trabalha pouco.

A pesquisadora também chama atenção para os custos humanos da sobrecarga: em 2024, o Brasil registrou meio milhão de afastamentos por doenças psicossociais decorrentes de condições desfavoráveis no trabalho — apenas no emprego formal.

A redução da jornada atingiria diretamente 76 milhões de trabalhadores caso a escala 4×3 seja adotada, e beneficiaria cerca de 45 milhões na hipótese de migração para a jornada de 40 horas semanais em escala 5×2. 

Ipea diz que é possível acabar com a escala 6×1

O estudo da Unicamp se soma a outras análises que sustentam tecnicamente a posição do governo. Uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicada em fevereiro de 2026, concluiu que os custos da redução da jornada para 40 horas seriam comparáveis aos de reajustes históricos do salário mínimo — medidas que não geraram desemprego. Nos grandes setores empregadores, como indústria e comércio, o impacto no custo operacional seria inferior a 1%.

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Protesto pelo fim da escala 6×1. Fotos: Paulo Pinto/Agência Brasil e Tomaz Silva/Agência Brasil

Quando a escala 6×1 vai acabar?

A PEC 148/2015, sobre o fim da escala 6×1, foi aprovada no dia 10 de dezembro do ano passado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas ainda precisa passar por duas votações no plenário do Senado e duas na Câmara, com voto favorável de, pelo menos, 49 senadores e 308 deputados.

Se aprovada, o fim da escala 6×1 ocorrerá de forma gradual. No primeiro ano, serão mantidas as regras atuais. No ano seguinte, o número de descansos semanais subirá de um para dois. Atualmente, a jornada máxima semanal de trabalho é de 44 horas mas, a partir de 2027, poderá cair para 40 horas.

O teto final será de 36 horas por semana de 2031 em diante. Anteriormente, o que se previa era que os empregadores não poderiam reduzir a remuneração dos trabalhadores para compensar o novo tempo de descanso. Esse ponto deverá ser votado pelo Congresso Nacional.

Motta quer votar PEC do fim da escala 6×1 até maio

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou, no início de fevereiro, que pretende incluir a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 — regime em que o trabalhador cumpre seis dias trabalhados e apenas um de descanso — na pauta de votações ainda nos próximos meses, com expectativa de votação em plenário até maio de 2026. 

Em suas redes sociais, Motta destacou a abertura de um “debate amplo” sobre o fim da escala 6×1, que tem gerado intensas discussões entre trabalhadores, empregadores e representantes sindicais. “Vamos ouvir todos os setores com equilíbrio e responsabilidade para entregar a melhor lei para os brasileiros”, escreveu o presidente da Câmara, enfatizando a importância de amadurecer a proposta antes da votação.

Governo avança na discussão do fim da escala 6×1

A mudança na jornada de trabalho é uma das prioridades do governo para 2026. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido enfático ao defender a reforma, associando-a diretamente às transformações tecnológicas das últimas décadas.

“Com os avanços tecnológicos que o Brasil teve, acha que é necessário as pessoas trabalharem na mesma jornada que trabalhavam há 40 anos?”, questionou o presidente, em entrevista no início do mês. “Um jovem, uma menina, não quer mais se levantar às 5h da manhã e ficar até 6h da noite dentro de uma fábrica pegando ônibus lotado. Com o avanço tecnológico, a produção aumentou muito.”

Para Lula, o debate exige diálogo amplo e transparente. “Essa não é uma tarefa só do governo. O governo tem que estabelecer uma discussão com o Congresso, com o empresariado e com os trabalhadores e fazer aquilo que é possível. O dado concreto é que está na hora de a gente fazer uma mudança na jornada para que o povo tenha mais tempo de estudar, de pensar”, afirmou.

Acabar com a escala 6×1 é prioridade do governo, afirma Boulos

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, voltou a afirmar que acabar com a escala 6×1 é uma das principais prioridades do governo federal este ano.

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, tem liderado o diálogo com o Congresso e garantiu, em janeiro, que há avanços concretos nas negociações para votação ainda no primeiro semestre do ano.

“A proposta que estamos construindo, defendida pelo presidente Lula e pelo nosso governo, é de, no máximo, 5×2, 40 horas semanais, sem redução de salário. Esta é a proposta que está sendo desenhada para todos os setores da economia no Brasil, por uma questão de dignidade dos trabalhadores”, disse Boulos.

O ministro também apresentou evidências internacionais: a Islândia, ao reduzir sua jornada para 35 horas em 2023, registrou crescimento econômico de 5% e aumento de 1,5% na produtividade do trabalho. No Japão, um programa da Microsoft com escala 4×3 elevou em 40% a produtividade individual dos funcionários. No Brasil, pesquisa da FGV com 19 empresas que reduziram a jornada mostrou que 72% delas registraram aumento de receita.

O Brasil reduziu a jornada de trabalho na Constituição de 1988

A última vez que o Brasil reduziu a jornada legal foi na Constituição de 1988, quando o limite caiu de 48 para 44 horas semanais — mudança implementada em plena “década perdida”, com a economia em recessão, inflação alta e desemprego elevado. “Mesmo assim, as empresas não quebraram, nem se gerou desemprego”, afirma Marilane Teixeira.

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Erika Hilton e o presidente do Sindcato dos Metalúrgicos do ABC, Moisés Selerges. Fim da escala 6×1 é demanda histórica da classe trabalhadora. Foto: Adonis Guerra

A escala 6×1 vai acabar, afirma a deputada Erika Hilton

Nos últimos dias, partidos de direita e grandes empresários estão atacando a proposta do fim da escala 6×1. A deputada federal Erika Hilton declarou nas redes sociais que “essas pessoas vão falhar e o fim dessa exploração vai se tornar realidade”.

Durante sessão na Câmara dos Deputados, Erika Hilton falou diretamente para os trabalhadores que estão na escala 6×1.

“Quero me dirigir aos trabalhadores do Brasil. Quero falar com aqueles que acompanham a gente pela TV Câmara ou que depois assistirão esses conteúdos: trabalhadores de shopping, trabalhadores da farmácia, trabalhadores de supermercados, trabalhadores de bares e todos os trabalhadores que ainda estão na escala 6×1”

Erika diz que as pessoas perguntam para ela quando vai acabar a escala 6×1, que, segundo ela, é um massacre dos trabalhadores.

“Ao rodar este Brasil nos abordam nas lojas, nos abordam nos aeroportos, nos abordam no comércio perguntando: ‘Deputada Erika, quando é que essa escala vai acabar?’ Nós estamos criando um cordão e essa escala vai acabar. Nós iremos fazer com que o Congresso Nacional, a Câmara dos Deputados, consiga compreender que é inadmissível que o trabalhador brasileiro continue a ser massacrado na escala 6×1

Quem defende família e religiosidade deveria defender o fim da escala 6×1, afirma Erika Hilton

Erika Hilton critica parlamentares que são conta o fim a escala 6×1, mas pregam a defesa da família e da religiosidade.

“Dizem muito sobre como o trabalho dignifica. Mas será mesmo que um trabalho que você não tem tempo de descanso, que um trabalho que você não tem tempo com a sua família, que um trabalho que você recebe uma remuneração que no fim do mês mal dá para pagar suas contas, pode estar atrelado ao debate da dignidade?

“Há aqueles que são contra a redução da jornada de trabalho, contra o fim da escala 6×1, defendem família, defendem a religião. Mas quando a gente vai pras ruas, para as manifestações, o que mais nós escutamos são mulheres, em sua grande maioria mães, que dizem: ‘Deputada, eu não vi meu filho crescer. Deputada, eu não consigo frequentar uma reunião da escola. Deputada, eu não tenho tempo para conviver com a minha família’ “, relata Erika.

A deputada pergunta: “que defesa de fé, que defesa de família é essa a qual nós ainda estamos aprisionando e obrigando o trabalhador brasileiro a manter numa escala desumana, sem dignidade?”

Para esses trabalhadores, a deputada traz esperança. “Trabalharemos noite e dia de maneira incansável até que todos os trabalhadores do território nacional tenham direito ao descanso, tenham direito ao convívio com a sua família, tenham direito à religiosidade. As pessoas não têm direito à religiosidade”, afrma Erika.

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Fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho sem redução de salários: pautas históricas do movimento sindical. Foto: Adonis Guerra

Fim da escala 6×1 exige mobilização nas ruas, diz Moisés Selerges

A reação do setor empresarial contra o fim da escala 6×1 e a adoção do modelo 4×3 sem redução salarial ganhou novo capítulo nos últimos dias. Após reportagem da Folha de S.Paulo afirmar que o brasileiro trabalha menos que a média mundial, o vereador Rick Azevedo classificou a abordagem como “rasa e irresponsável”, acusando o jornal de ignorar informalidade, horas extras não pagas e longos deslocamentos. Leia em TVT News.

Para comentar a ofensiva patronal e o debate no Congresso, o Jornal TVT News Primeira Edição entrevistou Moisés Selerges, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Em tom direto, Selerges afirmou que a resistência à redução da jornada revela a permanência de uma cultura elitista no país. “Um país que teve mais de 300 anos de escravidão não dá valor ao trabalho. Sempre há resistência da elite contra projetos que beneficiem os trabalhadores, seja jornada, remuneração ou condições de trabalho”, declarou.

Para o dirigente sindical, a manchete que compara horas trabalhadas entre países desconsidera a realidade concreta da classe trabalhadora brasileira. “Pega número cru e ignora informalidade, hora extra não paga, jornada estendida, três horas de transporte por dia. Isso não é debate sério”, criticou, ecoando a avaliação de Rick Azevedo.

Selerges também rebateu a narrativa de que a redução da jornada levaria empresas à falência. Ele lembrou que a última redução ocorreu na Constituição de 1988 e que, de lá para cá, houve avanços tecnológicos e ganhos de produtividade. “Os países desenvolvidos têm jornadas menores e não deixaram de ser desenvolvidos por isso. Na Alemanha, por exemplo, são 36 horas semanais e não teve empresa quebrando”, afirmou.

Segundo ele, a produtividade é responsabilidade do empresariado. “Patrão tem que investir em equipamento, financiar estudo, dar melhores condições. O trabalhador já acorda de madrugada, pega ônibus lotado, enfrenta patrão mal-educado e muitas vezes sai do emprego formal para dirigir aplicativo à noite”, disse, ressaltando ainda a sobrecarga das mulheres, que acumulam trabalho remunerado e cuidados domésticos.

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