A alta recente no valor do diesel no Brasil é resultado de distorções estruturais no mercado de combustíveis, apesar das medidas adotadas pelo governo Lula, que zerou tributos federais para tentar conter os preços e minimizar os impactos da elevação das cotações internacionais do petróleo decorrentes da guerra no Oriente Médio. A avaliação é da Federação Única dos Petroleiros (FUP), que há anos alerta para as consequências de políticas implementadas em governos anteriores. Leia em TVT News.
Para a diretora da FUP, Cibele Vieira, o cenário atual é consequência direta da falta de controle público sobre a cadeia de combustíveis e da dependência externa. “A Petrobras pode equilibrar preços na refinaria, mas não controla o que acontece depois. Sem distribuição pública e com parte do diesel sendo importado, abre-se espaço para aumentos abusivos ao longo da cadeia”, afirma.
Segundo a Federação, o problema se agravou a partir de 2016, com a adoção do Preço de Paridade de Importação (PPI) no governo Michel Temer, política mantida no governo Jair Bolsonaro. O modelo vinculava os preços internos ao mercado internacional, mesmo com o Brasil sendo importante produtor de petróleo.
>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp
A política foi alterada a partir de 2023, quando a Petrobras passou a adotar uma estratégia mais flexível, buscando reduzir a volatilidade e proteger o mercado interno. Ainda assim, a FUP lembra que a empresa não tem alcance sobre o preço final ao consumidor.
Para tentar conter altas ao consumidor, em meio à guerra, o governo federal isentou impostos sobre o diesel (PIS e Cofins) em 12/03. Em 13/03, a Petrobras reajustou o preço do produto; e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) divulgou preços da semana de 08/03 a 14/03 – os últimos apurados, ainda sem captar os impactos das novas medidas governamentais.
Segundo a ANP, as variações médias de preços, na bomba, da semana de 01/03 a 07/03 para 08/03 a 14/03 foram: Gasolina subiu 2,5%, óleo diesel S500 aumentou 11,8% e o S10 mais 12%.
Levantamentos realizados pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), com base em dados da ANP, entre 5 de janeiro e 9 de março de 2026, evidenciam o impacto dos diferentes modelos de precificação no mercado brasileiro de combustíveis.
Enquanto o diesel da Petrobras permaneceu estável em R$ 3,30 durante todo o período, o preço baseado no PPI saltou de R$ 3,19 para R$ 5,32. Já as refinarias privatizadas acompanharam a disparada: a Acelen (Bahia) passou de R$ 3,31 para R$ 5,02 e a Ream (Amazonas) de R$ 3,70 para R$ 5,70.
Para o coordenador-geral da FUP, Deyvid Bacelar, os dados escancaram os riscos da privatização no setor energético. “Esse levantamento mostra, de forma concreta, o que está em jogo quando se abre mão do controle público de áreas estratégicas como a energia. Enquanto a Petrobras busca proteger o país das oscilações internacionais, empresas privadas repassam imediatamente qualquer alta ao consumidor, visando ampliar margens de lucro. É a prova de que a soberania energética impacta diretamente no bolso da população e na estabilidade da economia”, afirma.
Bacelar alerta para os efeitos em cadeia do aumento do diesel sobre a economia. “Quando o diesel sobe, não é só o combustível que encarece, mas também o transporte, os alimentos, a inflação. O aumento se espalha por toda a economia”.
Os dados evidenciam que, mesmo com a mudança na política de preços da Petrobras, os valores finais seguem pressionados por agentes privados ao longo da cadeia.
Segundo o dirigente da FUP, isso ocorre porque o Brasil ainda importa entre 20% e 25% do diesel consumido, devido à falta de investimentos no refino e à venda de refinarias nos últimos anos. Além disso, a privatização da BR Distribuidora – hoje controlada pela Vibra Energia – retirou da Petrobras a capacidade de atuar diretamente na distribuição.
Via FUP

