50 anos do golpe militar na Argentina: a ditadura que Milei quer passar pano

Na Argentina, 24 de março é um dia de luto, marchas e disputa política
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Um homem segura uma placa enquanto pessoas se reúnem na Praça de Maio, em Buenos Aires, em 23 de março de 2026, para participar de uma vigília um dia antes do 50º aniversário do golpe militar que instaurou a ditadura militar (1976-1983). (Foto de Luis Robayo / AFP)

O dia 24 de março lembra os 50 anos do golpe de estado que mergulhou a Argentina numa das ditaduras mais sangrentas da América do Sul. Ao invés de usar a data para lembrar os horrores de um regime militar, o governo de extrema direita de Javier Milei quer mutilar a história das torturas, prisões ilegais e mortes. É o risco de ter governos de extrema direita, sem compromissos com a memória e com a verdade. Leia em TVT News.

Argentina recorda dolorosa história da ditadura, que Milei deseja revisar

Por Leila MACOR, da AFP em Buenos Aires, Argentina

Na Argentina, 24 de março é um dia de luto, marchas e disputa política. Cinquenta anos após o golpe de Estado, milhares de pessoas voltam às ruas nesta terça-feira para lembrar as vítimas de uma ditadura que o governo do líder de extrema direita Javier Milei busca reavaliar.

Sob o lema “Nunca Mais” — uma frase que definiu gerações —, grupos de direitos humanos, sindicatos e organizações sociais convocaram uma marcha em Buenos Aires, instando os participantes a levarem fotografias dos “desaparecidos”. A mobilização tem a Praça de Maio como principal ponto.

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Organizações de direitos humanos calculam em 30 mil o número total de pessoas que desapareceram durante a ditadura.

As Mães e Avós da Praça de Maio lideram a marcha, dando continuidade a uma tradição iniciada durante a ditadura, quando começaram a se reunir para exigir informações sobre o paradeiro de seus filhos.

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Símbolo da incansável luta por memória e justiça, Rosa Roisinblit deixa um legado de 140 netos recuperados e a esperança de que a busca continue. Foto: Martín Rosenzveig

A busca continua. Na província central de Córdoba, a Justiça identificou recentemente os restos mortais de 12 indivíduos descobertos no ano passado em um antigo centro de detenção clandestino.

“Achávamos que, depois de alguns dias de tortura, as pessoas reapareceriam. Mas isso não aconteceu”, disse à AFP Miriam Lewin, jornalista de 68 anos que tinha 19 no dia do golpe.

Ela vivia na clandestinidade quando, em 1977, foi sequestrada, torturada e, por fim, transferida para a Escola de Mecânica da Armada (ESMA) — um dos principais centros de detenção clandestinos do regime, que hoje funciona como um sombrio museu em Buenos Aires.

“Assim como nos campos nazistas, aqueles que possuíam uma habilidade específica eram os que sobreviviam”, relata. A sua era redigir notas e traduzir textos. “Vivíamos em meio aos gritos de tortura, mantendo, ao mesmo tempo, uma rotina quase como a de um trabalho de escritório”.

O golpe cívico-militar de 1976 derrubou Isabel Perón e instaurou uma ditadura que governou até 1983, levando a desaparecimentos, torturas, sequestro de bebês, além de forçar milhares ao exílio.

Memória e disputa política sobre a ditadura na Argentina

Cinquenta anos depois, 1.208 pessoas foram condenadas em mais de 350 julgamentos; no entanto, mais de 300 casos permanecem em aberto.

As Avós da Praça de Maio restituíram a identidade de 140 netos sequestrados ainda bebês ou que nasceram em cativeiro; estima-se que mais de 300 ainda estejam desaparecidos.

“A condenação à ditadura — e do plano sistemático de perseguição, tortura e desaparecimento forçado — permanece forte entre a maioria da população argentina”, disse à AFP o cientista político Iván Schuliaquer, da Universidade Nacional de San Martín.

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Fotos de pessoas desaparecidas durante a ditadura argentina (1976-1983) são exibidas no antigo centro de detenção clandestino da Escola da Marinha (ESMA) em Buenos Aires, em 18 de março de 2026. Os sobreviventes da ditadura argentina de 1976-1983 representam uma geração dizimada, cujas histórias de tortura, morte e exílio voltam à tona 50 anos após o golpe. (Foto de Luis Robayo / AFP)

Contudo, este aniversário encontra os argentinos imersos em uma batalha política sobre a forma como a violência é narrada, após o presidente Milei ter questionado consensos firmemente estabelecidos desde o retorno da democracia.

O governo calcula o número de desaparecidos em menos de 9.000; sustenta que os anos da ditadura constituíram uma guerra na qual excessos foram cometidos por ambos os lados e minimiza o papel da ditadura militar, caracterizando-a meramente como parte em um confronto com organizações armadas.

Em 2025, a Casa Rosada divulgou um vídeo nessa linha, no qual o escritor e figura da extrema direita Agustín Laje afirma que a história tem sido ensinada de maneira “maniqueísta e reducionista”. Este ano, planeja lançar um vídeo defendendo o que denomina “a verdade e justiça completa”.

A maioria da sociedade, no entanto, não parece aderir a essa narrativa. Um estudo recente realizado pela Universidade de Buenos Aires (UBA) e pelo Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) — baseado em 1.136 entrevistados de todo o país — revelou que sete em cada dez argentinos condenam a ditadura militar.

Às vésperas do aniversário, especialistas da ONU instaram o governo Milei a “cessar as ações que corroem o legado histórico”, enquanto os bispos argentinos fizeram um apelo para que não se “mutile a história”.

“Algo fundamental dentro do pacto democrático foi rompido sob este governo”, disse Schuliaquer. No entanto, o movimento de direitos humanos “possui uma capacidade de mobilização discursiva e nas ruas além de visibilidade pública sem concorrentes do mesmo nível”.

Filme sobre a ditadura militar na Argentina

O período ditatorial na Argentina começou com um golpe militar em junho de 1966 e durou sete anos, até 1973, com a volta do peronismo ao poder.

Argentina, 1985 (2022)

É inspirado na história verídica de Julio Strassera, Luis Moreno Ocampo e sua equipe de jovens juristas, heróis improváveis que travam uma batalha de Davi e Golias na qual, sob ameaças constantes e contra toda as possibilidades, ousam processar a ditadura militar mais sangrenta da Argentina e embrenham-se numa corrida contra o tempo para fazer justiça às vítimas dos militares. (Prime Video)

Dirigido por Santiago Mitre, com Ricardo Darín, Peter Lanzani e Alejandra Flechner

Assista no Prime Video

Veja também sobre ditaduras na América do Sul

Chile

A ditadura militar no Chile teve início em setembro de 1973, com a deposição forçada do presidente Salvador Allende. O golpe de Estado foi liderado por Augusto Pinochet, que governou o país com punho de ferro por 15 anos. 

No! (2012)

Chile, 1988. Pressionado pela comunidade internacional, o ditador Augusto Pinochet aceita realizar um plebiscito nacional para definir sua continuidade ou não no poder. Acreditando que esta seja uma oportunidade única de pôr fim à ditadura, os líderes do governo resolvem contratar René Saavedra para coordenar a campanha contra a manutenção de Pinochet. Com poucos recursos e sob a constante observação dos agentes do governo, Saavedra consegue criar uma campanha consistente que ajuda o país a se ver livre da opressão governamental. (AdoroCinema)

Dirigido por Pablo Larraín, com Gael García Bernal, Antonia Zegers, Alfredo Castro

Assista na Netflix

Uruguai

O golpe militar no Uruguai teve início em 1973 e terminou em 1985. Foram 12 anos de violência e repressão contra a população.

Uma noite de 12 anos (2018) 

José Mujica, Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro são militantes dos Tupamaros, grupo que luta contra a ditadura militar local. Eles são presos em ações distintas e encarcerados junto a outros nove companheiros, de forma que não possam sequer falar um com o outro. Ao longo dos anos, o trio busca meios de sobreviver não só à tortura, mas também ao encarceramento que fez com que ficassem completamente alheios à sociedade, sem a menor ideia se um dia seriam soltos. (AdoroCinema)

Dirigido por Álvaro Brechner, com Antonio de la Torre, Chino Darín, Alfonso Tort

Assista na Netflix

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