Endividamento das famílias atinge 80,4% e governo Lula estuda novas medidas

Com crescimento das dívidas, governo Lula avalia nova fase do Desenrola, uso do FGTS e crédito mais barato para aliviar orçamento das famílias
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Governo Lula estuda retorno do Desenrola e outras medidas para diminuir o endividamento das famílias. - Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

O alto nível de endividamento das famílias brasileiras segue como uma preocupação central do governo Lula desde o início do mandato. Um dos principais sinais dessa preocupação foi a criação do programa Desenrola Brasil, que beneficiou mais de 15 milhões de pessoas, com a renegociação de R$ 51,7 bilhões em dívidas em todo o país. Mais informações em TVT News.

Apesar dos esforços do governo federal, o volume de endividados ainda é elevado. Dados do levantamento produzido mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostram que o percentual de famílias com dívidas alcançou 80,4% em março de 2026. O índice supera tanto o registrado no mesmo período do ano passado, de 77,1%, quanto o de fevereiro deste ano, quando estava em 80,2%, indicando uma tendência persistente de alta no comprometimento da renda das famílias brasileiras.

Diante do desafio de aliviar o orçamento da população, o governo estuda a adoção de novas medidas. Na manhã desta terça-feira (7), o presidente se reuniu com ministros no Palácio do Planalto para discutir alternativas. O foco das ações está voltado principalmente para a população de baixa renda e também para pessoas adimplentes que, embora estejam com as contas em dia, apresentam alto comprometimento da renda com empréstimos e financiamentos.

Entre as alternativas em análise está a retomada do Desenrola, desta vez com foco exclusivo nos mais pobres, além da possibilidade de permitir a migração de consumidores com empréstimos ativos para linhas de crédito com juros mais baixos, o que poderia reduzir o peso das parcelas no orçamento mensal.

Recursos perdidos para enfrentar o endividamento das famílias

Para garantir a adesão das instituições financeiras às medidas, o governo avalia o uso de recursos do Fundo Garantidor de Operações, que serviria como uma espécie de garantia para os bancos, incentivando a concessão de descontos nas renegociações. Para reforçar esse fundo, está em estudo a utilização de recursos esquecidos em contas bancárias, atualmente estimados em cerca de R$ 10,5 bilhões.

Com esse mecanismo, a lógica é que, quanto maior for a participação dos bancos nas renegociações e maior a oferta de condições facilitadas aos consumidores, maior também será o acesso dessas instituições às garantias oferecidas pelo governo federal em novas operações de crédito. Na prática, isso pode resultar em descontos de até 80% para quem busca renegociar dívidas.

Outra medida em discussão, considerada mais polêmica, é a liberação de recursos do FGTS para quitação de dívidas. A proposta enfrenta resistência porque o uso do fundo para esse fim pode comprometer outras finalidades importantes, como a aquisição da casa própria e o acesso ao recurso em casos de demissão sem justa causa. Além disso, há preocupação com a sobreposição com o chamado crédito do trabalhador, que já utiliza o FGTS como garantia em caso de inadimplência.

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Governo estuda liberar FGTS para auxiliar na redução do endividamento das famílias. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Pequenas empresas e microempreendedores individuais (MEIs) também estão no radar do governo. A equipe econômica trabalha na criação de uma espécie de “Desenrola”, voltado à renegociação de dívidas empresariais. A minuta de uma Medida Provisória já foi elaborada pelo Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte e deve ser analisada em breve.

Apesar das iniciativas, especialistas apontam que o alto nível de endividamento está diretamente ligado ao patamar elevado dos juros no país. Mesmo com o início do ciclo de queda da Taxa Selic — atualmente em 14,75% ao ano —, o custo do crédito segue alto, enquanto a inflação ainda apresenta resistência, influenciada por fatores internos e externos, como conflitos internacionais.

Com a redução do poder de compra, muitas famílias acabam recorrendo ao crédito até mesmo para despesas básicas, tornando-se dependentes de modalidades mais caras, como o rotativo do cartão de crédito, que possui taxas significativamente elevadas.

Diante desse cenário, o governo também avalia medidas preventivas, como a ampliação de programas de educação financeira e incentivo ao consumo consciente. Entre as propostas está a criação de mecanismos para conter o endividamento relacionado a apostas online — as chamadas “bets”. Uma das ideias em estudo é implementar um tipo de restrição para impedir que pessoas que tenham contraído empréstimos para quitar dívidas possam realizar apostas, como forma de evitar o agravamento da situação financeira dessas famílias.

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