Dark Horse virou “pangaré”, diz Miguel Stédile sobre escândalo que pode implodir Flávio Bolsonaro

Escândalo do filme financiado por Daniel Vorcaro agrava crise bolsonarista e ameaça projeto presidencial de Flávio para 2026
“O filme é só uma parte. Tem muito mais coisa que pode surgir daí”, afirmou analista. Foto: Reprodução

As revelações envolvendo as negociações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro, aprofundaram a crise no campo bolsonarista e podem inviabilizar a candidatura presidencial do senador em 2026. A avaliação é do cientista político Miguel Stédile, coordenador do Instituto Tricontinental, durante análise em programa jornalístico nesta quinta-feira. Saiba mais na TVT News.

Segundo Stédile, em entrevista ao Jornal TVT News Primeira Edição, o caso vai além de um constrangimento político e pode revelar um esquema de maior envergadura envolvendo lavagem de dinheiro, caixa dois e uso de recursos de origem suspeita para financiar projetos ligados à família Bolsonaro.

“Dark Horse era para significar azarão, um cavalo que ninguém espera. No final virou um pangaré”, ironizou o analista ao comentar o escândalo.

>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp

Caso pode ter novos desdobramentos

A crise se intensificou após reportagem do The Intercept Brasil divulgar mensagens e áudios que apontariam pedidos de recursos de Flávio Bolsonaro a Vorcaro para custear o longa-metragem. O valor total negociado teria chegado a R$ 134 milhões, cifra que colocaria o projeto entre os mais caros da história do cinema brasileiro.

Para Stédile, as revelações conhecidas até agora seriam apenas o começo.

Ele destacou que há referência a cerca de 11 meses de trocas de mensagens entre Flávio e o banqueiro, o que indicaria uma relação política e financeira mais ampla do que apenas a produção cinematográfica.

“O tema do filme é só uma parte. Tem muito mais coisa que pode surgir daí”, afirmou.

O cientista político também citou informações de bastidores sobre depósitos em fundos sediados no Texas, nos Estados Unidos, supostamente ligados à defesa de Eduardo Bolsonaro. Para ele, as investigações ainda podem abrir novas frentes envolvendo o entorno bolsonarista e conexões internacionais.

Núcleo bolsonarista resiste, mas centro deve abandonar Flávio Bolsonaro

Na avaliação de Stédile, a base ideológica mais fiel do bolsonarismo tende a permanecer ao lado de Flávio Bolsonaro, independentemente da gravidade das denúncias. No entanto, o problema eleitoral central estaria em outro segmento: o eleitorado moderado e de centro.

“O eleitor em disputa não é o bolsonarista raiz. É o eleitor do centro. Esse tende a se descolar do Flávio Bolsonaro”, afirmou.

Segundo ele, esse grupo será decisivo na eleição presidencial de 2026, especialmente em uma disputa apertada. Para o analista, denúncias envolvendo cifras milionárias, banqueiros presos e suspeitas de desvio de recursos têm forte potencial de rejeição entre eleitores independentes.

Stédile afirmou ainda que a candidatura de Flávio vinha sendo construída como forma de preservar o controle da família Bolsonaro sobre a direita brasileira após os problemas judiciais de Jair Bolsonaro.

“Flávio era o nome para manter a hegemonia do bolsonarismo até 2030. Isso agora fica profundamente comprometido”, resumiu.

Michelle Bolsonaro aparece como plano B

Diante do desgaste crescente, o cientista político apontou Michelle Bolsonaro como principal alternativa do campo bolsonarista.

Segundo ele, a ex-primeira-dama preserva capital político próprio e poderia surgir como candidatura de consenso caso Flávio se torne inviável.

“O plano B natural é Michelle Bolsonaro”, disse.

Stédile ponderou, no entanto, que há resistências internas dentro da própria família Bolsonaro e disputas antigas entre Michelle e os filhos do ex-presidente. Ainda assim, em cenário de agravamento das investigações, ele considera possível uma recomposição pragmática.

“Se o objetivo for não perder tudo, pode haver armistício interno”, analisou.

Extrema direita discute sacrificar o bolsonarismo

Outro ponto levantado pelo pesquisador é que setores conservadores e do mercado financeiro já observam a possibilidade de se afastar do bolsonarismo como estratégia para 2030.

Segundo Stédile, parte da extrema direita esteve vinculada à família Bolsonaro pelo peso eleitoral da marca, mas pode rever essa aliança caso o escândalo se amplie.

“Pode haver o cálculo de deixar Flávio ir para o sacrifício em 2026 para reconstruir outro projeto depois”, afirmou.

Ele também citou que nomes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado aparecem no debate público, mas ainda sem densidade eleitoral nacional comparável ao bolsonarismo.

Investigação ainda está no começo

Para Stédile, o principal fator de instabilidade é que o caso está longe do encerramento. Ele lembrou que a Polícia Federal ainda apura movimentações financeiras, possíveis operadores e a destinação final dos recursos.

“Estamos só raspando o gelo do iceberg”, declarou.

Na visão do analista, novas quebras de sigilo, delações e apreensões podem atingir figuras do centrão, empresários e outros agentes políticos ligados ao caso.

Segundo relatos citados por Stédile, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro entrou em estado de confusão após a divulgação dos áudios e documentos. Reuniões de emergência teriam sido convocadas para avaliar danos e medir impacto nas pesquisas.

Para o cientista político, porém, o cenário já mudou estruturalmente.

“A candidatura dele está muito comprometida. Não vejo possibilidade simples de reversão”, concluiu.

Se confirmada essa leitura, o projeto presidencial de Flávio Bolsonaro pode ter sido atropelado antes mesmo da largada — e o Dark Horse, concebido para impulsionar uma candidatura, pode terminar como símbolo de sua derrocada política.

Assuntos Relacionados