O historiador e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Ramatis Jacino confirmou sua pré-candidatura à primeira suplência da senadora Simone Tebet (MDB) na disputa pelo Senado Federal por São Paulo. Militante histórico do movimento negro, fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Movimento Negro Unificado (MNU), Jacino afirma que pretende levar para a campanha uma agenda voltada à juventude negra, à redução das desigualdades e ao fortalecimento das políticas públicas de inclusão. Saiba mais na TVT News.
Em entrevista concedida ao canal Radar Democrático, Jacino afirmou que sua principal proposta é a construção de um Pacto Nacional pela Juventude Negra, iniciativa que busca ampliar investimentos federais para reduzir a evasão escolar, enfrentar a precarização do trabalho e oferecer alternativas ao recrutamento de jovens pelo crime organizado.
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Segundo o professor, sua indicação surgiu de setores da militância petista que defendem maior equilíbrio político na composição da chapa paulista. Como Simone Tebet dialoga com segmentos mais ao centro do espectro político, a presença de um dirigente histórico dos movimentos sindical e negro seria uma forma de ampliar a representação dos setores populares.
“A ideia é a gente contribuir dessa maneira, dando voz às populações mais vulnerabilizadas, aos operários, aos trabalhadores do campo e da cidade, às mulheres, aos homens negros e à juventude”, afirmou durante a entrevista ao Radar Democrático.
Da fábrica à universidade
A trajetória de Ramatis Jacino reúne militância sindical, produção acadêmica e atuação política. Nascido em Porto Alegre, mudou-se ainda adolescente para São Paulo, onde trabalhou como operário gráfico. Foi nesse período que iniciou sua atuação no movimento sindical e participou da fundação da CUT e do PT.
Também esteve presente, no final da década de 1970, nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo, durante o ato que marcou a criação do Movimento Negro Unificado (MNU), uma das principais organizações do movimento negro brasileiro.
Posteriormente, formou-se em História, lecionou na rede pública estadual por 17 anos, concluiu mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) e tornou-se professor da Universidade Federal do ABC, dedicando suas pesquisas às relações entre escravidão, mercado de trabalho e desigualdade racial.
Na entrevista, Jacino rejeitou interpretações baseadas na meritocracia para explicar sua trajetória.
Segundo ele, sua chegada à universidade foi resultado de um esforço coletivo e das poucas oportunidades abertas por uma sociedade marcada por profundas desigualdades.
“A minha ascensão não é resultado do meu mérito pessoal, mas de um conjunto de circunstâncias, da militância e de um esforço coletivo que permitiu ocupar esses espaços”, declarou ao Radar Democrático.
Representatividade na chapa
Ao explicar sua entrada na disputa pela suplência, Jacino disse que sua candidatura pretende ampliar o diálogo com segmentos historicamente vinculados ao PT.
Segundo ele, a presença de um homem negro, periférico, de origem operária e com longa atuação nos movimentos sociais ajuda a fortalecer a identificação da chapa com trabalhadores, juventude e população negra.
Para o historiador, a renovação política não está relacionada apenas à idade dos candidatos, mas à incorporação de novos grupos sociais aos espaços de poder.
“A renovação tem a ver com pessoas que não ocuparam esses espaços e que podem contribuir com ideias produzidas tanto na academia quanto nos movimentos sociais”, afirmou.
Pacto Nacional pela Juventude Negra
O principal eixo programático apresentado por Jacino é o chamado Pacto Nacional pela Juventude Negra, proposta que, segundo ele, vem sendo defendida desde a elaboração dos programas de governo do PT em 2018.
A iniciativa prevê investimentos robustos da União para manter jovens, especialmente negros e moradores das periferias, no ensino médio, fase em que ocorre a maior evasão escolar.
“A ideia é que o governo federal invista recursos significativos para reter esse jovem na escola e chame um grande pacto nacional em defesa dessa juventude”, afirmou ao Radar Democrático.
Jacino considera o programa Pé-de-Meia, criado pelo governo Lula para incentivar a permanência dos estudantes na escola, um dos avanços mais importantes da atual gestão.
Entretanto, defende ampliar significativamente os recursos destinados ao programa.
Segundo ele, o benefício precisa ser suficientemente robusto para competir tanto com o mercado de trabalho precarizado quanto com o aliciamento promovido pelo crime organizado.
“O Pé-de-Meia precisa ser turbinado de recursos para disputar esses jovens com esse mercado de trabalho precarizado para o qual eles são empurrados, inclusive pelo crime organizado”, afirmou.
Para o professor, manter adolescentes e jovens na escola representa não apenas uma política social, mas também uma estratégia econômica.
Ele classificou como “tragédia social e estupidez econômica” o desperdício do potencial produtivo da juventude brasileira por meio do encarceramento, da violência e da precarização do trabalho.
“O Estado tem esse papel de garantir o mínimo necessário para as pessoas”, afirmou, contrapondo sua visão às políticas neoliberais que atribuem exclusivamente ao mercado a solução dos problemas sociais.
Críticas à política de segurança paulista
Outro tema abordado por Jacino foi a segurança pública em São Paulo.
Na entrevista, ele classificou como “necropolítica” a política de segurança conduzida pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pelo secretário Guilherme Derrite.
Inspirando-se no conceito formulado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, Jacino afirmou que operações policiais recentes, especialmente na Baixada Santista, evidenciam uma política baseada na morte da população negra e periférica.
Segundo ele, o enfrentamento dessa lógica deve ser uma das prioridades da campanha.
Raça e classe caminham juntas
Ao final da entrevista, Jacino voltou a defender que o combate ao racismo não pode ser separado da luta contra a desigualdade social.
Segundo o historiador, o racismo foi construído historicamente para justificar um sistema econômico baseado na escravidão e continua funcionando como mecanismo de manutenção das desigualdades.
“A grande contribuição do movimento negro é demonstrar quanto a questão de classes está imbricada com a questão racial”, afirmou ao Radar Democrático.
Na avaliação do professor, compreender essa relação é essencial para enfrentar o crescimento da extrema direita e formular políticas públicas capazes de reduzir desigualdades estruturais.
Caso Simone Tebet seja eleita senadora e volte a ocupar um ministério em um eventual novo governo Lula, a vaga no Senado poderá ser assumida pelo primeiro suplente. É nesse contexto que a pré-candidatura de Ramatis Jacino ganha relevância política, apresentando uma agenda centrada na ampliação da representação popular, no fortalecimento das políticas de educação e inclusão social e na defesa da juventude negra como prioridade nacional.

