No Brasil, poucas discussões conseguem atravessar gerações, estados e mesas de café com tanta paixão quanto a velha pergunta: afinal, é biscoito ou bolacha? A resposta, para desespero dos mais apaixonados pelo tema, é simples: depende de onde você mora. E justamente no dia 20 de julho, quando é celebrado o Dia Nacional do Biscoito, a polêmica ganha novo fôlego. Saiba mais na TVT News.
Em São Paulo, a missão de convencer alguém a dizer “biscoito” costuma ser tão difícil quanto encontrar quem coloque ketchup na pizza sem gerar uma crise diplomática. Já no Rio de Janeiro e em boa parte do Nordeste, chamar um recheado de “bolacha” pode render olhares de reprovação. A boa notícia é que a língua portuguesa é generosa: os dois termos são aceitos para designar praticamente o mesmo alimento.
Do ponto de vista histórico, porém, “biscoito” leva vantagem. A palavra deriva do latim bis coctus, que significa literalmente “cozido duas vezes”. A expressão faz referência ao antigo método de preparo utilizado para retirar a umidade da massa e aumentar sua durabilidade. O termo chegou ao português por influência do francês biscuit, ainda durante a Idade Média.
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Já “bolacha” tem origem diferente. O nome está relacionado ao formato achatado e arredondado de muitos desses produtos, derivando do espanhol bolacha e do latim bulla, associado à ideia de objeto arredondado. Com o passar do tempo, especialmente em Portugal e em partes do Sudeste brasileiro, o termo passou a ser usado para designar diversos tipos de biscoitos.
No fim das contas, a indústria alimentícia adota oficialmente a palavra “biscoito”. Mas a realidade brasileira é mais democrática: cada região continua chamando do jeito que aprendeu em casa.
Uma receita com milhares de anos
Apesar da aparência simples, o biscoito está entre os alimentos mais antigos da humanidade. Muito antes da invenção do açúcar refinado, povos da Antiguidade já misturavam cereais moídos com água para produzir massas secas que resistiam ao tempo.
Há registros semelhantes no Egito Antigo, onde preparações adoçadas com mel eram consumidas pelas elites. Mais tarde, durante a Idade Média e principalmente na época das grandes navegações, essas massas secas tornaram-se fundamentais para marinheiros e soldados.
Como suportavam semanas — às vezes meses — sem estragar, os biscoitos passaram a integrar a alimentação das embarcações europeias que cruzavam os oceanos. Eram duros, pouco saborosos, mas extremamente eficientes para garantir energia durante longas viagens.
Foi apenas a partir do século XVII que a receita começou a ganhar ingredientes mais sofisticados, como manteiga, açúcar, chocolate e especiarias. Com a Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX, a produção em larga escala transformou o biscoito em um dos alimentos mais populares do planeta.
Maria, cookie, sequilho e mais de 200 variedades
Hoje, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi), existem mais de 200 tipos de biscoitos disponíveis no mercado brasileiro.
Entre os clássicos está o famoso biscoito Maria, criado em 1874 por uma padaria inglesa para homenagear o casamento da grã-duquesa Maria Alexandrovna da Rússia com o príncipe Alfred, filho da rainha Vitória. O sucesso foi tão grande que atravessou fronteiras e permanece até hoje nas prateleiras brasileiras.
Já o popular cookie, palavra que ganhou espaço no vocabulário nacional, vem da tradição anglo-saxã e costuma identificar biscoitos mais macios, amanteigados e com gotas de chocolate ou outros recheios.
No Brasil, receitas como sequilhos, roscas, biscoitos de polvilho e os tradicionais “avoadores” baianos também fazem parte da identidade gastronômica de diversas regiões.
Mercado cresce e aposta em produtos premium
Além de fazer parte da memória afetiva dos brasileiros, os biscoitos continuam sendo um dos produtos mais importantes da indústria alimentícia.
Levantamento da Abimapi, com base em dados da NielsenIQ, mostra que o setor registrou crescimento de 3,45% no faturamento durante o primeiro semestre de 2026.
Os campeões de consumo seguem sendo os tradicionais biscoitos recheados, responsáveis por 24,4% do mercado nacional. Na sequência aparecem água e sal e cream cracker (17,9%), doces amanteigados (13,53%) e Maria e Maizena (12,15%).
Ao mesmo tempo, cresce o interesse por produtos considerados premium. Os biscoitos cobertos registraram aumento de 20% no faturamento e 10,5% em volume de vendas, enquanto os chamados champagne avançaram 16,5%.
Outra tendência observada pela pesquisa é a preferência crescente por embalagens menores, de até 150 gramas, que já representam quase 42% do mercado nacional.
Regionalmente, o Nordeste lidera o consumo brasileiro, concentrando aproximadamente 30% do volume comercializado, seguido por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro.
A capital do biscoito fica na Bahia
Se existe um lugar onde ninguém discute a importância do biscoito, esse lugar é Vitória da Conquista, no sudoeste baiano.
Reconhecida oficialmente como Capital Estadual do Biscoito, a cidade abriga mais de 40 fábricas artesanais e produz cerca de 4 mil toneladas por ano.
A atividade movimenta mais de R$ 70 milhões somente na fabricação, gera centenas de empregos e envolve mais de 600 comerciantes entre atacadistas e varejistas.
Entre os produtos mais famosos está o tradicional biscoito de polvilho conhecido como avoador, além de versões artesanais com gergelim, alho, ervas e até combinações doces.
Nem todo biscoito merece lugar no café da tarde
Embora despertem lembranças afetivas e façam parte da rotina de milhões de brasileiros, nutricionistas lembram que boa parte dos biscoitos industrializados — especialmente recheados e cobertos — deve ser consumida com moderação.
Esses produtos costumam apresentar altos teores de açúcar, gorduras saturadas, sódio e aditivos alimentares, além de baixo conteúdo de fibras. O consumo frequente pode contribuir para ganho de peso e aumentar o risco de doenças cardiovasculares e diabetes quando inserido em uma alimentação desequilibrada.
As melhores escolhas, segundo especialistas, são versões integrais, com menor quantidade de ingredientes ultraprocessados, ou preparações artesanais feitas com farinhas de qualidade, sementes e menos açúcar.
E afinal… é biscoito ou bolacha?
No Dia do Biscoito, talvez a resposta mais sensata seja reconhecer que o Brasil tem espaço para os dois nomes.
A ciência da linguagem explica que ambos estão corretos. A história mostra que “biscoito” chegou primeiro. A indústria também prefere essa denominação.
Mas, convenhamos: tentar convencer um paulista de que a “bolacha” do café da tarde é, na verdade, um biscoito, pode ser uma tarefa tão impossível quanto impedir alguém de mergulhar um cream cracker no cafezinho.
No fim das contas, independentemente do nome escolhido, o importante continua sendo o ritual que atravessa gerações: uma boa conversa, uma bebida quente e aquele pacote que quase sempre acaba antes mesmo de a discussão terminar. Afinal, no Brasil, o debate pode nunca acabar — mas o pacote, esse termina rapidinho.

