A poucos dias da convenção nacional do PL, marcada para sábado (25), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta um dos momentos mais delicados de sua pré-campanha presidencial. Sem conseguir consolidar uma aliança nacional com os principais partidos do Centrão e ainda sem definir quem ocupará a vaga de vice-presidente em sua chapa, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro vê crescer os sinais de isolamento político justamente no momento em que buscava ampliar sua base de sustentação para a disputa de 2026. Saiba mais na TVT News.
O principal revés veio do Progressistas (PP). O presidente nacional da legenda, senador Ciro Nogueira (PI), informou a dirigentes partidários que cerca de 90% das bases do partido defendem a neutralidade na eleição presidencial, posição que deverá ser apresentada oficialmente a Flávio Bolsonaro em reunião entre ambos.
Na prática, a decisão enterra, ao menos neste primeiro turno, a expectativa do PL de contar com o apoio da federação União Brasil-PP, considerada estratégica por reunir uma das maiores bancadas do Congresso Nacional e, consequentemente, garantir mais recursos do fundo eleitoral e maior tempo de propaganda no rádio e na televisão.
>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp
A direção da federação tem repetido que sua prioridade não será a disputa presidencial, mas sim a eleição de uma “superbancada” de deputados federais e senadores. Uma aliança formal com o PL obrigaria a divisão dos recursos destinados às campanhas proporcionais, reduzindo a capacidade eleitoral da federação nos estados.
Flávio continua sem vice
O impasse também mantém indefinida a composição da chapa presidencial.
Embora o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), tenha inicialmente prometido anunciar a vice até a convenção do partido, o prazo foi adiado. Agora, o PL pretende utilizar todo o período permitido pela Justiça Eleitoral, até 5 de agosto, para tentar costurar uma aliança.
Sem acordo político consolidado, os principais nomes cogitados enfrentam obstáculos.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS), considerada por integrantes do PL como a opção de maior peso político, recusou participar da chapa. Segundo dirigentes da legenda, a parlamentar pretende concentrar esforços na disputa pela presidência do Senado em 2027, tornando praticamente inexistente a possibilidade de aceitar a vaga de vice.
Resta como principal aposta do entorno de Flávio a economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal durante o governo Jair Bolsonaro.
Entretanto, a candidatura enfrenta forte resistência justamente dentro do Republicanos, partido ao qual é filiada.
Republicanos não compra a ideia de Daniella Marques
Embora Daniella tenha participado da elaboração do programa econômico da campanha e tenha ganhado espaço em eventos voltados ao eleitorado feminino, dirigentes do Republicanos afirmam reservadamente que ela não representa institucionalmente o partido.
Segundo lideranças da legenda, seu nome jamais foi discutido internamente como indicação oficial para a vice-presidência.
A avaliação predominante é que uma eventual escolha seria uma decisão pessoal de Flávio Bolsonaro, sem significar automaticamente o apoio nacional do Republicanos.
Além disso, importantes lideranças da legenda defendem neutralidade no primeiro turno.
O presidente nacional do partido, Marcos Pereira, tem evitado antecipar qualquer decisão e condiciona uma eventual aliança nacional à resolução de disputas estaduais, como Mato Grosso, Roraima e Minas Gerais.
A ausência de consenso também foi reforçada por declarações do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que confirmou publicamente a recusa de Tereza Cristina e admitiu que a definição da vice permanece aberta.
Nos bastidores, Valdemar também teria manifestado reservas ao nome de Daniella Marques, considerado insuficiente para atrair formalmente o Republicanos para a coligação.
Centrão amplia distanciamento
O cenário evidencia um esvaziamento do apoio do Centrão ao candidato bolsonarista.
Além do PP e do União Brasil caminharem para a neutralidade, dirigentes das duas legendas têm criticado a condução política da pré-campanha.
Parlamentares afirmam que Flávio Bolsonaro não conseguiu construir negociações efetivas, evitou discutir espaços em um eventual governo, demorou para iniciar as conversas e concentrou esforços apenas na reta final do calendário eleitoral.
A percepção entre lideranças partidárias é que o senador buscou apoio sem oferecer contrapartidas políticas nos estados, onde as disputas locais seguem sendo prioridade para as legendas.
Nem mesmo durante a convenção estadual da federação União Brasil-PP em São Paulo, realizada nesta semana, Flávio conseguiu reverter esse quadro.
Embora tenha participado do evento e declarado esperar caminhar “muito em breve” ao lado da federação no plano nacional, os três principais dirigentes envolvidos nas negociações — Antonio Rueda (União Brasil), Ciro Nogueira (PP) e Marcos Pereira (Republicanos) — não compareceram ao encontro, gesto interpretado como demonstração do distanciamento entre as direções nacionais e o projeto presidencial do PL.
Banco Master mudou cenário
O enfraquecimento das negociações representa uma reviravolta em relação ao início da pré-campanha.
Até poucos meses atrás, Ciro Nogueira era tratado por integrantes do PL como o “vice dos sonhos” de Flávio Bolsonaro. A eventual composição era vista como capaz de consolidar uma ampla aliança entre bolsonarismo e Centrão.
O cenário, entretanto, mudou após o avanço das investigações envolvendo o escândalo do Banco Master.
Ciro Nogueira passou a ser citado em apurações relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por supostas irregularidades financeiras. Embora o senador negue qualquer participação ilícita, o episódio provocou forte desgaste político.
Posteriormente, o próprio Flávio Bolsonaro acabou envolvido no chamado caso “Dark Horse”, após revelações de que teria solicitado recursos a Vorcaro para financiar um projeto audiovisual, ampliando ainda mais o desgaste da pré-campanha.
Apesar de ter perdido protagonismo como possível vice, Ciro continua exercendo forte influência sobre o PP e tornou-se um dos principais articuladores da decisão da legenda de manter independência no primeiro turno.
Michelle amplia dificuldades com eleitorado feminino
Outro fator apontado por dirigentes do Centrão como prejudicial às negociações é a crise entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro.
A avaliação entre parlamentares é que o senador não conseguiu administrar o conflito interno no bolsonarismo, afastando uma das principais lideranças femininas da direita brasileira justamente quando buscava construir uma chapa competitiva com uma mulher na vice-presidência.
O episódio também reduziu o entusiasmo de lideranças femininas do PP e do Republicanos em participar da composição, agravando as dificuldades para encontrar uma vice capaz de ampliar o diálogo com esse segmento do eleitorado.
Com PP, União Brasil e Republicanos cada vez mais inclinados à neutralidade, Flávio Bolsonaro chega à convenção nacional do PL sem alianças consolidadas, sem vice definida e diante de um cenário em que o apoio do Centrão — considerado essencial para ampliar tempo de televisão, recursos eleitorais e capilaridade política — se mostra significativamente mais distante do que projetava sua campanha no início do ano.

