O “Mestre Sala dos Mares”: filho de João Cândido, da revolta da Chibata, vai receber indenização

O eterno dragão do mar, que tinha a dignidade de um mestre-sala, João Cândido, teve sua memória depreciada pela Marinha, em 2024
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Acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo

“Há muito tempo nas águas de Guanabara”, o navegante negro, João Cândido, liderou marinheiros, a maioria negros e pobres, contra punições físicas, como açoites, e condições precárias na Marinha. O estopim da revolta foi o castigo de 250 chibatadas em um marinheiro, mesmo após a abolição da escravatura. Em julho de 2026, a Justiça Federal condenou a União a pagar R$ 300 mil de indenização por danos morais ao filho de João Cândido Felisberto, Adalberto Cândido. Leia em TVT News.

A indenização foi motivada por conta de manifestações oficiais da Marinha, em 2024, que foram consideradas ofensivas à memória do líder da Revolta da Chibata.

Na ocasião, a instituição enviou um documento à Câmara dos Deputados classificando o movimento liderado por João Cândido – imortalizado na voz de João Bosco e Aldir Blanc como “O Mestre Sala dos Mares” – como uma “deplorável página da história nacional”, além de depreciar os participantes da revolta com adjetivos do tipo “abjetos” e “reprovável”.

Em maio, a 4ª Vara Federal do Rio de Janeiro já havia condenado a União a pagar uma indenização de R$ 200 mil por danos morais coletivos em decorrência das ofensas aos participantes da Revolta da Chibata feitas pela Marinha do Brasil. 

A Revolta da Chibata foi um dos movimentos mais importantes do século XX de denúncia ao racismo e perpetuação de condições de trabalho precárias vivenciadas por pessoas negras 22 anos após o fim da escravidão.

O movimento durou 4 dias e conseguiu cumprir um dos seus objetivos principais: a abolição de castigos abusivos.

Após a Revolta, João Cândido sofreu forte perseguição do governo, enquanto outros marinheiros foram anistiados. O “dragão do mar” foi preso, torturado na Ilha das Cobras, expulso da Marinha e marginalizado.

Ele morreu em 1969, na pobreza, aos 89 anos.

Justiça defende a proteção jurídica da memória de João Cândido

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Candinho, único filho vivo de João Cândido, luta por reparação – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Na decisão, a Justiça segue posição defendida pelo MPF. Para o juiz da 4ª vara do Rio de Janeiro, a proteção jurídica da memória de João Cândido também engloba seus familiares. Sendo assim, o filho teria legitimidade para buscar reparação pelos danos sofridos em decorrência das manifestações oficiais.

O que diz a sentença?

Embora a Marinha tenha liberdade para apresentar interpretações históricas quaisquer que sejam, sobre a Revolta da Chibata ou não, isso não autoriza infamar uma personagem posteriormente anistiada pelo próprio Estado brasileiro.

A sentença foi proferida em ação movida pelo filho de João Cândido contra a União. 

Salve o Navegante Negro!

João Cândido é filho de ex-escravizados. Nascido em 1880, ele ingressou na Marinha aos 15 anos de idade.

A revolta ocorreu entre os dias 22 e 27 de novembro de 1910. Durante esse tempo, os insurgentes tomaram embarcações atracadas na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.

Entre as razões da revolta, além dos castigos físicos, os marinheiros negros reivindicavam salares melhores e reclamavam da ausência de um plano de carreira.

Em 1975, João Bosco e Aldir Blanc contaram sua história na música “O Mestre Sala dos Mares”, que depois também foi cantada na voz de Elis Regina.

“O Mestre Sala dos Mares”

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu

Conhecido como Navegante Negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava, então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais

Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Salve o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais

Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá

Salve o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Mas salve

Salve o Navegante Negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo

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