Pesquisadores da FESPSP analisam resultado da Quaest: “cenário eleitoral se estabiliza”

Veja análise dos pesquisadores do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP sobre pesquisa Quaest deste dia 5
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Pesquisadores da FESPSP comentam a mais recente pesquisa Quaest sobre a corrida presidencial. Foto: Ricardo Stuckert/PR/Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A mais recente pesquisa Quaest sobre a corrida presidencial de 2026 foi analisada por pesquisadores do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Saiba mais na TVT News.

Para os especialistas, os números confirmam uma tendência de estabilização do cenário eleitoral, ao mesmo tempo em que revelam movimentos importantes dentro das bases de cada candidato.

A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (5) mostra o presidente Lula (PT) na liderança em todos os cenários de primeiro e segundo turnos simulados para a eleição presidencial de 2026, ainda que em queda, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) avança acima da margem de erro.

No principal cenário de segundo turno, Lula aparece com 44% das intenções de voto contra 39% de Flávio, uma vantagem de cinco pontos percentuais — ante os oito pontos de distância registrados em julho, quando o presidente somava 45% e o senador, 37%. Os que votariam em branco ou nulo, ou não compareceriam às urnas, somam 13%, e os indecisos são 4%.

>> Veja os resultados completos da pesquisa Quaest de 5 de agosto

O levantamento também mostra estabilidade na avaliação do governo Lula, com 48% de aprovação e 47% de desaprovação, patamares idênticos aos de julho. Já a resposta do presidente ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos é avaliada como ruim por 43% dos entrevistados, ante 38% que a consideram boa — uma inversão em relação a maio, quando a avaliação positiva superava a negativa.

Realizada pela Quaest a pedido da Genial Investimentos entre os dias 31 de julho e 3 de agosto, a pesquisa ouviu 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais em entrevistas presenciais e domiciliares, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O registro no Tribunal Superior Eleitoral é BR-06591/2026.

É diante desse novo retrato do tabuleiro eleitoral que pesquisadores do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP foram consultados para interpretar os números e suas possíveis causas.

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Cenário se aproxima de outras pesquisas

Para o analista político Beto Vasques, coordenador do laboratório, “a pesquisa mostra que entramos no processo eleitoral com um cenário que se estabiliza”. Segundo ele, “os dados da Quaest se aproximam, por exemplo, dos dados da pesquisa Ideia/Meio, publicada nesta quarta-feira (/8), e também dos dados da pesquisa do Datafolha do final de julho último”.

De acordo com Vasques, esse cenário mostra “o presidente Lula cinco pontos à frente do senador Flávio Bolsonaro nas simulações de segundo turno entre ambos, com as rejeições de ambos também muito elevadas e em situação de empate técnico, mas com Flávio numericamente um ponto ou dois atrás”.

O pesquisador também chama atenção para o papel do noticiário no resultado.

Segundo ele, “as oscilações nas intenções de voto e nos indicadores eleitorais, positivas para o senador e negativas para o presidente, poderiam corresponder a uma piora no noticiário do governo, com 4% a mais de entrevistados dizendo ter visto notícias negativas em relação à pesquisa de julho e outros 4% a menos de entrevistados que ouviram notícias negativas”. Ele pondera ainda que, “como todos os indicadores econômicos (avaliação da economia, preço dos alimentos, poder de compra, facilidade de encontrar emprego, expectativa para os próximos 12 meses e affordability) se mantiveram estáveis ou levemente positivos para o governo, o único indicador que poderia ajudar a explicar essas alterações parece ser o noticiário menos favorável ao governo”.

Consolidação de tendências pós-convenções

O cientista político Hilton Fernandes, professor do laboratório, destaca que a pesquisa foi “realizada próxima ao final do período das convenções partidárias” e “traz resultados que indicam a consolidação das tendências para as eleições presidenciais, com Lula apresentando uma base sólida, mas com dificuldade para aumentá-la, Flávio recuperando parte do espaço perdido e Renan Santos demonstrando potencial para ser o ‘candidato disruptivo’ da vez”.

Sobre o presidente, Fernandes afirma que “Lula manteve os índices de aprovação de seu governo empatados com a desaprovação, em um movimento de recuperação em relação às pesquisas divulgadas até abril deste ano”. A dificuldade em converter aprovação em voto, segundo ele, “pode ser explicada, em parte, pela movimentação dentro de sua própria base de eleitores — os classificados pela Quaest como lulistas e esquerda não lulista — que, embora já votassem no atual presidente, ainda não o aprovavam com entusiasmo”.

Já em relação a Flávio Bolsonaro, o pesquisador pondera que os resultados “são um alívio diante de tantas notícias negativas para sua campanha, mas ainda refletem um eleitorado que já esteve em sua base e, provavelmente, retorna diante do cenário de confirmação dos candidatos”. Fernandes avalia que o senador “demonstra sua limitação em atrair votos e apoios, em um desgaste do bolsonarismo que pode gerar pressões para a desistência da sua candidatura mesmo após seu lançamento oficial”.

Sobre a terceira via, o professor afirma que os cenários de segundo turno mostrados pela Quaest “reforçam o potencial de Renan Santos em ocupar o espaço do discurso mais radical, que já foi do bolsonarismo, com forte apelo emocional e que atinge principalmente o mesmo perfil demográfico de eleitores que elegeram Jair em 2018”, concluindo que “é uma estratégia que funciona para ganhar visibilidade e se posicionar politicamente para novas eleições”.

Reunificação do bolsonarismo explica avanço de Flávio

Já o cientista político Jairo Pimentel, também professor do laboratório, aponta que “a pesquisa Quaest registra uma recuperação de Flávio Bolsonaro, mas ainda predominantemente baseada na reorganização do campo bolsonarista, e não em uma conquista ampla do eleitorado de centro”.

Para ele, “Lula conserva a liderança e uma base social muito sólida, porém volta a enfrentar o problema clássico dos governos incumbentes: a aprovação da administração já não se converte automaticamente em desejo de reeleição”.

Pimentel detalha os números da Quaest por segmento ideológico: “no segundo turno, Flávio sobe de 74% para 81% (7 pontos) entre a direita não bolsonarista e de 91% para 95% (4 pontos) entre os bolsonaristas, e apenas 3 pontos no centro independente (de 27% para 30%)”. Em contrapartida, “Lula perdeu aderência no eleitorado de centro, passando de 40% para 33% em relação à última rodada”.

Para o pesquisador, “o nexo causal mais plausível é a redução das divisões internas no campo bolsonarista”. Ele cita que “a reconciliação pública com Michelle Bolsonaro foi considerada positiva por 59% dos entrevistados, chegando a 88% na direita não bolsonarista e a 90% entre os bolsonaristas”, além de que “70% da direita não bolsonarista e 79% dos bolsonaristas acreditam que a participação de Michelle aumenta as chances de vitória de Flávio”. Segundo Pimentel, ela funciona “como um sinal de unidade e legitimidade, diminuindo resistências ao candidato e facilitando a transferência do capital político de Jair Bolsonaro”.

O pesquisador também menciona o efeito das restrições judiciais às visitas ao ex-presidente, lembrando que “52% consideram errada a proibição, tomada após Flávio divulgar uma carta de apoio político do pai”. Segundo ele, “esse contexto reforça, entre os eleitores de direita, uma narrativa de perseguição e torna o voto mais emocional e identitário”.

Pimentel resume o quadro afirmando que “Flávio ainda não cresce principalmente por conquistar o centro, mas por fechar as próprias fronteiras eleitorais: reúne a família, recupera a direita que estava dispersa e se consolida como o herdeiro efetivo do bolsonarismo”. Para ele, “a questão seguinte será saber se essa unificação da base produzirá expansão entre os independentes ou apenas antecipará votos que já tenderiam naturalmente para ele”.

Em sua síntese final, o pesquisador conclui: “a pesquisa Quaest revela que Lula ainda lidera, mas deixou de ampliar. Flávio ainda perde, mas voltou a crescer. A reunificação do bolsonarismo começa a proteger Flávio”.

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