Os primeiros jingles das campanhas à Presidência da República em 2026 já começaram a circular nas redes sociais e em eventos partidários. Mais do que acompanhar imagens de candidatos, as músicas funcionam como ferramentas de comunicação política: combinam ritmos, símbolos e palavras para tentar aproximar cada candidatura de determinados grupos sociais e construir uma imagem para a disputa eleitoral. Leia em TVT News.
Entre os nomes mais bem posicionados nas pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recorre ao funk dos anos 1990 e à própria trajetória política; Flávio Bolsonaro (PL) aposta na combinação de música religiosa, sertanejo e símbolos nacionais; Renan Santos (Missão) utiliza uma mistura de rock e sertanejo para atacar o PT; e Ronaldo Caiado (PSD) apresenta uma música pop centrada em sua imagem e em discursos sobre segurança pública.
Romeu Zema (Novo) ainda não havia divulgado um jingle, segundo sua equipe.
A campanha eleitoral começa oficialmente em 16 de agosto. Até lá, novos jingles devem aparecer e disputar espaço nas redes sociais, nos eventos políticos e nas atividades de rua.
Lula leva funk e trajetória de vida para a campanha
O principal jingle da campanha de Lula parte de uma referência conhecida do funk brasileiro. A música é uma releitura de “Rap do Silva”, clássico do funk consciente dos anos 1990 gravado pelo MC carioca Bob Rum.
A campanha modifica o sentido da música original para aproximar a narrativa do personagem de Lula. O “Silva” deixa de ser apenas um personagem da canção e passa a ser associado ao presidente, ao trabalhador e à estrela do PT.
A escolha do gênero musical também estabelece uma conexão com públicos jovens e com as periferias urbanas. O clipe reforça essa estratégia ao utilizar imagens de arquivo para reconstruir diferentes momentos da vida de Lula, desde o nascimento no agreste de Pernambuco até a atuação sindical, a chegada à Presidência e o período em que ficou preso em Curitiba.
A narrativa apresentada pela campanha transforma esses episódios em uma história de enfrentamento político e superação. Também incorpora elementos como família, trabalho e defesa da soberania nacional.
A cientista política Priscila Lapa observa que a peça combina a imagem de uma liderança popular com temas tradicionalmente mobilizados pela direita, como a família. A referência à soberania também aparece como um componente do discurso que deverá ser explorado pela candidatura.
Flávio Bolsonaro aposta em jingle sobre fé, juventude e símbolos nacionais
Na campanha de Flávio Bolsonaro, o jingle “Vem com Fé” segue outro caminho. A faixa começa com características do chamado worship, gênero associado ao louvor cristão contemporâneo, e depois incorpora elementos do sertanejo universitário.
A letra evita apresentar propostas específicas ou concentrar sua mensagem em ataques diretos a adversários. A aposta está em palavras como “fé”, “sonhar” e “acreditar”, construindo uma comunicação baseada em esperança e confiança.
O conteúdo visual amplia essa estratégia. O clipe apresenta Flávio ao lado de nomes do campo político conservador, como Tarcísio de Freitas, Sergio Moro e Michelle Bolsonaro. Também aparecem referências ao cristianismo, à bandeira brasileira, ao agronegócio e a pessoas jovens.
A combinação não é casual. A campanha procura reunir, em uma mesma peça, elementos religiosos, nacionalistas e associados ao campo conservador. Ao mesmo tempo, tenta apresentar o candidato em situações descontraídas, sorrindo e dançando.
A análise de Priscila Lapa aponta justamente para essa tentativa de produzir uma imagem mais leve de Flávio, aproximando-a de símbolos que têm forte presença no eleitorado de direita.
Renan Santos: “rocknejo” transforma jingle em confronto com o PT
O jingle de Renan Santos apresenta uma estratégia mais explícita de confronto político. “A Vingança do Povo” foi apresentada durante a convenção nacional do Missão e, segundo a campanha, foi concebida como uma resposta ao “Lula Lá”, música que marcou a campanha de Lula em 1989.
O próprio Renan assina a composição e interpreta a música. A sonoridade mistura rock e sertanejo, combinação que sua equipe chamou de “rocknejo”. O rock dialoga com a trajetória pessoal do candidato, enquanto o sertanejo busca aproximar a candidatura de setores ligados ao agronegócio.
A letra faz referências diretas ao PT e constrói uma oposição entre a estrela, símbolo do partido, e o sol. O próprio candidato afirma que a metáfora representa a tentativa de superar a presença política do PT.
O termo “vingança” também ocupa espaço importante na construção da mensagem. Ao mesmo tempo em que apresenta uma perspectiva de esperança, a música mobiliza uma linguagem de enfrentamento político.
O videoclipe utiliza inteligência artificial e adota uma estética inspirada em mangá e anime. A história mostra um menino enfrentando estrelas no céu, levando para o campo visual a disputa apresentada na letra.
Para Priscila Lapa, a peça combina símbolos recorrentes da direita, como a bandeira nacional, com referências religiosas e sentimentos de confronto. A linguagem procura apresentar a candidatura como expressão de uma reação contra o campo político representado pelo PT.
Caiado escolheu o pop como jingle
Ronaldo Caiado, por sua vez, escolheu um jingle “pop” para apresentar sua candidatura. “Esse Cara é Caiado” foi lançada durante a convenção nacional do PSD que oficializou o nome do governador de Goiás na disputa presidencial.
A estrutura da música é baseada na repetição do nome do candidato e na associação de sua imagem a características como honestidade, decência e compromisso.
A segurança pública ocupa espaço importante na letra. Expressões relacionadas ao combate à criminalidade aparecem ao lado de referências à saúde e à capacidade administrativa atribuída ao candidato.
A estratégia também procura transformar o próprio nome do político em uma espécie de marca eleitoral. A repetição facilita a associação entre candidato, mensagem e número de urna, recurso tradicional do marketing político.
O marqueteiro Paulo Vasconcelos afirmou que a escolha do pop teve como objetivo alcançar eleitores de diferentes regiões do país. A música foi gravada em estúdio e, segundo a equipe, não utilizou inteligência artificial. Até o momento, não havia videoclipe para a faixa.