Nesta noite de quinta-feira (17), clubes brasileiros da série A se uniram para defender a não proibição das bets que, segundo a nota divulgada em conjunto, seria equivalente ao “fim do futebol brasileiro”. A manifestação dos times ocorreu após a divulgação da notícia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria preparando uma Medida Provisória para proibir cassinos online e bets. Leia em TVT News.
A MP do governo Lula, no entanto, deixa de fora o patrocínio de clubes, campeonatos esportivos e apostas esportivas, o que significa que a medida não afetaria os times. Além disso, a proposta ainda precisaria ser aprovada no Congresso e, se aprovada, existe ainda a cláusula de vigência de 180 dias na medida, que é o tempo para que ela passe a valer.
Mesmo que a MP não afete os times, a nota em conjunto saiu no mesmo dia da notícia relacionada ao projeto do Ministério da Fazenda, antecipando a defesa para que o patrocínio de bets em clubes esportivos mantido. O texto divulgado pelos times de futebol defendem que, sem as bets, os impactos financeiros seriam tão grandes que poderia resultar no fim do futebol.
Entre os clubes que divulgaram a nota a favor da permanência do mercado das bets estão Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco, Palmeiras, São Paulo, Santos, Cruzeiro e Corinthians. Federações estaduais também aderiram à mobilização, como a Federação Paulista de Futebol.
Os clubes reconheceram os impactos sociais relacionados às apostas, mas defendem mesmo assim a permanência desse mercado com medidas de “redução de dano”, como o fortalecimento da fiscalização e de medidas de prevenção.
A nota da Federação Paulista de Futebol argumenta que o dinheiro das bets é fundamental para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, jogadores, projetos sociais, futebol feminino e formação de futuros talentos. E termina de forma apelativa:
“O torcedor não pode pagar essa conta. Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O que acaba é o futebol!”.
Em vez de apoio nas redes, a maioria dos torcedores receberam a nota dos clubes de forma negativa
A nota divulgada pelos clubes repercutiu bastante nas redes sociais entre os torcedores, que questionaram o argumento sobre a dependência que o futebol brasileiro teria das bets e que, sem elas, seria o fim.
O Portal 91 de ciência de dados no futebol analisa as estatísticas e sentimento das torcidas nas redes. Ao analisar a repercussão da declaração dos clubes em apoio as bets, o portal identificou 90.123 interações (X + Instagram) sobre o assunto.
Em 31.761 dessas interações foi possível identificar uma posição clara sobre o posicionamento dos clubes:
- 88,0% dos usuários nas redes sociais criticaram o posicionamento
- 6,9% adotaram uma posição intermediária
- 5,1% manifestaram apoio
- 19,6% das respostas mencionaram a dependência financeira ou o interesse econômico dos clubes
- 13,5% fizeram referência aos impactos sociais das apostas, como vício, endividamento e efeitos sobre famílias
- 10,5% recorreram a um argumento histórico: o futebol brasileiro existia antes da expansão das bets. A própria expressão “fim do futebol brasileiro”, utilizada para dimensionar os possíveis impactos econômicos das restrições, passou a ser apropriada de forma irônica nas redes.
Alguns jornalistas e comentaristas esportivos usaram as redes para se posicionar. Gian Oddi, da Espn, disse ter dificuldade para acietar o argumento de que, sem as bets, os apostadores migrariam para a clandestinidade, já que esse tipo de aposta já existem há décadas no Brasil.
“Facilidade para se apostar e o estímulo constante para que se aposte são as causas”
Oddi aponta que, mesmo que as apostas clandestinas já existiam, o cenário “caótico de vidas ceifadas e famílias destruídas é um fenômeno recente”. O jornalista argumenta que a facilidade para se apostar e o estímulo constante para que se aposte é o principal fator para a epidemia de viciados em jogos de apostas que vivemos.
“A morte do futebol brasileiro? Se vier a ocorrer porque a incompetência dos clubes os fez depender do vício alheio para sobreviver, que assim seja”, disse Oddi.
Futebol precisa da miséria do torcedor para existir?
O avanço das apostas online, conhecidas como bets, atingem diretamente o orçamento das famílias brasileiras, a saúde mental e a atividade econômica.
Pesquisas recentes apontam aumento da participação da população nas plataformas, crescimento dos casos de comportamento de risco e maior procura por atendimento médico e psicológico relacionado aos jogos.
1,4 milhão de brasileiros desenvolveram dependência em apostas
O III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) estima que 7,3% da população brasileira, equivalente a 10,9 milhões de pessoas, apresenta padrão de jogo de risco ou problemático. O levantamento aponta ainda que aproximadamente 1,4 milhão de brasileiros desenvolveram dependência relacionada às apostas.
Entre as modalidades de jogo mais utilizadas aparecem as loterias, citadas por 71,3% dos entrevistados, seguidas pelos sites de apostas online, com 32,1%, e pelo jogo do bicho, com 28,9%.
Procura por atendimento médico e psicológioco relacionados às apostas cresce 104% entre 2018 e 2025
Segundo o Guia de cuidados para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas, do Ministério da Saúde, foram registrados 10.553 atendimentos relacionados a jogo patológico e mania de jogo e aposta entre janeiro de 2018 e maio de 2025.
No período analisado, houve crescimento de 104% nos atendimentos. Do total, 4.316 foram realizados em regime ambulatorial, incluindo atendimentos nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
O Ministério da Saúde ressalva que os registros não especificam se o jogo patológico ou a mania de jogo e aposta estavam relacionados especificamente às bets. A pasta também alerta para a possibilidade de subnotificação e projeta que a demanda por atendimento continue crescendo.
Em março deste ano, o governo federal criou uma estratégia específica de teleatendimento para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. O serviço começou com capacidade de 600 atendimentos mensais, mas, diante da procura, foi ampliado para até 100 mil teleatendimentos por mês.
Desde o fim de março, 27.703 pessoas se cadastraram no serviço, segundo o Ministério da Saúde.
Outro indicador é a procura pela ferramenta de autoexclusão das plataformas de apostas, disponibilizada pelo governo federal em dezembro do ano passado. De acordo com informações da Agência Brasil, mais de 1 milhão de pessoas já se inscreveram no serviço.
R$ 62,5 bilhões saíram do orçamento das famílias por conta das apostas online
Um levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef), calculou o volume de recursos que deixou o orçamento dos apostadores.
Segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, as bets provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras em 2025.
A chamada saída líquida corresponde à diferença entre o dinheiro colocado pelos apostadores nas plataformas e os valores que retornaram na forma de prêmios. O cálculo, portanto, procura medir quanto permaneceu no setor depois de considerados os pagamentos aos jogadores.
Entre outubro de 2024 e março de 2026, o estudo estimou uma perda média de R$ 4,7 bilhões por mês. Em 2025, os R$ 62,5 bilhões representaram aproximadamente 0,68% da renda disponível das famílias.
O levantamento foi elaborado a partir de dados do Banco Central, das Estatísticas de Pagamentos por Atividade Econômica (Epae) e de análises próprias.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que representa empresas do setor, contestou os resultados. Em nota, a entidade afirmou que o estudo contém “erros graves”, desconsidera fatores macroeconômicos e apresentou como contraponto uma receita bruta oficial de R$ 37 bilhões em 2025.
Bets e as finanças domésticas: 53% dos apostadores já atrasaram alguma conta para apostar
A pesquisa Pulso Apostas 2026, realizada pelo instituto Hibou com 2.470 brasileiros maiores de idade das classes ABCD, aponta que 53% dos apostadores já atrasaram alguma conta para priorizar o dinheiro destinado às bets.
Entre eles, 25% disseram ter atrasado contas uma vez e 28% afirmaram que isso ocorreu algumas vezes.
O estudo também mostra que 59% dos jogadores já cortaram gastos domésticos para financiar apostas. Nesse grupo, 14% disseram ter feito isso uma vez e 45% relataram que o comportamento ocorreu algumas vezes.
Os valores apostados podem parecer pequenos quando considerados isoladamente. Cerca de 36% dos entrevistados disseram gastar entre R$ 21 e R$ 50 por aposta, enquanto 24% afirmaram utilizar até R$ 20.
O problema aparece quando a prática se torna frequente e passa a disputar espaço com despesas básicas. O dinheiro destinado à alimentação, contas da casa, transporte, educação ou outras necessidades pode ser redirecionado para as plataformas quando o jogo passa a ocupar uma parcela crescente do orçamento.
Apostas já fazem parte da rotina de 38% dos brasileiros
A mesma pesquisa indica que as apostas online já fazem parte da rotina de 38% dos brasileiros entrevistados.
Entre os que apostam, 39% afirmaram jogar algumas vezes por mês, 22% semanalmente e 11% várias vezes por semana.
O levantamento também identificou diferentes formas de relação com as apostas. Cerca de 46% dos entrevistados se classificaram como apostadores casuais. Outros 30% não souberam definir o próprio perfil, enquanto 18% disseram concentrar-se em mercados simples e 6% afirmaram atuar como analistas de probabilidades.
A busca por dinheiro fácil aparece como principal motivação, citada por 47% dos entrevistados.
Ao mesmo tempo, 80% dos participantes concordaram que a atividade pode causar dependência.
A pesquisa identificou sinais de descontrole financeiro ou emocional em 15% dos apostadores. Para 6%, esses impactos negativos ocorrem com frequência; para outros 9%, aparecem de maneira esporádica.
O estudo foi realizado digitalmente entre 28 e 31 de agosto deste ano e tem margem de erro de 1,9 ponto percentual.
Impacto negativo no PIB: Bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025
Um estudo do economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), calculou os possíveis efeitos das apostas sobre o Produto Interno Bruto, a arrecadação pública e a desigualdade.
Segundo a pesquisa, as bets teriam retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o equivalente a aproximadamente 0,9% a 1,1% do PIB.
O estudo estima que esse montante corresponda a entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia brasileira naquele ano, calculado em 2,3%.
Dinheiro de apostas deixa de circular em outras atividades de consumo e investimento, prejudicando a economia
A lógica apresentada é que o dinheiro direcionado às apostas deixa de circular em outras atividades de consumo e investimento. Assim, além da perda financeira dos jogadores, o estudo procura dimensionar possíveis efeitos sobre o conjunto da economia.
Klein também comparou a estimativa com os impactos projetados para o chamado tarifaço norte-americano sobre produtos brasileiros. Segundo o estudo, o impacto econômico estimado das bets seria aproximadamente cinco vezes maior que a estimativa citada para as tarifas.
As entidades que representam o setor de apostas, porém, afirmam que os resultados precisam ser analisados com cautela e defendem o aprofundamento da discussão sobre os impactos econômicos e sociais da atividade.
R$ 220,6 bilhões foram destinados a plataformas de bets em 2025
Os brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas plataformas de bets em 2025. Desse total, aproximadamente R$ 36,9 bilhões corresponderam às perdas dos apostadores convertidas em receita bruta.
Outros R$ 183,7 bilhões foram destinados ao pagamento de prêmios e à oferta de bônus sacáveis.
Leia o comunicado na íntegra
“O FIM DO FUTEBOL BRASILEIRO
O futebol acompanha com atenção as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece os desafios que sua expansão traz. Os impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis, exigem atenção permanente do Poder Público, das empresas e de todos os setores envolvidos.
Por isso, é fundamental aprimorar as medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção, para reduzir riscos e garantir um mercado responsável.
O Brasil escolheu enfrentar esse desafio pela regulamentação. A regulamentação estabeleceu regras rígidas para as empresas autorizadas a atuar no país, com regras claras que permitem ao Estado fiscalizar o mercado, responsabilizar quem descumpre a lei e combater a atuação de plataformas clandestinas.
Importante ressaltar que, nos últimos anos, o investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte. Este investimento impulsionou o futebol brasileiro de tal forma a dominar o cenário sul-americano em competições como a CONMEBOL Libertadores e a CONMEBOL Sul Americana e a colocar clubes brasileiros em posição de protagonismo.
Essa presença não se limita aos maiores clubes. Os recursos também alcançam equipes de menor expressão, divisões de acesso e competições com menor exposição comercial. Para muitos destas agremiações, especialmente aquelas localizadas no interior do país, não existe hoje outro segmento econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento.
Essas receitas são fundamentais para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, profissionais, projetos sociais e departamentos que não gerem recursos suficientes para se sustentar de maneira independente, como parte do futebol feminino e a formação de futuros talentos, os primeiros investimentos ameaçados quando a receita cai de forma abrupta.
Assim, os rumores sobre mudanças abruptas na regulamentação do mercado de apostas têm gerado enorme preocupação em todos os clubes, federações e entidades de administração do esporte.Uma mudança abrupta nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do país. Contratos regularmente firmados, planejamentos plurianuais e compromissos financeiros foram estabelecidos sob um marco regulatório construído pelo próprio Estado.
Para responder a um mercado que já existia e movimentava ilegalmente bilhões de reais, o país instituiu um ambiente regulado. Empresas foram autorizadas, passaram a recolher impostos e assumiram obrigações relacionadas à proteção do consumidor, ao bloqueio de menores, à prevenção de práticas abusivas e ao combate à lavagem de dinheiro e à manipulação de competições. Foi justamente a regulamentação do mercado que retirou o Brasil da liderança do ranking mundial de casos de manipulação.
Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades.
A consequência não será apenas uma porta escancarada para as apostas clandestinas, mas um golpe fatal para o futebol brasileiro, levando muitos clubes à insolvência. Isso, sem falar na insegurança jurídica e profissional que a medida acarretaria, especialmente para contratos regularmente firmados e planejamentos construídos sob o marco regulatório aprovado pelo Congresso Nacional e estabelecido pelo próprio Estado.
O que o futebol entende que deve ser feito, com o máximo rigor, é combater a ilegalidade, fortalecer a fiscalização e aperfeiçoar os mecanismos de proteção, sem colocar em risco um mercado que foi regulamentado pelo próprio Estado. O futebol se coloca à disposição do Governo Federal, do Congresso Nacional, das Autoridades Estaduais e Municipais para colaborar em mecanismos mais eficientes de educação e conscientização.
O futebol está mobilizado, reconhece suas responsabilidades e quer participar da solução, de uma forma racional e consciente.
O TORCEDOR NÃO PODE PAGAR ESSA CONTA.
SE ACABAR COM O MERCADO REGULADO, AS APOSTAS NÃO ACABAM.
O FUTEBOL É QUE ACABA”
Leia também
- Fim do futebol? Premier League restringe patrocínio de bets e clubes buscam novas fontes de receita
- Lula defende integração de forças de segurança contra crime organizado em agenda no Rio
- Lula vai à ONU: quando e qual será o tema do discurso de abertura
- Artistas se engajam na campanha de Lula e lançam mobilizações nas redes
- Site Jamesons declara apoio a Lula com referências da cultura nerd