Morre Zuenir Ventura, jornalista e escritor, aos 95 anos

Membro da Academia Brasileira de Letras, Zuenir Ventura teve carreira marcada pela cobertura política, temas sociais e a defesa dos direitos humanos
membro-da-academia-brasileira-de-letras-zuenir-ventura-teve-carreira-marcada-pela-cobertura-politica-temas-sociais-e-a-defesa-dos-direitos-humanos-foto-tomaz-silva-arquivo-agencia-brasil
Membro da Academia Brasileira de Letras, Zuenir Ventura teve carreira marcada pela cobertura política, temas sociais e a defesa dos direitos humanos. Foto: Tomaz Silva/Arquivo/Agência Brasil

O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, no Rio de Janeiro. A morte foi confirmada pela família e pela Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual era membro. O autor ficou conhecido por livros como 1968 – O Ano que Não Terminou e Cidade Partida, além de uma trajetória de mais de seis décadas na imprensa brasileira. Leia em TVT News.

Nascido em Além Paraíba, em Minas Gerais, em 1º de junho de 1931, Zuenir teve diferentes ocupações antes de se consolidar no jornalismo. Foi pintor de paredes, office-boy, jogador de basquete, arquivista e professor. Formado em Letras Neolatinas, iniciou a carreira na imprensa como arquivista do jornal Tribuna da Imprensa, em 1956.

Ao longo da carreira, trabalhou em veículos como Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Cruzeiro, Visão, Veja e IstoÉ. Também atuou como professor universitário e colunista do jornal O Globo.

>> Siga o grupo da TVT News no WhatsApp

Livros retrataram a ditadura e a violência urbana

Publicado em 1988, 1968 – O Ano que Não Terminou tornou-se uma de suas obras mais conhecidas. No livro, Zuenir reconstrói acontecimentos políticos e culturais daquele período, marcado pela repressão da ditadura militar e pela mobilização de jovens contra o regime. A obra inspirou a minissérie Anos Rebeldes, da TV Globo.

Outro trabalho de destaque foi Cidade Partida, lançado em 1994. O livro-reportagem aborda a violência urbana no Rio de Janeiro a partir da experiência do jornalista na comunidade de Vigário Geral, após a chacina de 1993. A obra recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem.

A cobertura do assassinato do seringueiro e ambientalista Chico Mendes, no Acre, também marcou sua trajetória. Em 1989, Zuenir publicou no Jornal do Brasil uma série de reportagens sobre o caso, que lhe rendeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog.

A experiência teve ainda um desdobramento pessoal: o jornalista acolheu Genésio Ferreira da Silva, então com 13 anos, principal testemunha do assassinato e ameaçado por pessoas ligadas ao crime. O menino viveu sob sua tutela até os 21 anos.

Jornalista foi eleito para a Academia Brasileira de Letras

Zuenir foi eleito para a ABL em outubro de 2014, na sucessão do escritor Ariano Suassuna. Tomou posse em março de 2015 e ocupava a Cadeira 32. Em 2008, recebeu o Troféu Especial de Imprensa da ONU pelo trabalho em defesa dos direitos humanos na imprensa, ao lado de Caco Barcellos, Henfil, José Hamilton Ribeiro e Ricardo Kotscho.

Além dos livros de reportagem, publicou crônicas, ensaios e obras de ficção, entre elas Sagrada Família, romance que se baseou em sua infância e adolescência, lançado em 2012. Em Minhas Histórias dos Outros, reuniu relatos sobre personalidades com quem conviveu, como Glauber Rocha, Betinho e Carlos Drummond de Andrade.

Zuenir morreu em casa, no Rio de Janeiro, em decorrência de uma pneumonia. Ele deixa a mulher, a jornalista Mary Akiersztein, dois filhos e dois netos. O velório está previsto para ocorrer na Academia Brasileira de Letras, nesta quarta-feira (23), e o sepultamento será no mausoléu dos imortais.

Nota de pesar do Ministério da Cultura

O Ministério da Cultura do Governo Federal emitiu uma nota de pesar pelo falecimento de Zuenir Ventura nesta terça (22). Leia a nota na íntegra:

Ministério da Cultura (MinC) lamenta a morte do jornalista e escritor Zuenir Ventura, aos 95 anos, nesta terça-feira (22). Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Zuenir acompanhou acontecimentos importantes da história recente do Brasil e transformou parte de sua experiência como repórter em livros que se tornaram referências do jornalismo e da literatura brasileira.

Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba (MG), Zuenir teve diferentes ocupações antes de ingressar no jornalismo. Foi pintor de parede, office-boy e arquivista, além de ter atuado como professor universitário. Começou a trabalhar na imprensa em 1956, na Tribuna da Imprensa, e, ao longo da carreira, passou por veículos como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil. Também atuou como colunista de O Globo.

Em 1988, publicou 1968 – O Ano que Não Terminou, obra que recupera acontecimentos e transformações daquele período da história brasileira e que posteriormente inspirou a minissérie Anos Rebeldes. No ano seguinte, foi ao Acre como repórter especial para acompanhar as investigações sobre o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes. A série de reportagens resultante desse trabalho recebeu os prêmios Esso de Jornalismo e Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Outro marco de sua produção foi Cidade Partida, publicado em 1994. A obra nasceu da experiência do jornalista em Vigário Geral, no Rio de Janeiro, após a chacina que deixou 21 mortos em 1993, e aborda temas como violência e desigualdade social. Em 1995, o livro conquistou o segundo lugar do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem.

Zuenir também publicou obras como Chico Mendes: Crime e Castigo, 1968: O que Fizemos de Nós e Sagrada Família. Em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupou a Cadeira nº 32, na sucessão de Ariano Suassuna. Tomou posse em março de 2015.

Ao unir reportagem, memória e literatura, Zuenir Ventura construiu uma obra dedicada a registrar e interpretar diferentes momentos da vida brasileira, deixando uma contribuição para o jornalismo, a literatura e a cultura do país.

O Ministério da Cultura manifesta solidariedade aos familiares, amigos, colegas de profissão e leitores de Zuenir Ventura.

Assuntos Relacionados