NY Times expõe contradições de Flávio Bolsonaro sobre fuga para os EUA

A entrevista do NY Times conduzida pela repórter Ana Ionova é aberta com a o retrato vilanizado de Flávio feito pelo fotógrafo Scott McIntyre
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Flávio Bolsonaro em entrevista ao jornal NY Times – Reprodução X

No clássico do Cinema Marginal, O Bandido da Luz Vermelha (1968), o criminoso Jorge invadia casas luxuosas em São Paulo utilizando uma lanterna com facho de luz vermelha diretamente no rosto das vítimas. Nesta quinta-feira (5), o NY Times publicou a primeira entrevista com Flávio Bolsonaro antes da sua fuga para os EUA.

A entrevista, conduzida pela repórter Ana Ionova, é aberta com a o retrato de Flávio feito pelo fotógrafo Scott McIntyre. É por meio dele que o leitor entende o tom da reportagem do NY Times que, como o bandido da luz vermelha, capturou o senador fujão. Leia em TVT News.

Flávio Bolsonaro concedeu a primeira entrevista após a fuga aos EUA ao jornal norte-americano The New York Times, mas acabou produzindo um resultado diferente daquele anunciado por seus aliados.

Apresentada como uma oportunidade para o senador expor uma suposta perseguição política e contestar o resultado das eleições brasileiras, a conversa revelou contradições em sua versão sobre a saída do país, além de recuperar as investigações de corrupção e lavagem de dinheiro que envolvem o parlamentar.

Ana Ionova conduziu a entrevista deixando o entrevistado à vontade, mas no texto publicado apresentou informações que colocam em dúvida diversas afirmaões de Flávio como, por exemplo, a de ter organizado sozinho a viagem para os Estados Unidos.

Segundo autoridades norte-americanas ouvidas pela publicação, um funcionário da Casa Branca providenciou o jatinho que o levou a Miami, enquanto a entrada do senador em território norte-americano foi autorizada diretamente pelo presidente Donald Trump.

A informação contradiz o relato apresentado por Flávio durante a entrevista de 75 minutos. Ele afirmou que não recebeu assistência de qualquer governo e que toda a operação foi organizada por conta própria. Questionado sobre os detalhes do trajeto, que passou pelo Equador e pela Argentina antes de chegar aos Estados Unidos, o senador evitou explicar como conseguiu realizar a viagem.

“Como cheguei aqui, vou levar isso para o túmulo comigo”, declarou.

A reportagem de Ana Ionova, correspondente do NY Times para o Brasil e países vizinhos, também registrou que um dos principais assessores do presidente argentino Javier Milei encontrou Flávio em um aeroporto durante a passagem pelo país. O conjunto de informações contrasta com a tentativa do senador de apresentar sua saída como uma decisão espontânea, tomada sem participação ou apoio de terceiros.

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Capa da entrevista publicada no NY Times – Foto: Reprodução

Investigações no Brasil e ordem para entregar passaportes

Outro ponto destacado pelo jornal é o contexto em que Flávio deixou o Brasil. O texto ressalta que o senador enfrenta investigações relacionadas a suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro e que sua saída ocorreu depois de as autoridades brasileiras determinarem a entrega de seus passaportes.

A reportagem relaciona, portanto, a fuga ao avanço das apurações e às medidas determinadas pela Justiça, e não apenas à alegada perseguição política descrita pelo parlamentar. Flávio deixou o país depois de perder a eleição presidencial e após receber a determinação para entregar os documentos no prazo de 24 horas. A ordem foi expedida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito de uma investigação sobre sua relação com o advogado Willer Tomaz.

O senador é alvo de duas apurações. Uma delas investiga possíveis irregularidades na movimentação de quase US$ 70 milhões do Banco Master destinados ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.

A suspeita é que parte dos recursos possa ter sido desviada para outras finalidades. O dinheiro foi direcionado a um fundo imobiliário nos Estados Unidos administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro.

A segunda investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro em operações envolvendo Willer Tomaz, empresas de pagamento e o setor de apostas no Rio de Janeiro. Relatório da Polícia Federal aponta registros de encontros entre Flávio e o advogado, além de referências a uma conta de uma empresa sediada em Portugal na qual o senador apareceria como “usuário master”.

O documento também menciona movimentações milionárias em contas relacionadas a Tomaz e viagens internacionais custeadas por uma holding do setor de apostas pertencente ao advogado.

Flávio reconhece a amizade com Tomaz, mas nega ter tido acesso ou poderes sobre contas de empresas do advogado. Também rejeita as suspeitas relacionadas às duas investigações. É importante destacar que o senador não foi formalmente acusado de crime, e os procedimentos seguem em andamento no STF.

Acusações de fraude eleitoral sem apresentação de provas

A entrevista também foi utilizada por Flávio para questionar a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Mesmo com o próprio PL tendo reconhecido o resultado, o senador voltou a afirmar que a derrota seria “matematicamente impossível” e repetiu suspeitas sobre as urnas eletrônicas e a apuração dos votos, sem apresentar provas que sustentem as acusações.

O New York Times contextualizou as declarações e lembrou que as alegações sobre o sistema eleitoral brasileiro já foram desmentidas. A publicação destacou que especialistas internacionais consideram as urnas eletrônicas brasileiras um dos sistemas mais seguros do mundo e que observadores internacionais avaliaram a votação e a apuração como regulares.

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População toma as ruas da Avenida Paulista em São Paulo para comemorar a reeleição do presidente Lula – Foto: Emanuela Godoy/TVT News

Flávio também questionou a prorrogação do horário de votação. A mudança, entretanto, havia sido solicitada pelas duas campanhas diante de problemas provocados por chuvas e atrasos no transporte público. A alteração atingiu cerca de 34 mil votos, enquanto Lula venceu por uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões.

Ao ser confrontado sobre suas suspeitas, o senador não apresentou evidências e afirmou: “Ninguém pode dizer com 100% de certeza que estou certo, nem com 100% de certeza que estou errado”. O jornal ainda diferenciou o cenário atual daquele de 2022, quando Jair Bolsonaro contestou a derrota para Lula e seus apoiadores participaram de mobilizações que culminaram nos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília.

Aliados mudam discurso após publicação

Antes da divulgação, aliados de Flávio haviam anunciado a entrevista como uma oportunidade de repercussão internacional. O influenciador Paulo Figueiredo chegou a classificá-la como uma conversa “red pill”, expressão associada a movimentos misóginos contrários às mulheres e ao feminismo.

Depois da publicação, porém, o discurso mudou. Figueiredo afirmou que já esperava uma cobertura desfavorável do jornal e que a participação de Flávio teria servido para recolocá-lo no debate internacional. Também criticou a edição do material e disse que o grupo havia solicitado a divulgação da entrevista na íntegra, mas que o pedido teria sido recusado.

Na madrugada desta sexta-feira (6), Eduardo Bolsonaro anunciou que divulgaria a gravação completa da conversa, alegando que o conteúdo publicado não reunia tudo o que foi dito durante mais de uma hora de entrevista.

Mesmo fora do Brasil, Flávio afirmou que pretende continuar atuando na política nacional e contestar judicialmente a vitória de Lula, embora tenha reconhecido que as chances de sucesso são pequenas. Também sinalizou a intenção de disputar novamente a Presidência caso haja uma nova eleição.

A entrevista, que deveria funcionar como vitrine internacional para a versão do senador, acabou dando destaque às perguntas que sua narrativa não respondeu: as circunstâncias da saída do país, o apoio recebido para chegar aos Estados Unidos e o contexto das investigações que seguem em andamento no Brasil.

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