Oposição do Paraguai pede impeachment do presidente

Centenas de manifestantes voltaram a protestar em Assunção pedindo a devolução do seu dinheiro e o julgamento do presidente Peña
paraguai-ueno-bank-santiago-pena-bancos
Clientes do Ueno Bank seguram uma faixa com os dizeres "Impeachment político do presidente Santiago Peña já!", durante um protesto após a intervenção do Banco Central do Paraguai na instituição, em Assunção, no dia 3 de novembro de 2026. No dia 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai assumiu o controle de uma importante instituição financeira ligada ao presidente Santiago Peña, deixando milhões de depositantes — incluindo aposentados — sem acesso ao seu dinheiro. (Foto de DANIEL DUARTE / AFP)

Da AFP em Assunção, Paraguai – Deputados da oposição apresentaram ao Congresso do Paraguai um pedido de impeachment contra o presidente do país e seu vice, em razão da crise que envolve um dos maiores bancos paraguaios e que levou ao congelamento dos depósitos de cerca de 3 milhões de pessoas. Leia em TVT News com informações da Agence France-Presse

Centenas de manifestantes voltaram a protestar em Assunção na noite de hoje, pedindo a devolução do seu dinheiro e o julgamento do presidente. Mais cedo, longas filas se formaram nas agências do Ueno Bank, por clientes querendo sacar seu dinheiro.

“É o dinheiro da nossa aposentadoria, que agora não sabemos se vamos receber”, disse à AFP a médica Teresa Montiel, que levou para o protesto um cartaz com a frase: “Unidos somos mais fortes”.

A crise começou ontem, depois que o Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu intervir no Ueno Bank por insuficiência de capital. Com isso, os serviços da instituição foram suspensos.

Quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios tem conta no banco. O escândalo levou à renúncia do presidente do BCP, Carlos Carvallo.

O deputado Mauricio Espínola, dissidente da base governista, disse à AFP que o pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña conseguiu as assinaturas necessárias para ser discutido na Câmara dos Deputados.

A convocação para discutir o impeachment “será amanhã, quinta-feira, às 10h” (mesmo horário em Brasília), acrescentou.

Peña, que assumiu o cargo em 2023 para um mandato até 2028, possuía ações de um grupo que controlava o Ueno Bank, das quais se desvinculou em 2025.

O texto da acusação apresentado à Câmara dos Deputados pede a abertura de um processo de impeachment “por mau desempenho de suas funções no exercício do cargo”. Entre as acusações contra Peña está a de “conflito de interesses”, além de questionamentos sobre o aumento do seu patrimônio.

O governo anunciou que vai devolver parte dos depósitos das pessoas afetadas.

Maioria incerta para pedir o immpeachment do presidente do Paraguai

Os deputados precisam reunir 53 votos, de um total de 80 parlamentares, para aprovar o pedido contra Peña e seu vice-presidente, Pedro Alliana. Caso isso aconteça, o Senado conduzirá o julgamento, que poderá destituir os governantes caso sejam alcançados 30 votos entre os 45 senadores.

O Partido Colorado, governante, tem maioria própria nas duas câmaras do Congresso, mas seu presidente, o ex-chefe de Estado Horacio Cartes, distanciou-se do governo.

A oposição acusa Peña de tomar “decisões regulatórias supostamente favoráveis ao Ueno Bank” e de concentrar recursos previdenciários na instituição, em meio a um possível conflito de interesses decorrente de seus vínculos passados com o banco.

Peña sancionou hoje uma lei aprovada rapidamente pelo Congresso, que “permitirá aos correntistas receber, no menor prazo possível, parte do fundo de garantia, a fim de que o dinheiro volte para as mãos daqueles a quem corresponde”. A norma estabelece que os pagamentos sejam realizados nos próximos cinco dias.

O Congresso também aprovou um dos três candidatos indicados pelo Executivo para recompor o conselho diretor do Banco Central, que, segundo a Constituição, opera como um órgão autônomo.

O BCP apresentou ontem uma denúncia contra o Ueno Bank, que resultou na prisão, no mesmo dia, de oito diretores da instituição, entre eles seu presidente, Miguel Vázquez.

O Banco Central garantiu que os clientes com depósitos congelados “receberão um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis”, ou cerca de R$ 9 mil.

“Perdi todas as economias da minha vida, só tenho 8 mil guaranis (cerca de R$ 7). Todos têm que ser presos”, disse ontem à AFP, chorando, Marcelino Vergara, 68.

Em 2012, o então presidente, Fernando Lugo, foi destituído em um processo de impeachment no Congresso, após um massacre que deixou 11 camponeses e 6 policiais mortos ocorrido a cerca de 250 km de Assunção. O ex-bispo havia chegado ao poder em 2008, encerrando 61 anos de hegemonia do Partido Colorado.

© Agence France-Presse

Entenda o que está acontecendo no Paraguai

O Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai (atendendo a cerca de 3 milhões de pessoas, quase metade da população do país), entrou em colapso financeiro, levando o Banco Central do Paraguai (BCP) a decretar sua intervenção e fechamento em 3 de novembro de 2026.

paraguai-banco-ueno-bank
Clientes do Ueno Bank participam de um protesto após a intervenção do Banco Central do Paraguai na instituição, em Assunção, no dia 3 de novembro de 2026. No dia 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai assumiu o controle de uma importante instituição financeira ligada ao presidente Santiago Peña, deixando milhões de depositantes — incluindo aposentados — sem acesso ao seu dinheiro. (Foto de DANIEL DUARTE / AFP)

Principais acontecimentos com o Ueno Bank

  • Insolvência e Bloqueio de Recursos: O BCP interveio na instituição após constatar que o índice de solvência do Ueno caiu abaixo do mínimo legal, congelando o dinheiro de milhões de correntistas e gerando protestos em Assunção.
  • Prisões e Investigações: A Justiça determinou a prisão preventiva de oito executivos e dirigentes do banco e do Grupo Vázquez (controlador da instituição), incluindo o presidente do Ueno Bank, Juan Manuel Gustale, e o fundador e vice-presidente, Miguel Vázquez. Também foi ordenado o bloqueio de cerca de US$ 70 milhões em bens dos envolvidos.
  • Repercussão Política e Renúncias:
    • O presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo.
    • O vice-presidente do país, Pedro Alliana, suspendeu temporariamente sua pré-candidatura à Presidência.
    • Partidos de oposição começaram a articular um pedido de impeachment contra o presidente paraguaio Santiago Peña, devido a antigos laços e supostas ligações políticas com o grupo controlador do banco.
  • Garantia aos Depositantes: O Banco Central anunciou que os correntistas terão acesso a uma antecipação do Fundo de Garantia de Depósitos (com pagamentos iniciais de até 10 milhões de guaranis, cerca de R$ 9.200), enquanto a agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota do banco para “D” (default/falência técnica)

Qual a relação do presidente do Paraguai com o Ueno Bank

A relação do presidente do Paraguai, Santiago Peña, com o Ueno Bank é direta, comercial e política, sendo o principal fator que desencadeou o pedido de seu impeachment por parte da oposição.

Os principais pontos que conectam o presidente à instituição incluem:

1. Participação societária (Ex-acionista)

Santiago Peña foi acionista da Ueno Holding, o grupo empresarial que controla o Ueno Bank. Ele possuía mais de 6,1 bilhões de guaranis (cerca de R$ 5,6 milhões) em ações. O presidente se desvinculou oficialmente da holding em março de 2025, mas a oposição alega que ele manteve forte influência nos bastidores e se omitiu diante de irregularidades subsequentes.

banco-central-do-paraguai-identificou-grave-insuficiencia-de-capital-no-ueno-bank-ligado-ao-presidente-santiago-pena-bloqueio-dos-depositos-levou-clientes-as-ruas-e-provocou-renuncia-do-chefe-da-autoridade-monetaria-foto-ricardo-stuckert-pr
Banco Central do Paraguai identificou grave insuficiência de capital no Ueno Bank, ligado ao presidente Santiago Peña; bloqueio dos depósitos levou clientes às ruas e provocou renúncia do chefe da autoridade monetária. Foto: Ricardo Stuckert/PR

2. Conflito de interesses no Banco Central

Ao assumir a presidência em 2023, Peña nomeou Carlos Carvallo para comandar o Banco Central do Paraguai (BCP). Acontece que Carvallo era, até a véspera da nomeação, o presidente-executivo do próprio Ueno Bank. Críticos apontam que essa indicação gerou um claro conflito de interesses, sugerindo que o Banco Central afrouxou regras de fiscalização para favorecer e acobertar os problemas financeiros do banco digital.

3. Ueno Bank, o Master do Paraguai

Durante o governo de Peña, o Ueno Bank registrou uma expansão agressiva e passou a concentrar cerca de US$ 850 milhões em recursos do Estado. Isso incluiu verbas do Ministério da Economia e, principalmente, fundos previdenciários do Instituto de Previdência Social (IPS). A oposição o acusa de manipulação regulatória e favorecimento indevido para inflar o caixa do banco privado com dinheiro público.

4. Empréstimos pessoais e evolução patrimonial

Investigações e declarações juradas do próprio presidente apontam que, enquanto o banco captava dinheiro do Estado, Peña obteve um crédito financeiro de 3,5 bilhões de guaranis (cerca de R$ 3,2 milhões) junto à instituição para financiar projetos pessoais, incluindo a construção de uma mansão de veraneio.

Os opositores utilizam essa transação e o enriquecimento de Peña entre 2017 e 2023 para sustentar as acusações de “benefício patrimonial” e “tráfico de influência”.

O presidente nega qualquer irregularidade e afirma que o colapso é um “caso isolado”. No entanto, a proximidade com os executivos presos e o impacto sobre as economias de milhões de paraguaios destruíram a confiança política em sua gestão.

Leia também

Assuntos Relacionados