Ata do Copom indica cautela diante da guerra no Oriente Médio

BC vê crescimento moderado, mercado de trabalho ainda resiliente e impacto do conflito externo sobre combustíveis
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Apesar das pressões inflacionárias, o Copom reconhece que a economia brasileira mantém dinamismo. Foto: Raphael Ribeiro/ BCB

A ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta terça-feira (5) pelo Banco Central, detalhou os motivos que levaram à redução da taxa básica de juros de 14,75% para 14,50% ao ano e indicou que o processo de queda da Selic seguirá cercado de cautela. O documento reconhece que a economia brasileira apresenta sinais de desaceleração gradual, mas ressalta que o ambiente internacional piorou com os conflitos no Oriente Médio, elevando incertezas e pressionando a inflação. Saiba mais na TVT News.

O colegiado comandado pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, manteve a leitura de que a política monetária restritiva adotada nos últimos meses já vem surtindo efeito sobre a atividade econômica. Segundo a ata, os indicadores domésticos mostram uma trajetória de moderação do crescimento, enquanto o mercado de trabalho permanece resistente, com desemprego em níveis historicamente baixos e renda real em alta.

Na avaliação do Copom, esse quadro cria condições para continuar ajustando os juros, ainda que em ritmo moderado. O BC classificou o corte de 0,25 ponto percentual como “o mais adequado” para o momento, diante da necessidade de equilibrar combate à inflação e sustentação do nível de atividade.

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A decisão também foi apresentada como compatível não apenas com a convergência da inflação para a meta, mas com a suavização das oscilações econômicas e o incentivo ao pleno emprego — ponto que dialoga com a necessidade de preservar o crescimento e a geração de renda no país.

Guerra no Oriente Médio pesa no cenário

O principal fator de preocupação destacado na ata é externo. O Banco Central afirma que a duração, a extensão e os efeitos econômicos do conflito no Oriente Médio seguem indefinidos, com reflexos sobre preços de commodities, combustíveis e condições financeiras globais.

As autoridades monetárias registraram que as divulgações recentes de inflação ao consumidor e ao produtor vieram acima do esperado, já refletindo impactos da crise geopolítica. Em especial, o choque no petróleo aparece como risco relevante para os próximos meses.

O documento afirma que o Comitê está comprometido em combater chamados “efeitos de segunda ordem” desse choque — quando a alta inicial de energia e combustíveis se espalha para outros setores da economia, contaminando preços em cadeia.

Inflação ainda distante da meta

A ata mostra que o Banco Central segue desconfortável com o comportamento das expectativas inflacionárias. As projeções coletadas no boletim Focus para 2026 e 2027 permanecem acima da meta, em 4,9% e 4,0%, respectivamente.

No cenário de referência do próprio Copom, a estimativa para a inflação acumulada em 2026 subiu para 4,6%, acima do teto da meta contínua, enquanto para o quarto trimestre de 2027 ficou em 3,5%.

O colegiado destacou ainda uma piora nas expectativas mais longas, especialmente para 2028. Para o BC, quando agentes econômicos passam a esperar inflação persistentemente mais alta, o custo para trazê-la de volta ao centro da meta tende a aumentar.

Por isso, a ata afirma que, em ambiente de expectativas desancoradas, é necessária uma política monetária mais restritiva por mais tempo do que seria exigido em condições normais.

Economia desacelera, mas segue crescendo

Apesar das pressões inflacionárias, o Copom reconhece que a economia brasileira mantém dinamismo. O documento cita que diferentes setores reagem de forma distinta aos juros elevados: segmentos mais dependentes de crédito desaceleram mais, enquanto áreas ligadas à renda das famílias seguem resilientes.

Indicadores preliminares do primeiro trimestre de 2026 apontam retomada em relação ao fim de 2025. O Banco Central trabalha com crescimento positivo do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, ainda que inferior ao observado anteriormente.

Essa leitura reforça que o Brasil segue expandindo sua atividade mesmo em ambiente de juros elevados, sustentado por mercado de trabalho robusto, aumento da renda e políticas públicas de estímulo ao investimento e ao consumo.

Fiscal e coordenação econômica

A ata também retomou o debate sobre política fiscal. O Copom argumenta que medidas fiscais críveis, previsíveis e anticíclicas ajudam a reduzir prêmios de risco e favorecem a queda estrutural dos juros.

O documento defende harmonia entre política monetária e política fiscal, apontando que reformas estruturais e compromisso com a sustentabilidade da dívida pública contribuem para um ambiente macroeconômico mais favorável ao crescimento.

Na prática, o texto sinaliza a importância de coordenação entre Banco Central e governo federal para consolidar um ciclo duradouro de expansão econômica com inflação controlada.

Próximos passos dependerão dos dados

Embora o corte desta reunião tenha mantido o ciclo de flexibilização, o Banco Central evitou indicar antecipadamente os próximos movimentos. A ata repete que a magnitude e a duração do processo de “calibração” da Selic serão definidas ao longo do tempo, conforme novas informações forem surgindo.

Isso significa que futuras reduções dependerão do comportamento da inflação, do câmbio, da atividade econômica e, sobretudo, da evolução da crise no Oriente Médio.

A próxima reunião do Copom está marcada para os dias 16 e 17 de junho. Até lá, o mercado acompanhará se a desaceleração da inflação doméstica será suficiente para abrir espaço a novos cortes e consolidar uma trajetória de juros menores no Brasil.

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