Fim da 6×1 e jornada de 4 dias: pautas que os bancários colocam no centro do debate

Reivindicação histórica do movimento sindical: redução da jornada como instrumento para gerar empregos
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Fim da escala 6x1 é uma das principais pautas da classe trabalhadora. Foto: Dino Santos

Artigo da Presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, Neiva Ribeiro, sobre o fim da 6×1 e semana de 4 dias especial para a TVT News.

Fim da 6×1 e jornada semanal de 4 dias: pautas que os bancários colocam no centro do debate

Por Neiva Ribeiro

Presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região

Os dados do Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, referentes a 2025, revelam um movimento significativo no mercado de trabalho brasileiro: o aumento expressivo do número de trabalhadores que pedem demissão.

Entre 2020 e 2025, os desligamentos por iniciativa do próprio trabalhador cresceram de forma contínua, saltando de 3,8 milhões para 9,1 milhões de registros e ampliando sua participação de 24,1% para 36,1% do total de desligamentos.

Trata-se de uma mudança relevante que aponta não apenas para dinâmicas econômicas, mas também para transformações mais profundas na relação entre trabalho, vida e expectativas dos trabalhadores.

O perfil de quem protagoniza esse movimento em 2025 ajuda a compreender melhor esse fenômeno. São majoritariamente trabalhadores jovens, com idade média de 32 anos, submetidos a jornadas semanais elevadas, em torno de 42 horas, e com remuneração média de R$ 2.302,53 no momento do desligamento, equivalente a cerca de 1,5 salário-mínimo.

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Dados do Caged mostram que, entre os pedidos de demissão, 47,3% são de mulheres, o que mostra que a atual jornada de trabalho é exaustiva. Foto: Adonis Guerra

A presença de pessoas negras é expressiva, representando 54% dos casos, enquanto as mulheres correspondem a 47,3% do total, o que evidencia que os pedidos de demissão atravessam diferentes grupos sociais.

Esse cenário dialoga diretamente com o debate sobre a organização do tempo de trabalho no Brasil. Na categoria bancária, por exemplo, a reivindicação pela redução da jornada para quatro dias semanais, sem diminuição de salários e direitos, já aparece desde a Campanha Nacional Unificada de 2022 como uma pauta estratégica.

Não se trata de uma demanda isolada, mas de uma reivindicação histórica do movimento sindical em escala global, que entende a redução da jornada como instrumento capaz de gerar empregos, distribuir melhor o tempo de trabalho e melhorar a qualidade de vida.

Não por acaso, o debate sobre redução de jornada e o fim da escala 6×1 voltou ao centro da agenda nacional. Essa escala, que prevê apenas um dia de descanso após seis dias consecutivos de trabalho, é amplamente questionada por seus impactos negativos sobre a saúde física e mental dos trabalhadores, além de comprometer o convívio familiar e o direito ao lazer. A proposta de emenda constitucional que busca reduzir a jornada semanal e extinguir esse modelo representa, nesse sentido, um avanço importante.

A tramitação da proposta, no entanto, não ocorre sem resistência. Entidades empresariais, como a Confederação Nacional da Indústria, têm se posicionado contra a medida, argumentando que a redução da jornada poderia elevar significativamente os custos das empresas. Esse argumento, porém, é relativizado por estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, que indicam que o impacto seria limitado em diversos setores, com aumento inferior a 1% nos custos operacionais da indústria e do comércio.

O embate revela que o debate sobre a jornada de trabalho não é apenas técnico, mas profundamente político, envolvendo diferentes projetos de sociedade e de desenvolvimento.

Entre os bancários, esse quadro é agravado pela alta produtividade do setor, que não se traduz em melhores condições de trabalho, mas, ao contrário, tem sido acompanhada por índices preocupantes de adoecimento. Em 2024, o país registrou 471,6 mil afastamentos associados à saúde mental, sendo 3,1% na categoria bancária, que representa, no entanto, apenas 0,7% dos vínculos ativos. Doenças como depressão e ansiedade têm se tornado cada vez mais comuns, evidenciando os limites de um modelo baseado na intensificação do trabalho.

Adoecimento mental no trabalho

471,6 mil
afastamentos por saúde mental no Brasil em 2024
3,1%
dos afastamentos estão na categoria bancária
Depressão e ansiedade estão entre os principais problemas
Intensificação do trabalho amplia o adoecimento

Experiências internacionais e estudos recentes demonstram que a redução da jornada pode manter ou até aumentar a produtividade, ao mesmo tempo em que melhora o bem-estar dos trabalhadores. No caso dos bancários, onde os ganhos de eficiência são evidentes, essa proposta reforça a necessidade de que os avanços tecnológicos sejam compartilhados de forma mais justa. Mais tempo livre, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e melhores condições de saúde não devem ser vistos como privilégios, mas como direitos.

Nesse sentido, o crescimento das demissões a pedido pode ser interpretado como um sinal de esgotamento, mas também como um indicativo de que os trabalhadores estão buscando novas formas de se relacionar com o trabalho.

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Argumentos contra o fim da escala 6×1 lembram a retórica das elites escravocratas contra a abolição. Foto: Letycia Bond/Agência Brasil

Defender o fim da escala 6×1 e avançar na construção da semana de quatro dias é, portanto, mais do que uma pauta trabalhista: é a defesa de um projeto de país que valoriza a dignidade, a saúde e o futuro da classe trabalhadora, reconhecendo que o trabalho deve estar a serviço da vida, e não o contrário.

Sobre a autora

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Neiva Ribeiro, presidente do Sindicato dos Bancários

Neiva Ribeiro é a atual presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região. É formada em Letras pela Universidade Guarulhos, pós-graduada em Gestão Pública pela Fesp-SP, e em Gestão Universitária pela Unisal. É funcionária do Bradesco desde 1989. Ingressou na direção do Sindicato em 2000.

Foi diretora-geral da Faculdade 28 de Agosto de Ensino e Pesquisa, secretária de Formação e secretária-geral da entidade. 

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