Brasil rebaixa relação com Argentina após novos ataques de Milei

Itamaraty reduz representação diplomática ao nível de encarregado de negócios e mantém embaixador brasileiro em Brasília enquanto Javier Milei continuar com ofensas ao presidente Lula e às instituições brasileiras
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Novas manifestações demonstraram que não havia qualquer sinal de distensão diplomática. Foto: Beto Barata/PL

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas entre Brasil e Argentina após uma nova escalada de ataques do presidente argentino, Javier Milei, contra Lula e autoridades brasileiras. A medida, considerada uma das mais severas já adotadas entre os dois países desde a redemocratização, estabelece que a representação bilateral passe a funcionar apenas no nível de encarregado de negócios, enquanto persistirem as declarações ofensivas do mandatário argentino. Saiba mais na TVT News.

A decisão foi comunicada oficialmente pelo Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) ao embaixador da Argentina em Brasília, Guillermo Daniel Raimondi, por meio de uma nota de protesto. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro confirmou que o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, permanecerá em Brasília por tempo indeterminado e não retornará ao posto diplomático na capital argentina enquanto a crise não for superada.

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Segundo o Itamaraty, a medida responde diretamente à repetição de ataques de Milei ao presidente Lula, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e às instituições democráticas brasileiras. O governo considera que houve um rompimento dos parâmetros mínimos de convivência diplomática entre chefes de Estado.

Relação passa ao nível de encarregado de negócios

Na prática, o rebaixamento significa que as embaixadas continuam funcionando, mas deixam de operar sob a direção de embaixadores. As atividades passam a ser conduzidas por encarregados de negócios, diplomatas responsáveis pela administração cotidiana da representação diplomática em momentos de crise política.

Apesar da gravidade da decisão, o Brasil não declarou o embaixador argentino persona non grata nem determinou sua expulsão do território nacional. Raimondi poderá permanecer em Brasília, mas deixará de ser o principal interlocutor político do governo brasileiro.

Da mesma forma, Julio Bitelli continuará no Brasil. O diplomata havia sido convocado para consultas logo após os primeiros ataques de Milei durante a convenção do PL, realizada em São Paulo no fim de julho, e agora recebeu orientação para permanecer em Brasília por tempo indeterminado.

Fontes do Itamaraty classificam a medida como um instrumento diplomático de pressão, destinado a sinalizar a gravidade da crise sem romper formalmente as relações entre os dois países.

Novas declarações agravaram a crise

A decisão brasileira foi tomada após Milei voltar a atacar Lula durante entrevista concedida ao canal argentino LN+, ligado ao jornal La Nación.

Na entrevista, o presidente argentino repetiu acusações já feitas anteriormente e voltou a chamar Lula de “ladrão”, “corrupto” e “presidiário”. Milei também questionou, sem apresentar provas, as decisões do Judiciário brasileiro que anularam as condenações da Operação Lava Jato.

Ao justificar suas declarações, afirmou que seria “menos grave chamar um ladrão de ladrão do que cometer o ato de roubar”. Também acusou o governo brasileiro, sem apresentar evidências, de interferir na política argentina e de financiar campanhas contra seu governo.

Para o Itamaraty, as novas manifestações demonstraram que não havia qualquer sinal de distensão diplomática após os episódios registrados na semana anterior.

Ataques começaram durante convenção do PL

O atual impasse teve início em 25 de julho, quando Milei participou, em São Paulo, da convenção nacional do Partido Liberal (PL), que oficializou a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro.

Durante o evento político, o presidente argentino fez um discurso em defesa do liberalismo econômico, criticou governos de esquerda e direcionou ataques pessoais ao presidente brasileiro.

Na ocasião, chamou Lula de “presidiário”, “corrupto” e “ladrão”. Também atacou o ministro do STF Alexandre de Moraes, a quem se referiu como “lixo careca”, depois de ter sido impedido de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.

Após o discurso, Milei ainda compartilhou nas redes sociais publicações que reforçavam os ataques ao governo brasileiro.

A resposta do Brasil foi imediata. O Itamaraty convocou o embaixador argentino para prestar esclarecimentos e chamou Julio Bitelli de volta a Brasília para consultas, procedimento considerado um gesto diplomático de forte desaprovação.

Lula evita confronto direto, mas critica postura do presidente argentino

Inicialmente, Lula evitou ampliar a crise. Questionado por jornalistas sobre as declarações de Milei, respondeu de forma irônica:

“Quem é esse cara?”

Dias depois, porém, endureceu o tom ao comentar a participação do presidente argentino no evento do PL.

Durante ato político do PSB, Lula classificou a visita como uma “patacoada” e afirmou que não pretende transformar divergências entre governos em conflitos permanentes entre os povos dos dois países.

O presidente também declarou que mantém respeito pelo povo argentino e que continuará tratando as relações bilaterais como uma questão de Estado, independentemente das posições adotadas por Milei.

Itamaraty classifica episódio como sem precedentes

Em nota divulgada após os ataques feitos em território brasileiro, o Ministério das Relações Exteriores afirmou não haver precedentes para que um presidente estrangeiro visite o Brasil e utilize o espaço para ofender o chefe de Estado brasileiro, instituições democráticas e autoridades nacionais.

O chanceler Mauro Vieira classificou o episódio como extremamente grave e afirmou que o governo avaliaria permanentemente a evolução da crise.

Com as novas declarações feitas na televisão argentina, o governo concluiu que não havia ambiente político para normalizar as relações diplomáticas.

Argentina reage e acusa Brasil de isolamento

Horas após o anúncio brasileiro, a chancelaria argentina divulgou comunicado criticando a decisão do governo Lula.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores argentino, o Brasil estaria “se isolando do resto da região por questões puramente ideológicas”. O governo de Milei afirmou ainda que nunca respondeu a divergências políticas por meio de medidas institucionais semelhantes.

Apesar da resposta oficial, integrantes do governo argentino já haviam declarado anteriormente que não pretendiam romper relações diplomáticas com o Brasil.

Parceiros históricos enfrentam maior crise diplomática em décadas

Brasil e Argentina mantêm uma das mais importantes relações políticas e econômicas da América do Sul. Os dois países são sócios fundadores do Mercosul e figuram entre os principais parceiros comerciais um do outro.

O atual rebaixamento diplomático representa o momento de maior tensão bilateral em décadas e rompe uma tradição de diálogo institucional preservada mesmo durante períodos de forte divergência ideológica entre governos.

Por enquanto, o governo brasileiro mantém aberta a possibilidade de normalização das relações. No entanto, a orientação do Itamaraty é de que o retorno do embaixador Julio Bitelli a Buenos Aires somente ocorrerá quando cessarem os ataques públicos do presidente Javier Milei contra Lula, as instituições democráticas e autoridades brasileiras.

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