O plano de negócios do filme Dark Horse, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, previa uma bilheteria que poderia superar com larga margem os maiores resultados registrados pelo cinema brasileiro. O documento, encontrado pela Polícia Federal (PF) no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, projetava arrecadação entre US$ 45 milhões e US$ 100 milhões em três cenários: pessimista, conservador e otimista.
A documentação veio a público com o levantamento de parte do sigilo do caso Master e integra a investigação sobre o financiamento do filme. Em manifestação no inquérito, a Procuradoria-Geral da República (PGR) destacou a diferença entre as projeções apresentadas no plano de negócios e os parâmetros do mercado cinematográfico brasileiro.
Segundo a PF, o documento foi enviado a Vorcaro pelo empresário Thiago Miranda. O plano, identificado como “Plano de Negócios Capitão do Povo V5”, apresentava três possibilidades de receita bruta de bilheteria: US$ 45 milhões no cenário pessimista, US$ 70 milhões no conservador e US$ 100 milhões no otimista.
A PGR também destacou que o contrato localizado nas comunicações extraídas do celular de Vorcaro previa investimento total de US$ 24 milhões, valor que, conforme a manifestação, correspondia a cerca de R$ 134 milhões.
Para a PF, as estimativas de bilheteria estavam muito acima dos parâmetros do mercado nacional. No relatório, os investigadores afirmaram que a discrepância entre as projeções e parâmetros considerados realistas justificava o aprofundamento da apuração sobre a viabilidade econômica e a finalidade da operação.
Quais as maiores bilheterias do cinema no Brasil
A comparação apresentada nos documentos da investigação toma como referência Minha Mãe é uma Peça 3, lançado em 2019. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) registraram que o filme ultrapassou R$ 137,8 milhões de arrecadação e 8,6 milhões de espectadores ainda no início de 2020.
O filme de Paulo Gustavo tornou-se, naquele momento, o longa brasileiro de maior arrecadação da série histórica acompanhada pela Ancine. A produção terminou com mais de 11 milhões de ingressos vendidos e consolidou uma das maiores marcas do cinema nacional.
No documento analisado pela PF e pela PGR, a referência utilizada é de aproximadamente R$ 120 milhões para Minha Mãe é uma Peça 3. A partir desse parâmetro, a investigação calculou que o cenário otimista de Dark Horse, de US$ 100 milhões, representaria mais de três vezes o recorde nacional mencionado no relatório.

A estimativa conservadora, de US$ 70 milhões, também colocaria Dark Horse em uma faixa muito superior à arrecadação histórica de grandes produções nacionais. Segundo levantamento do ICL Notícias, a projeção conservadora equivaleria a cerca de R$ 356 milhões pela cotação utilizada pela publicação, acima dos R$ 338,6 milhões arrecadados por Vingadores: Ultimato no Brasil.
O cenário otimista chegaria a aproximadamente R$ 509 milhões pela cotação do dólar à época. O valor também ultrapassaria a arrecadação de Homem-Aranha: Um Novo Dia, que havia alcançado R$ 344 milhões até o fim de agosto, segundo os dados citados pelo ICL.
Dark Horse poderia usar a estratégia de Os 10 Mandamentos
Um dos precedentes que poderiam explicar a projeção de bilheteria elevada para “Dark Horse” é o caso do filme “Os Dez Mandamentos – O Filme”, lançado em 2016 pela Record. A produção, uma compilação de cenas exibidas na novela homônima, acumulou 11,216 milhões de ingressos vendidos, tornando-se a maior bilheteria do cinema nacional na época, superando “Tropa de Elite 2”.
No entanto, a impressionante bilheteria de “Os Dez Mandamentos” sempre foi alvo de polêmicas. Conforme apurou o jornal O Globo à época do lançamento, algumas sessões não lotaram, e houve relatos de que ingressos estariam sendo distribuídos em cultos.
A Folha registrou, por exemplo, uma sessão no Cinemark do shopping Raposo Tavares que aparecia como esgotada, mas na qual a reportagem contou apenas 15 espectadores em uma sala com capacidade para 279 pessoas. O cinema confirmou a venda de sessões inteiras, enquanto responsáveis por redes de exibição relataram compras coletivas feitas por igrejas.
O Correio Braziliense também noticiou relatos de aquisição de grandes quantidades de ingressos por pessoas ligadas à Igreja Universal, incluindo um caso no Recife em que um comprador adquiriu 22 mil entradas. As reportagens da época levantaram a hipótese de que parte desses ingressos teria sido distribuída a fiéis.
A Universal sempre negou estar diretamente envolvida na compra de bilhetes, embora tenha confirmado que seus grupos voluntários e projetos beneficentes apoiavam “que o público em geral tenha a oportunidade de assistir ao filme”.
Mesmo que “Dark Horse” adotasse estratégia semelhante de mobilização de público por meio de igrejas e grupos organizados, os números ainda ficariam abaixo da estimativa pessimista do plano de negócios.
PGR vê incompatibilidade dos valores de bilheteria
Em resposta ao inquérito da Polícia Federal e atendendo ao pedido do relator André Mendonça, a PGR entendeu que os valores estimados de publicidade são desproporcionais com bilheterias de filmes no Brasil.
O parecer da PGR alerta que “cumpre destacar que o contrato localizado nas comunicações extraídas do aparelho celular de DANIEL BUENO VORCARO prevê investimento total de US 24.000.000,00 (R$ 134 milhões (pela cotação atual).”
Sobre a perspectiva de bilheteria do filme Dark Horse, o parecer da PGR que veio a público hoje pondera: “igualmente relevante é o exame do Plano de Negócios Capitão do Povo V5, documento localizado nas comunicações extraídas do celular de DANIEL VORCARO e descrito na IPJ-A nº 270/2026 como plano de negócios do filme enviado por THIAGO MIRANDA”
O plano de negócios para Dark Horse apresentava projeções de receita bruta de bilheteria em três cenários:
- pessimista: US 45.000.000,00
- conservador: US 70.000.000,00
- otimista: US 100.000.000,00
A PGR lembra que o “cenário otimista projetado para Dark Horse superaria esse recorde histórico nacional em mais de três vezes, situando-se na faixa de desempenho de grandes produções hollywoodianas de bilheteria global”
Para a PGR, “a discrepância entre as projeções do plano de negócios e qualquer parâmetro realista do mercado cinematográfico nacional constitui elemento que reforça a necessidade de apuração quanto à viabilidade econômica e à verdadeira finalidade da operação.”
“O aparente descompasso entre o valor previsto para a produção de Dark Horse e os parâmetros usualmente praticados no mercado audiovisual brasileiro constitui circunstância objetiva que, embora não caracterize por si só qualquer ilícito penal, reforça a necessidade de aprofundamento da investigação acerca da efetiva destinação dos recursos e da compatibilidade econômica da operação financeira identificada”, diz a PGR, dando base para investigação da Polícia Federal.
Confira a íntegra do documento obtido do inquérito do Banco Master, sob relatoria de André Mendonça.

Levantamento dos sigilos revelou investigação sobre Flávio Bolsonaro
O plano de negócios de Dark Horse é apenas uma das informações reveladas pelo levantamento de sigilo dos documentos do caso Master.
Entre os materiais que vieram a público está a informação de que o senador Flávio Bolsonaro é formalmente investigado no Supremo Tribunal Federal por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas relacionadas ao financiamento do filme. A investigação foi autorizada pelo ministro André Mendonça em 22 de julho, após solicitação da Polícia Federal e concordância da PGR.

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro também mostram, segundo a PF, contatos diretos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro durante as tratativas sobre os aportes para o filme. Os registros incluem cobranças relacionadas aos pagamentos da produção.
A TVT News já mostrou que o levantamento dos sigilos revelou a inclusão de Flávio Bolsonaro entre os investigados e que a PF apura se houve lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos no contexto do financiamento de Dark Horse. A investigação não representa condenação e busca reunir elementos para esclarecer os fatos e eventuais responsabilidades.
O levantamento dos documentos ocorreu após decisões do STF relacionadas ao sigilo do caso Master. Em 11 de setembro, o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, acolheu pedido da PGR e determinou que André Mendonça liberasse, em até 24 horas, os procedimentos relacionados à Pet 15.556 e à Operação Compliance Zero, ressalvadas diligências ainda em andamento cuja divulgação pudesse comprometer as investigações.