Demori denuncia consulado dos EUA por aliciar jornalistas

Jornalista afirma que agentes do consulado abordaram profissionais durante congresso da Abraji para tratar das eleições brasileiras e da "liberdade de expressão"
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Agentes ofereceram facilidades para obtenção de vistos aos Estados Unidos. Foto: Divulgação

O jornalista Leandro Demori denunciou que agentes e funcionários do Consulado dos Estados Unidos em São Paulo teriam abordado jornalistas durante o congresso anual da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), realizado no último fim de semana, com o objetivo de recrutar profissionais para conversas sobre o processo eleitoral brasileiro e a situação da chamada “liberdade de expressão” no país. Segundo o relato publicado por Demori em sua newsletter A Grande Guerra, ao menos três jornalistas descreveram abordagens semelhantes, que incluiriam inclusive ofertas de facilitação na obtenção de vistos norte-americanos. Saiba mais na TVT News.

A denúncia amplia o debate sobre a atuação diplomática dos Estados Unidos no Brasil em meio ao acirramento das tensões entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Donald Trump, especialmente após uma série de atritos envolvendo vistos diplomáticos, declarações públicas e acusações de tentativa de interferência no cenário político brasileiro.

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De acordo com Demori, os funcionários do consulado circulavam livremente pelo congresso da Abraji e realizavam contatos diretos com jornalistas presentes no evento. O jornalista destaca que as investidas ocorreram de maneira independente, sem qualquer participação institucional da Abraji, entidade reconhecida nacionalmente pela defesa do jornalismo investigativo e da liberdade de imprensa.

“A Abraji não participou das investidas”, escreveu Demori ao relatar que as abordagens partiram exclusivamente dos representantes do consulado norte-americano.

Oferta de facilidades para vistos

Um dos aspectos que mais chamou atenção na denúncia diz respeito ao relato de dois jornalistas que afirmaram ter recebido ofertas de ajuda para obtenção de vistos de entrada nos Estados Unidos.

Segundo Demori, a facilitação não teria sido apresentada como condição para participação nas reuniões, mas como um gesto de aproximação entre os representantes diplomáticos e os profissionais convidados.

As conversas propostas aconteceriam posteriormente em São Paulo e teriam como pauta principal o processo eleitoral brasileiro e avaliações sobre o ambiente de liberdade de expressão no país.

Embora não haja indicação de qualquer contrapartida formal exigida dos jornalistas, Demori classifica a iniciativa como uma tentativa de “aliciamento”, expressão utilizada no título de sua reportagem exclusiva.

Contexto de tensão diplomática

A denúncia surge em um momento de deterioração das relações diplomáticas entre Brasília e Washington.

Recentemente, o governo brasileiro negou vistos a três enviados norte-americanos que pretendiam viajar ao Brasil para reuniões relacionadas ao cenário político nacional. Segundo integrantes do governo federal, dois desses representantes planejavam encontros com aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República.

Em resposta, o governo Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, ampliando o desgaste diplomático entre os dois países.

Nos bastidores do Itamaraty, integrantes do governo Lula passaram a defender medidas de reciprocidade diante das decisões adotadas por Washington.

Reuniões anteriores com influenciadores

A nova denúncia também dialoga com reportagens publicadas nos últimos dias sobre encontros promovidos pelo Consulado dos Estados Unidos em São Paulo com influenciadores identificados com a direita e a extrema direita brasileiras.

Segundo os relatos, essas reuniões ocorreram em grupos reduzidos e tiveram como tema “liberdade de expressão e ambiente digital”.

Uma das participantes foi Maria Fernanda Schmidt, ex-apresentadora do canal Brasil Paralelo. Em publicação nas redes sociais, ela confirmou sua participação no encontro e afirmou que a reunião representou uma oportunidade para discutir desafios enfrentados por influenciadores e produtores de conteúdo no ambiente digital.

Na ocasião, ela publicou fotografias ao lado de outros convidados, entre eles Leandro Narloch, Rafael Ferri e Penélope Nova.

As reuniões passaram a ser interpretadas por setores do governo e por analistas políticos como parte de uma estratégia mais ampla de aproximação com influenciadores críticos ao governo Lula em meio ao processo eleitoral brasileiro.

Congresso da Abraji

O congresso anual da Abraji reúne jornalistas de diferentes veículos de comunicação, pesquisadores, estudantes e especialistas em jornalismo investigativo para debates sobre democracia, transparência, acesso à informação e liberdade de imprensa.

Segundo Demori, justamente por reunir centenas de profissionais da área, o evento teria sido escolhido pelos representantes consulares como ambiente propício para estabelecer contatos individuais.

Até o momento, a Abraji não é apontada como participante ou organizadora das abordagens descritas pelo jornalista.

Debate sobre soberania e processo eleitoral

As revelações ocorrem em meio ao aumento das preocupações envolvendo possíveis tentativas de influência estrangeira sobre o debate público brasileiro.

Nas últimas semanas, integrantes do governo Lula passaram a acusar a administração Trump de estimular narrativas sobre supostas restrições à liberdade de expressão no Brasil, especialmente em temas relacionados à regulação das plataformas digitais e às decisões do Poder Judiciário envolvendo redes sociais.

O governo brasileiro também interpreta como sinal de ingerência a tentativa de representantes norte-americanos de estabelecer contatos com atores políticos e comunicadores durante o período pré-eleitoral.

As denúncias ganharam ainda mais repercussão após informações de que enviados do Departamento de Estado dos Estados Unidos pretendiam discutir temas ligados ao sistema eleitoral brasileiro e à liberdade de expressão durante visitas ao país.

Consulado ainda não comentou

Até a publicação desta reportagem, não havia manifestação pública do Consulado dos Estados Unidos em São Paulo sobre as acusações feitas por Leandro Demori.

Também não foram divulgados esclarecimentos oficiais sobre as supostas ofertas de facilitação para emissão de vistos ou sobre a realização das reuniões mencionadas pelo jornalista.

Caso o consulado ou o Departamento de Estado norte-americano apresentem posicionamento, a matéria poderá ser atualizada com a versão oficial das autoridades envolvidas.

A denúncia reforça um cenário de crescente tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos às vésperas do processo eleitoral brasileiro e amplia o debate sobre os limites da atuação diplomática estrangeira em temas relacionados à política interna, ao ambiente informacional e à cobertura jornalística nacional.

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